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do teatro pela mãe, do personagem amado e do discurso

Sábado, finzinho da tarde, corro com filho pro Sesc mais próximo. Vai ter teatro. Chegamos com a peça já no meio. Sugiro nos sentarmos num banco vago, logo ali. Filho prefere caminhar pela unidade, ir ao café, reparar nas cores das paredes e nos detalhes arquitetônicos do prédio. Ou simplesmente vagar sem rumo. Ok, vamos lá, teatro fica pra outro dia.

Numa das andanças, minutos depois, passamos novamente bem pertinho de onde a trupe se apresenta, e o banquinho vago continua vago. “Vamos sentar só pra ver um pouquinho? Vai que você gosta…”. Filho diz que sim com a cabeça, nos acomodamos (ele no meu colo) e começamos a assistir ao espetáculo.

Tudo muito bom, tudo muito bem, peça regular, um pouco engraçadinha, filho vai ficando quietinho, prestando atenção, não pede mais para levantar e passear por aí. Eu, ligeiramente a fim de ver a peça e querendo mais ainda que o filho comece a gostar desse tipo de evento (confesso), interpreto essa quietude como um sinal de que o pequeno está curtindo. Pra não restar dúvida, pergunto: “E aí, está legal?” “U-hum, está sim, mamãe”. Ok, ótimo, ficamos então.

A peça, que já estava mais ou menos no final, termina uns 15 minutos depois. Mais do que rápido, filho levanta do meu colo e me pede pra retomarmos o passeio pela unidade do ponto em que paramos para ver o espetáculo. Nem uma palavra sobre o que acabou de ver. Perguntei algumas vezes sobre partes engraçadas, quis saber do que ele tinha mais gostado etc, e ele sempre fingindo que não estava ouvindo bem ou emendando uma outra pergunta, sobre qualquer outro assunto, na minha. Paro de insistir.

Voltamos para casa meia hora depois e, na hora de contar para o pai sobre o passeio, nem uma menção à peça. Eu digo: “Mas e a peça? Estava legal, não estava?”.

“Não, não gostei, não”.

“Ué, então por que você ficou? Por que quis ver até o final e não se levantou como a gente tinha combinado?”, pergunto, realmente surpresa.

“Porque você queria que eu visse, mamãe”.

Ca-ta-ploft!

Está aí: a gente promete que não vai sufocar os filhos com nossas expectativas sobre eles, com nossas ansiedades, com nossos desejos de infância mal satisfeitos projetados nos pequenos como se desejos deles fossem, mas, mesmo com todo o cuidado e com toda a sutileza, a gente acaba cobrando dos filhos que se encaixem num molde pré-desenhado para eles pelas nossas fantasias delirantes.

E os filhos, por mais que a gente fique atenta a isso, acabam tentando se encaixar nesses moldes. Não por desejo legítimo, mas por necessidade de serem amados e aceitos.

Uma parte considerável dessa necessidade de serem amados e aceitos dessa forma, ajustando-se às expectativas, é resultado direto de como a gente “educa” as crianças. Por mais que a gente reflita sobre isso e se policie (eu muito), toda a educação que a gente recebeu, introjetou e que por isso baseia inconscientemente a educação que a gente dá quando não percebe, quando não dá tempo de racionalizar, é baseada em julgamento e em condicionamento do amor (condicionamento do afeto, da apreciação, do “orgulho”, da valorização das crianças).

Quando criticamos alguma coisa “errada” ou elogiamos alguma coisa “certa”, estamos julgando ao invés de ensinar, julgando ao invés de compreender, julgando ao invés de acolher e ajudar. Diz Rebeca Wild, sobre as crianças (e pra mim isso vale pra qualquer ser vivo com autonomia de ação, até pra animais): “Quando se sentem bem, não se comportam ‘mal'” (sendo “mal” aqui uma coisa autodestrutiva ou destrutiva em relação a outros seres, à natureza, à vida). Mas ao invés de ajudar a sentir-se bem, a gente oferece julgamento.

E aí o julgamento é uma condição. O amor, a apreciação, o orgulho fica tudo condicionado. E mesmo que a gente não queira ou não sinta verdadeiramente isso, dizer: “filho, que bacana que você fez isso, que orgulho de você” ou “que pena que você fez isso, assim não é legal” é o mesmo que dizer: “não tenho orgulho do que você é, não acho bacana o que você é, mas sim algumas coisas que você faz que eu eu acho positivas e valorizo”.

