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uma cama para cinco

Daí que filho está gripado. Daí que o pequeno ainda não sabe ao certo como funciona esse treco complexo que os adultos chamamos “assoar o nariz”. Daí que o problema não é apenas ter de respirar pela boca na maior parte do tempo. Mais complicado é que o catarro não expelido adequadamente se assenta na garganta e gera tosses, muitas tosses.

Daí que essas crises de tosses, às vezes, vêm fortes, bravas, irrompem sem aviso prévio e só param quando Enzo vomita. Vomita de tanto tossir. Daí que, para dormir à noite, fica um tanto mais complicado. Enzo acorda diversas vezes por causa das tosses e os pais mal dormem preocupados com o pequeno. Solução: pai sugere trazer o filho pra cama do casal, já ocupada pelos dois e pela gata (*). Mãe topa e, com o a chegada da criança e do Pimpão (o urso de pelúcia), os cinco se espremem para caber no (pequeno) espaço que lhes compete embaixo do edredom.

Enzo já dormiu na nossa cama antes, claro. Mas nunca desde o início da noite. As vezes em que o bebê divide o colchão com a gente acontecem no finzinho da madrugada, começo da manhã, quando ele acorda me chamando. Em geral, eu costumava levantar e niná-lo até dormir. Depois, berço de novo. Acontece que ele pesa, hoje, 14 kilos e é filho de uma mulher que teve escoliose na infância. Não posso com peso e estava sendo muito, mas muito difícil ninar Enzo por 20, 30 ou até 40 minutos. Foi aí que, coisa de uns dois meses atrás, Dri teve um bela conversa com nosso filho numa dessas madrugadas em que ele queria passar tempo no meu colo antes de dormir de novo. Propôs dormirmos juntos na cama e, daí em diante, eu nem levanto mais para pegá-lo. Dri vai lá e traz Enzo pra deitar do meu lado. Coluna agradeceu horrores.

Mas foi a gripe, por essas vias meio tortas, que botou o pequeno entre a gente desde o comecinho da noite, oficialmente, não como um arremedo de madrugada, mas como o lugar certo para se dormir desde que se deita. E quer saber? Adoramos. Porque é muito bom dormir apertadinho com quem se ama, ué. Porque é divertido. Porque dá uma sensação de aconchego e acolhimento sem igual. Porque sentir filho botando a mãozinha no seu rosto pra ver se você está mesmo ali é de uma ternura difícil de descrever. Porque numa dessas noites, acordei (eu também estou gripada, o que dificulta dormir bem) e vi Enzo enroladinho no papai, cabecinha no ombro, agarrado ao braço do Dri, coisa mais linda. Porque é gostoso e ponto final.

Adotamos a cama compartilhada de vez? Não. Mas mais por causa do Enzo do que nossa. Na terceira noite dormindo com a gente, ele mesmo pediu pra voltar para o berço, creia. Não se acostumou muito com a confusão de gente se virando para lá e para cá a toda hora. E ele é bem espaçoso para dormir, gosta de ficar atravessado, braços e pernas abertas, o que fica meio impossível quando se bota dois adultos, um menino, uma gata e um urso de pelúcia em apenas 1,3o metro de largura.

Mas, depois dessas experiências, me arrependo horrores de não ter compartilhado cama com o pequeno desde sempre. Se tiver um segundo filho, certeza que farei diferente. É como aconteceu com uma amiga minha: primeiro filho, seguiu à risca as indicações e “conselhos” dos “especialistas” de sempre, esses que aparecem em todas as revistas, sites e livros de maternidade. Botou o bebê para dormir em quarto separado logo que voltaram da maternidade. Com a segundinha, o oposto. Botou marido pra dormir com o mais velho e levou a nenê pra cama de casal. Resultado: noites melhores dormidas para todos os envolvidos, amamentação exclusiva sem a menor dificuldade (primogênito complementou), livre-demanda, bebéia tranquila, apegadinha, mas bem mais independente que o irmão mais velho na mesma idade.

Quando Enzo nasceu, eu era ainda mais ignorante sobre a bebezice do que sou hoje. Já tinha descoberto alguns blogs maternos, mas, apesar de interessada em várias ideias novas apresentadas por aqui, o desconhecimento e a insegurança me faziam pender um pouco  mais para o lado “mainstream” da maternidade, aquele que sai mensalmente na “Crescer” e na “Pais & Filhos”, aquele representado lindamente (só que não) na TV pela “Supernanny” e suas ideias autoritárias, desrespeitosas e inócuas de disciplina.

Eu era tão carente de conhecimento e de amadurecimento que projetava um ideal de maternidade –que espelhava, claro, minhas necessidades infantis de ser “perfeita” e “ganhar uma estrelinha no caderno” da sociedade, da família, dos amigos no final do ano–  no qual eu seria melhor mãe tanto mais quieto, educado e obediente fosse meu filho. Quanto mais Enzo se parece com uma boneca, tanto melhor mãe eu seria.

Daí que, para isso, nada “melhor” que meter as caras nesses livretinhos de auto-ajuda materna aos montes por aí e ouvir os “conselhos” da pitaqueirada de plantão de sempre (o que inclui familiares de todos os graus, médicos, estranhos e até enfermeiras da maternidade. Porque qualquer um, qualquer um mesmo, sempre se sente no direito de te dizer como educar seu filho. Para mim, essa é, sem dúvida, a coisa mais irritante da maternidade). E eu acabei fazendo um pouco isso no começo mesmo.

E os conselhos em geral diziam (e dizem) o seguinte, basicamente (vou exagerar, mas é bem pouco): 1) Filho bom é filho absolutamente submisso e treinadinho pra só chorar quando tiver fome; 2) Mãe que é mãe tem mais o que fazer na vida do que dar peito, dar colo, dar atenção, dar amor etc. Então bote logo esse nenê no lugar dele, que é naturalmente o carrinho, o berço, outro quarto (quanto mais longe do seu, melhor); 3) A vida é dura aí fora, portanto, nada de tratar esse nenê como se ele fosse…er… um… nenê. Ele tem que aprender a se virar, né não? 4) Jamais, em hipótese alguma, coloque seu filho no mesmo quarto que vocês. Isso dá em divórcio por falta de sexo (porque, né?, só é permitido transar na cama e à noite. Se o bebê estiver lá…) e porque o seu marido vai sentir ciúme do filho (lógico, todo homem tem o desenvolvimento emocional de uma criança de quatro anos e vai rivalizar com a própria cria). Além do mais: cama compartilhada gera dependência (bebê tem que nascer adulto já, minha gente!). Pode até ser agradável, delícia mesmo, mas, mãezinha, agora que você tem um filho, tem deixar de lado essas coisinhas à toa, sabe? Maternidade não é gostoso, maternidade é padecer no paraíso, mãezinha, lembra? Maternidade é disciplina. É ensinar seu filho a lidar com esse mundo cruel. Não seja boazinha com ele, não facilite a vida desse bebê, não acostume essa criança no colo, não crie um filhinho-de-mamãe. Supernanny nele! Cantinho do pensamento nele! Deixe chorar no escurinho do quarto, sozinho, no berço, até dormir!

Não comprei toda essa baboseira aí de cima, mas uma parte, infelizmente, sim. Eu achava mesmo que seria uma boa mãe se disciplinasse meu filho desde pitiquinho, se ele “aprendesse” a dormir sozinho desde sempre, se tivesse horários rígidos e mamadas de três em três horas.

Sorte nossa é que mãe tem instinto. Forte. Imperativo. Acho que foi isso que me fez começar a dar mais ouvidos às outras mães da madresfera que aos especialistas de sempre. Foi isso que me fez decidir por botar Enzo dormindo no nosso quarto desde que chegamos do hospital. Não na nossa cama (que pena!), porque eu tinha medo de machucá-lo. Mas no quarto. Ficou dormindo com a gente por quase um ano. E foi ótimo. Mas teria sido ainda melhor se fosse na cama. Calor humano, sabe? E era isso que eu queria, que nosso instinto –o meu e o dele– pedia. Frustramos um desejo bem genuíno. Lamento. E lamento ainda mais agora, que experimentei de fato. Putz, é bom, é o “certo”. Não o certo universal que não acredito nisso. Mas o certo pra mim, entende? Eu já tinha virado, depois de tudo que aprendi na madresfera com tantas mães maravilhosas que encontrei por aqui –e também com González, com Gutman, com Gerhardt, com Odent, com Uplinger–, uma entusiasta teórica da cama compartilhada. Agora, apesar da pouca experiência, virei uma entusiasta prática.