Ou, em outras palavras, quando educamos pelo julgamento (positivo ou negativo), coisa que a gente acaba fazendo muito frequentemente, mesmo tendo consciência desse mecanismo, porque isso está em nós, no nosso subconsciente e molda a forma como aprendemos a enxergar a educação, as crianças entendem (corretamente, aliás) que há uma espécie de “nota de corte” no nosso afeto, uma linha que divide quem será amado de quem não será tão amado (valorizado, apreciado). E essa linha tem a ver com a satisfação das expectativas que temos dos filhos (porque estamos dizendo isso pra eles o tempo todo quando julgamos e botamos o referencial de julgamento em nós).

O poder do discurso materno (e paterno e de qualquer adulto que seja referência) é justamente esse: criar personagens para as crianças ao sabor do nós adultos julgamos ser o modelo ideal de ação (e nem estou falando de comportamentos mais cobrados socialmente ou que de fato tenham impacto social. Estou falando justamente das pequenas coisas também. Da expectativa que o filho goste de teatro, meu caso; da expectativa de que goste de ler, de que seja gênio na matemática, de que toque um instrumento muito bem, de que seja precoce, de que se destaque etc).

E as crianças passam a infância se enquadrando nesse modelo, a adolescência em conflito com ele (mas sempre submetidas) e boa parte da vida adulta, se sorte tiverem, no divã do analista tentando descobrir quem são de fato para além das personas que lhes garantiram as estrelinhas no caderno.

E a surpresa, no meu caso, foi dar-me conta de que, apesar de saber disso tudo, repeti o modelo e lá estava eu, sutilmente, pressionando meu filho a corresponder a uma expectativa minha. Tanto que ele percebeu (eu não) e se adequou. Inclusive esse é um outro grande problema: as crianças são muito mais sensíveis que nós. Elas percebem claramente aquilo que a gente não ousa pensar. Ouvem o que somos, não o que dizemos. Nosso inconsciente até pode se esconder de nós, mas jamais dos nossos filhos.

O “cataploft” foi um choque, e tive uma longa conversa com meu filho sobre isso, apenas para explicar o que tinha acontecido e deixar claro que eu sentia muito. Também tenho procurado estar mais atenta, mas é difícil pacas, assim como é difícil pacas encontrar e aplicar um novo modelo de educação que não se baseie no julgamento, no controle, na manipulação e na desconfiança da criança (como se ela precisasse ser consertada pelo adulto, esse sim perfeito).

É claro que esse exemplo da peça não é exatamente tão profundo e/ou fundador quanto o que acontece cotidianamente e a gente não vê, quanto o que quer dizer Laura Gutman quando fala do poder do discurso materno (expressão que “roubei” dela e que deu origem a esse livro aqui), quanto o que apontam, sobre esse tema, pessoas como Montessori, Alfie Kohn, Rebecca Wild. É “só” uma quase metáfora. Mas a metáfora tem o mesmo princípio que a realidade que ela explicita. E nisso consiste a validade de não subestimá-la. Até porque a realidade é mais difícil de enxergar.

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Instada pela escola do meu filho, reli esses dias dois textos bárbaros do Alfie Kohn, traduzidos pelo Gabriel Salomão (do Lar Montessori), sobre os elogios. Tem a ver com essa conversa aí de cima, na medida em que explicita que os elogios (e o “reforço positivo”) são a face mais sutil (e por isso mesmo perigosa) da manipulação, do afeto condicionado, da desconfiança e do desequilíbrio de poder que permeiam –infelizmente– as relações com as crianças.

Vale a leitura. Aqui e aqui.

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o tapinha não só dói como se reproduz

decur

Algumas considerações minhas sobre a aprovação da “Lei da Palmada”:

1) Não há interferência indevida do Estado na vida familiar, privada, particular. O Estado tem o dever de proteger a vida das pessoas e é precisamente isso que está fazendo agora. O corpo do outro é do outro, não pertence a ninguém além do outro. Não é porque o outro calhou de ser seu filho que o corpo dele virou “privado”. O corpo de uma pessoa é inviolável; ninguém pode bater em ninguém. Ninguém pode bater em criança; criança também é alguém, seu corpo também é inviolável. Óbvio. Seja um “tapinha”, um soco, um chute, um tacape na cabeça.