Hoje mesmo, Enzo veio pra nossa cama às 5h45 da matina. E apesar de só ter voltado a dormir às 7h50, foi bom, foi ótimo, foi gostoso, foi natural. Hoje, e cada vez mais, acho mesmo que o lugar das crianças pequenas é com os pais. Fisicamente com os pais. No colo, na cama, grudadinho no sofá. Contato, calor, pele-com-pele, carinho, toque delicado. Isso diz muito, muito mais que qualquer  “eu te amo”.

Fica cada vez mais fica evidente pra mim, como já dizia Montessori há duzentos anos, que as crianças são naturalmente impulsionadas para a independência. É natural, a gente não precisa fazer nada, só estar ali do lado, dando condições para que os filhos deem os próprios passos quando for a hora. E esse é o ponto: quando for a hora. Quando o filho está pronto, ele se vira sozinho sem precisar ser “ensinado”. Ninguém precisa ensinar bebê a dormir sozinho. Se ele ainda não faz isso, é porque precisa de colo, ué! Porque isso é o natural para ele naquele momento de seu desenvolvimento. Não se precisa treinar uma criança a usar o penico. Quando ela estiver pronta, vai partir dela a iniciativa para o desfralde. Não precisa tirar filho da cama dos pais. Quando ele estiver pronto, ele vai pro quarto dele sozinho, como fez Enzo e como fez a Clara, filha da Lígia Moreira Sena, aos 3 anos.

Então fica aqui meu relato e minha sugestão: se você tem vontade de oferecer cama aos filhos, vai fundo. Porque pode dar muito certo. E porque é bom, bom demais. Aqui tem um post muito bom e muito completo sobre cama compartilhada, com um viés científico, escrito pela Lígia e pela Andrea Mortensen, duas cientistas que pesquisam o tema há tempos. Super recomendo.

(*) Pela verdade dos fatos: a cama é da gata desde sempre. Ela é quem chega primeiro, se espalha e, depois, permite que Dri e eu deitemos no canto que sobra. Não sei se ela tem curtido muito a ideia de dividir seu espaço com Enzo e Pimpão, mas até agora ainda não reclamou…

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a vergonha alheia e o respeito pelos sentimentos dos bebês

Sabe o que de mais importante eu tenho aprendido com meu filho? Que “nós”, os adultos, e “eles”, os bebês e crianças, não somos assim tão diferentes quanto o metro e meio de altura a mais (no nosso caso) nos faz crer.

"Mother and Child", obra da Susan Stockdale (*)

“Mother and Child”, obra da Susan Stockdale (*)

A “descoberta” começou num inocente passeio de domingo, há umas três semanas. Enzo estava correndo numa arquibancada, segurando minha mão. Mesmo assim, tropeçou e levou um tombinho bem leve. Reagiu super mal, chorou horrores, gritou, saiu correndo, não aceitou conforto, afago, palavras amigáveis, nada, nada, nada. Qualquer tentativa de aproximação, preocupação ou acolhimento era recebida com gritos, choros e palavras de ordem: “Não! Não! Não! Não!”

No meio dos protestos, ele começou a dizer que estava “bavo”, “bavo”, “bavo” e, sem querer-querendo, deu a deixa de que eu precisava para tentar um diálogo. “Bravo por que, filho?” O pequeno começou a apontar em direção às pessoas que estavam na quadra. Olhava para as crianças –com as quais estivera brincando até pouco antes do tombinho–, apontava para elas, gesticulava com a testa franzida, olhos cheios de lágrima e, em seguida, mostrava o local onde tinha caído. E recomeçava a chorar. “Bavo, bavo, bavo”.

Fiquei confusa com aquela gesticulação toda, os balbucios, o choro, a “baveza”. Demorou um pouco, confesso, mas a ficha caiu. E quando caiu, não tive dúvidas, mas perguntei: “Você ficou com vergonha, filho?”.