2) O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) já previa proteção para casos mais graves de agressão física. Mas não dizia nada sobre o famigerado “tapinha educativo”. A mudança que a “Lei da Palmada” realiza é justamente nesse ponto. Dá nome certo à violência do tapa na cara, do beliscão, do grito, da humilhação: violência e ponto. Mas, ao contrário do que muita gente tem dito, uma mãe que deu uma “palmada” no filho não será presa. A ideia da lei não é mandar pais e mães pra cadeia, minha gente (apesar do raciocínio binário de muitos pais violentos não dar conta de uma ação educativa que não seja punitiva). Nomeando a violência e a inscrevendo no ECA, na lei, o objetivo é conscientizar os pais que ainda não entenderam que há formas não-violentas de educar e que são essas as que melhor criam condições para uma sociedade mais justa e menos violenta (que, em tese, todos queremos). Melhor dizendo:

3)  há formas não-violentas de educar. “Tapinha educativo” não ensina absolutamente nada, exceto se o cuidador em questão quiser ensinar violência (praticar ou submeter-se a). Um exemplo bem basiquinho: imagine que tem lá uma criança fazendo qualquer coisa que o cuidador considere errada. Daí o cuidador dá uns gritos, lá de longe, mandando a criança parar. Como o poder é impotente, e a criança é potência pura, a criança OBVIAMENTE não para. Aí o cuidador vai lá e dá um tapa na criança. Vamos considerar que se pretendesse evitar que a criança se machucasse. Com o tapa, será que a criança aprendeu que o comportamento mais seguro seria não mexer naquele determinado objeto? Não, né? Porque tudo o que o adulto fez para ajudar a criança a compreender o perigo ou os limites seguros para se agir foi… nada!

4) Ainda que “tapinha” fosse mesmo educativo, que “funcionasse” instrumentalmente em algum nível, há coisas que não se faz por princípio, sabe? Porque a gente se pretende civilizados, inteligentes. A gente se pretende de alguma forma uma sociedade que usa razão, empatia, que convive e que abre mão conscientemente do uso da violência em função de uma convivência baseada em sentimentos mais “elevados” ou, dito de outra forma, com menos potencial lesivo. É como a tortura, entende?; ainda que “funcione” (e nem estou dizendo que funciona), não dá pra apoiar, aceitar, legitimar. Bater em criança está fora de questão.

5) Violência é SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE a perda de controle de quem violenta. Não é nada além disso. Não é educação, não é amor, não é nada. É só perda de controle. É só o uso de vantagens física e emocional, relativas ao poder, para controlar o comportamento de alguém pelo medo e pela dor ao invés de o indivíduo que violenta sentir ele próprio a dor que lhe compete. O comportamento do outro gera no sujeito agressivo uma sensação que ele não suporta. Não suportando, ele vai lá e agride. Perda de controle sobre si mesmo.

6) A responsabilidade pelo que se sente é sempre de quem sente. O que significa dizer que se a mãe se encoleriza com um comportamento do filho, a responsabilidade pela cólera é absolutamente da mãe. JAMAIS do filho. A mãe tem de olhar pra si mesma e entender as razões pelas quais sente-se dessa forma. Educar, colocar limites, enfrentar conflitos e lidar com as diversas demandas dos filhos não deveria causar raiva. Se causa, tem alguma coisa erra aí –com o cuidador– que precisa ser investigada –pelo cuidador. Bater no filho pra passar a raiva não vai resolver nada (além de ser uma covardia em muitos aspectos).

7) Violência gera violência. A absoluta falta de destreza para lidar com as próprias emoções a ponto de agredir alguém é algo que se aprende. Se aprende ao levar um tabefe. Se aprende ao ser humilhado. Se aprende ao ter a autoestima destroçada por pais violentos.

8) Adultos que defendem a palmada porque “apanharam e estão bem/sobreviveram/são educados etc (fill the blanks)”, poderiam refletir sobre a Síndrome de Estocolmo e sobre a adolescência, também conhecida como aquela fase da vida em que a gente começa a descobrir os próprios valores, interiorizar-se e aceitar que os pais não são perfeitos. É quando a gente amadurece o suficiente para aceitar que, mesmo amando os pais, mesmo valorizando tudo o que fizeram pela gente, eles erraram feio, erram feio e a gente não precisa fazer a mesma coisa, se essa coisa não serve mais. É preciso uma boa dose de maturidade para cortar esse cordão umbilical sutil com os pais e seguir a vida autônoma, sem dependências e sem demonização.