-Aaaaah! Gonha, gonha, gonha!

Pronto, o filho voltou a sorrir. Eu tinha entendido, finalmente, o que ele estava tentando me dizer. E aí se acalmou imediatamente, veio se sentar no meu colo e conversamos longamente sobre o tombo, a raiva (que ele traduziu como “bavo”), a vergonha. Perguntei se ele tinha ficado envergonhado por cair simplesmente ou por cair na frente das pessoas. E descobri que a frustração foi por ambas as coisas, mas mais por ser num local público, cheio de gente.

Descobri que Enzo, apesar da pouca idade, é muito exigente consigo, não gosta de errar. Pior ainda se o erro for cometido com testemunhas. Expliquei que todo mundo cai, que todo mundo já caiu. Dri e eu mostramos a ele algumas cicatrizes e sinais, contamos como e quando nos machucamos daquele jeito. E isso tranquilizou o pequeno, pelo menos em relação àquele tombo.

E –mais importante– descobri que, embora ainda um bebê, meu filho já tem noção de si mesmo, sentimentos complexos  e uma vida emocional que, em geral, gostamos de atribuir apenas aos adultos. Quando uma criança cai e chora, na maioria das vezes, nos esforçamos ao máximo para sufocar o choro, minimizar os sentimentos dela, diminuir a importância do que essa criança está sentindo. A resposta padrão é sempre “não foi nada”, ou “logo passa” ou ainda o infame “antes de casar, sara” (eu detestava ouvir isso!).

Costumamos menosprezar os sentimentos das crianças. Dizemos que, se choram “demais” porque caíram, são “manhosas”, “birrentas”, “carentes”, “querem chamar a atenção”. Não somos empáticos com elas, não nos colocamos em seus lugares, não procurarmos enxergar o mundo pelos olhos delas e aí perdemos a oportunidade de perceber que elas somos nós. Que elas sentem como nós, só que com mais intensidade (ainda não têm o arcabouço racional, fisicamente falando inclusive, que nos permite organizar emoções e lidar melhor com as questões emocionais).

Carlos González (de novo ele, eu sei, mas fazer o que se o cara é bom?) foi o primeiro que me alertou, em seu ótimo “Besame Mucho“, para esse, digamos, fenômeno. Ele sustenta, e eu concordo, que tratamos as crianças como quase-pessoas, não como pessoas propriamente. Não respeitamos –e sequer admitimos– os sentimentos delas, não imaginamos que também se envergonham, que também se irritam, que se assustam, que se frustram e que todo esse emaranhado de emoções precisa ser expressado.

Quando um filho expressa o que sente, tratamos logo de dizer que “passa” ou que aquilo é “manha” e, portanto, o melhor a fazer é ignorar.

Por que fazemos isso? “Sei lá” seria a resposta mais honesta. Mas vou chutar outras alternativas. Uma delas é que somos ignorantes mesmo. Ponto. Sabemos pouquíssimo sobre a psicologia e o desenvolvimento emocional dos bebês e das crianças muito pequenas, dito por uma das mais reputadas especialistas no assunto, a britânica Sue Gerhardt.

(((Ela é psicoterapeuta e estudiosa da neurologia de bebês e crianças ainda na primeira infância. Escreveu o altamente recomendável “Why Love Matters” (infelizmente ainda sem edição em português), que evidencia como o amor e o tratamento carinhoso e respeitoso nos primeiros três anos de vida modificam para melhor a estrutura física do cérebro.)))

Nós não sabemos porque os bebês agem como agem e tendemos, então, a avaliar suas ações pelo conhecimento que temos do mundo emocional adulto. Logo, um bebê que ignora um “não” está “testando limites” ou simplesmente testando a paciência dos pais, desafiando. Se chora por alguma coisa que não compreendemos ou que, para nós, não tem importância, então são “manhosos”, “choram para chamar a atenção”. Se ficam irritadiços “à toa”, são “mimados” ou “não tem limites”.

São poucas as vozes discordantes. Duas delas já citadas. Tanto Gonzalez quanto Gerhardt defendem que, assim como os adultos, crianças têm mau humor, dias ruins, se impacientam e estressam com coisas aparentemente banais, mas que podem ser, na verdade, “gotas d’água” em processos emocionais desgastantes que ficam alheios aos adultos. Afinal, bebês não falam ou não falam bem e –plus– entendem muito pouco do que acontece consigo mesmos para expressar com exatidão o que sentem e porque sentem.

Também dizem claramente o seguinte: suportamos adultos “dando chiliques”, sendo grosseiros, se comportando mal. Ninguém vê um adulto nervoso e diz: “ah, seu manhoso, está bravo por quê? Quer um motivo real para ficar bravo? Vem cá!”. Nosso esforço, ao contrário, é sempre no sentido de tentar: a) entender o motivo da explosão e 2) acalmar o dito cujo. Por que não fazer o mesmo com nossos filhos, tão mais frágeis, inconstantes e realmente necessitados desse tipo de apoio?

Até os especialistas mais “mainstream”, que reproduzem o senso comum e esta postura desconfiada em relação às boas intenções das crianças, como o pediatra norteamericano Harvey Karp (autor, entre outros, de “O bebê mais feliz do pedaço” e “A criança mais feliz do pedaço“), reconhecem que é preciso muito mais de empatia que de desconfiança na hora de educar filhos. Karp diz em várias passagens de seus livros que acredita que os bebês sintam de forma muito parecida com a nossa, com o agravante de que entendem ainda menos do que “a gente grande”  sobre o que estão sentindo, o que, claro, aumenta a reação.

Alguns estudiosos levantam boas hipóteses sobre o funcionamento, por assim dizer, dos bebês (lá vamos nós falar de novo do González, da Gerhardt, do Winicott). Parte deles chegou a provar teorias interessantes (caso dos citados e também de Melanie Klein, John Bowlby), mas essas teorias não repercutiram entre a maioria dos pediatras, profissionais de saúde (física e mental)  e das mães da nossa geração  (ou da geração das nossas mães).

Arrisco dizer que não repercutiram porque eram –e são– francamente contrárias (sob um ponto de vista bem limitado) ao “espírito do tempo” das nossas gerações. Quem ia querer saber de colo em tempo integral se o “bacana”, o “moderno” é mãe que tem carreira? Quem ia querer saber do prazer da amamentação se prazer mesmo a gente encontra é no shopping?

Estou exagerando na descrição só pra mostrar as contradições. Não acho que mulher não deva ter carreira (eu tenho uma e amo!), ou que não possa gastar com o que bem entender ou que seja culpada disso ou daquilo. Só usei esses exemplos pra dizer que a sociedade do consumo, que ganhou força incrível depois das duas guerras do século passado, nos fez crer em um monte de coisas, infantilizou toda uma geração, só pra vender mais. Nesse contexto, olhar o outro de frente, com maturidade e respeito, não faz sentido. Se for uma criança então, piorou. Soma-se a isso o fato de que a infância já não era mesmo muito respeitada mundo afora (a “invenção” da infância é bem recente) e pronto. O pouco de conhecimento que temos sobre a vida psíquica das crianças pequenas vem sendo ignorado de propósito há tempos.

Daí, voltando pro meu exemplo prosaico e singelo, meu filho, tão pequeno, me dá um bela de uma lição e traduz, em atos, o que esses caras todos aí de cima levaram anos estudando. Ele sente sim. “Tombinho”, pra mim, é coisa séria pra ele. E, sim, mamãe, é preciso respeitar e acolher, ajudar o pequeno a processar a vergonha, o medo, a frustração e a raiva, que são sentimentos humanos, tanto dos “grandes” quanto dos “pequenos”.

Dizem o próprio Karp e, com muito mais propriedade, a Laura Gutman (**) que somos nós, pais/mães e adultos, que precisamos nomear os sentimentos dos filhos para ajudá-los a entender o que se passa com eles e, dessa forma, aprender a lidar (um pouco melhor) com as emoções. E foi precisamente na medida em que eu nomeei a vergonha de Enzo que o sentimento passou a fazer sentido e o choro perdeu sua função primordial, a comunicação.