9) Adultos bacanas que apanharam não são bacanas porque apanharam, mas APESAR de terem apanhado.

10) Para aqueles que ainda não conhecem formas de realmente educar seus filhos sem o que o senso comum oferece como alternativa (agressões, ameaças, supernanny e castigos), mas se interessam por uma relação mais autêntica e respeitosa com os filhos, recomendo algumas leituras, começando por:

a) essa seleção aí abaixo de textos das cientistas Lígia Moreiras Sena e Andréia C. K. Mortensen (uma das administradoras da ótima comunidade Crescer sem violência):

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/02/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/11/postagem-coletiva-19-de-novembro-dia.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/04/como-o-mau-jornalismo-incentiva.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2014/03/dos-direitos-radicais-das-criancas.html

O blog da Lígia, o “Cientista que virou mãe“, aliás, é todo ele altamente recomendável. Lígia e Andréia acabaram de lançar um livro justamente sobre como –e por que– educar sem palmadas.

b) o blog “Conexão Pais e Filhos“, do Marcelo Michelsohn, é basicamente um amontoado de exemplos de educação ativa e da educação pela conexão, ambas correntes absolutamente não-violentas. E absolutamente eficazes (sou testemunha, sou aluna do Michelsohn, sou leitora de Rebeca Wild, da educação ativa, e de Patty Wipfler, da educação pela conexão). Aqui um post dele essencial sobre o tema. Mas todos são ótimos, pois ajudam a entender a educação sob outro prisma, que não o da dominação-poder-controle. Michelsohn dá aulas sobre conexão entre pais e filhos. Haverá novas turmas, basta dar uma olhada no blog dele.

c) falando em Patty Wipfler, ela coordena uma instituição nos EUA, a Hand in Hand Parenting, que dissemina muita informação sobre educação pela conexão, educação respeitosa e não violenta. Os cursos e livros são, naturalmente, pagos. Mas há conteúdo grátis para se ter uma ideia do tipo de perspectiva educativa.

d) outro ótimo blog para se entender a natureza das crianças e das relações saudáveis que podemos estabelecer com elas –e que também dá muitas ideias e subsídio para quem assume uma educação não-violenta– é este aqui, o “Lar Montessori”, escrito por Gabriel Salomão, professor montessoriano e ex-aluno de colégio que aplicava o método desenvolvido pela médica italiana Maria Montessori. Aqui também a “palmada” é cientificamente rechaçada. Montessori, há quase 100 anos, já sabia que, além de eticamente questionável, bater é ineficaz.

e) há também a criação por apego, que prega respeito na relação com o filho, inclusive na hora de se colocar limites. Aqui um blog ótimo, do Thiago Queiroz, o Paizinho, Vírgula!, sobre o tema.

f) além dos blogs, há os livros. Sim, educar dá trabalho e exige empenho, aprendizado, entrega, como tudo o que realmente vale a pena nessa vida. Eu começaria (como de fato comecei) pelo “Besame Mucho“, do Carlos González. Tem o “Unconditional Parenting“, do Alfie Kohn. E “Etapas del Desarrollo“, da Rebeca Wild. Recomendo “A maternidade e o encontro com a própria sombra” e “O poder do discurso materno“, ambos da Laura Gutman. E ainda “Mente Absorvente” e “A Criança“, da Montessori, além do já citado “Educar sem violência“, da Lígia e da Andréia.

g) finalmente, mas não menos importante: vídeos da Ana Thomaz acho essenciais nessa jornada. Já cansei de recomendá-los aqui. Mas valem cada segundo. Começaria por esse aqui, depois iria pra esse e pra esse outro aqui.

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PS: leia também a “Lei da Palmada”. Aqui ó.

PS2:  Para quem diz que “quem cuida do meu filho sou eu”, seguinte: ok, cuidar você pode. Melhor: cuidar você deve. O que não pode é bater. Entendeu?

Se violência é educação, posso bater em você também? Porque, segundo meus parâmetros, pai que bate em criança precisa aprender muita coisa.

PS3: a imagem lindíssima que ilustra/complementa o post é do artista e ilustrador argentino Guillermo Decurgez, o Decur. Ele tem um perfil artístico no feissy, este blog e uma loja bacana no Etsy.

 

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