De lá pra cá Enzo fala muito, muito mesmo sobre sentimentos. Virou um “bavinho”, pois qualquer pequena frustração que tem, corre me contar anunciando que está “bavo”. Até faz graça com isso, é preciso dizer, e às vezes fica “bavo” de mentirinha. De todo o modo, também é preciso dizer, praticamente não faz “birra” no sentido clássico do termo e simplesmente não chora mais para expressar qualquer sentimento que tenha. Sempre fala o que está sentindo e isso resolve ou alivia o conflito, seja dele com ele mesmo seja dele com a gente (quando negamos alguma coisa, por exemplo).

Além do mais, as crises de frustração, que duravam bem mais, agora são rápidas e levam, em geral, o tempo de uma conversa. Também sinto que a ligação e a confiança mútuas aumentaram. Sei que essa confiança vai fazer a diferença no nosso relacionamento –e no relacionamento dele com outras pessoas– quando for maior e isso, por si só, já será muito.

****

(*) Susan Stockdale é uma artista norteamericana, ilustradora de livros infantis, que eu conheci fuçando no Etsy (loja virtual de arte, design e quinquilharias bonitinhas diversas). A imagem, aliás, é de lá mesmo, vá por aqui se quiser mais detalhes.

(**) Recomendo muito uma série de vídeos de uma palestra da Gutman sobre seu livro “El poder del discurso materno“. Aqui embaixo, o primeiro trecho de 7, que valem a pena.

Dá pra ir assistindo às outras partes pelo próprio navegador do You Tube (por aqui). Altamente recomendável.

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não gosto de manha, a palavra

Não gosto da palavra manha. Não acredito nela, não uso. Meu problema com a palavra começa em seu pressuposto: o bebê só precisa de alguns tipos de cuidados. Portanto, se chorar querendo qualquer outra coisa, é “manha”, é um “choro sem motivo”.

No senso comum, em se tratando de bebês, manha equivale a manipulação, a chorar à toa com intenção de manipular os pais para obter deles algum benefício a que o bebê não tem direito -ou que não é “bom” para ele. Significa exagerar uma emoção com o objetivo deliberado de enganar mamãe e papai, sensibilizá-los a dar algo que não deveriam dar ou que simplesmente não dariam, pois não é necessário.

Não faz muito tempo, numa consulta com a pediatra do Enzo, levei uma bronca por “perder” muito tempo com Enzo e ficar à disposição dele o dia todo. Para eu saber se estava “exagerando” ou não nos cuidados, a dra. Ped me deu a seguinte receita: põe a cria em algum lugar seguro (carrinho, cercadinho, tapetinhos etc). Se chorar, faça um check list mental: ele está alimentado? Está limpo? Está com alguma dor ou incômodo? Se a resposta for “sim” para as duas primeiras e “não” para a última, então o choro é “manha”, ele não precisa de nada.

Aí eu pergunto:

1) Quem disse que o bebê só precisa de cuidados físicos? Quer dizer que se estiver de barriga cheia, limpo e sem dor o resto é frescura? Necessidades psicológicas, emocionais, curiosidade tudo isso é ignorável? É desejável que seja ignorado? Nem pode ser considerado uma necessidade?

O que leva à segunda pergunta.

2) Quem disse que só queremos -ou que só devemos querer- o estritamente necessário? O que não garante a nossa sobrevivência imediata é supérfluo e desejar isso é errado? E se fosse um adulto? É assim que funciona também? Só precisamos garantir alimentos, higiene e alívio pra enxaqueca? Todo o resto é dispensável? Amor? Carinho? Amigos? Uma cervejinha gelada? Um livro? Um disco? Querer essas coisas é frescura e manha?

Ou 0s adultos têm mais valor que os bebês? Podem querer mais coisas? Bebês não sentem? Não desejam? Não podem desejar sei-lá-o-quê? Só gente grande pode ter vontades esquisitas (tipo ficar milionário antes dos 30)?

O pior é que tachar os pequenos como manhosos a priori não quer dizer apenas que as crianças não têm direito a nada que não seja necessidade básica -e física ainda por cima. Quer dizer que elas não têm nem o direito de pedir por coisas que não sejam comida, bumbum limpo e, eventualmente, um remedinho para dor de ouvido.

Dizer “isso é manha” desqualifica, de uma só tocada, o pedido (o ato de pedir, reivindicar, expressar desejo e frustração) e o desejo em si, já que, senso comum, manha é “chorar à toa”. Para muitos, psicólogos inclusive, alguns dos quais li recentemente, dar o que a criança pede é igual a contentar todos os seus “caprichos”. E reduzir os quereres e necessidades das crianças a “caprichos” não é de uma soberba imensa? Para mim, é.

Se meu desejo, adulta que sou, é um desejo digno; se nós, “gente grande”, somos estimulados (até demais) e super premiados por “lutar” pelo que queremos, porque o querer das crianças deve ser menosprezado?

O pediatra espanhol Carlos Gonzalez diz, em seu ótimo Besame Mucho, que nos acostumamos a tratar os pequenos de forma desrespeitosa, de maneiras que não trataríamos adulto nenhum. E provoca: ué, não somos todos iguais, afinal? Ou, como dizia o poeta, uns são mais iguais que os outros? Ele desafia: antes de fazer qualquer coisa a um bebê ou a uma criança, imagine o que faria na mesma situação se fosse um adulto.

Isso significa atender a todos os desejos dos bebês? Claro que não. Concordo com quem diz que é nosso papel de pais ensinar e ajudar os filhos a lidar com a frustração. E nem todos os desejos podem mesmo ser realizados, na bebezice e na vida.

Mas discordo muito da pediatra sobre:

1) A atenção que Enzo merece: não acho que eu não deva estar disponível, que eu deva ensiná-lo a “não precisar de mim”. Como eu já escrevi outras vezes, ele precisa, eu quero que precise, é bom e natural que precise, pois ele é um BEBÊ. E acho que é natural que qualquer coisa de que ele precise ou que ele queira o faça procurar por mim ou pelo pai, do jeito que ele sabe e pode fazer: chorando. Se vamos dar o que ele quer é outra coisa, mas não quero tachá-lo de manhoso só porque ele pede, nem vou ignorá-lo.

2) O que é necessário: acho colo necessário, acho beijo necessário, acho afago necessário, acho sentir-se amado necessário, acho sentir-se seguro necessário, acho sentir-se acalentado necessário, acho toque necessário, acho alegria necessária, acho riso necessário, acho brincadeirinhas necessárias. Não acho limpar a bunda e encher a barriga as únicas necessidades.

3) O que fazer quando Enzo quer algo de que não precisa: é ótimo que pessoas, incluindo crianças, queiram o que não precisam. Se a gente só quisesse aquilo de que precisasse, seríamos todos nômades, coletores de frutos, caçadores de pequenos animais, viveríamos em cavernas e usaríamos desenhos toscos para nos comunicar. Nem os bichos limitam seus desejos às necessidades. Minha gata não precisa de colo, mas adora esse tipo de afago; não precisa da nossa cama, mas prefere dormir com a gente que sozinha. Podendo atender a esses desejos (dos filhos, dos gatos, dos amigos, nossos mesmos) -e eles sendo saudáveis- não vejo razão para negar.

4) Como e quando ensinar a lidar com frustração: não acho que a gente precise marcar na agenda: esses ensinamentos serão naturais, se estivermos atentos aos filhos e a nós mesmos, porque temos limitações, limites que também limitam os filhos.Exemplo bobo? Eu me canso de ficar com Enzo no colo (ele pesa 9,6 kg, afinal). E aí eu o coloco no carrinho, no sofá, no tapete, mesmo que ele ralhe um pouco. E eu converso com ele e explico que estou cansada e mostro que, naquele momento, é isso que dá pra ser feito. E ele entende, a seu modo, e lida com sua impossibilidade.

E há situações em que o que a cria deseja é impossível. Não precisamos inventar um “não” só pra o menino não ficar “manhoso”. Enzo ama facas. É claro que ele não pode brincar com elas, é claro que eu não dou, é claro que ele chora. E ok. Ele chora o tempo necessário para, justamente, lidar com a frustração. E depois passa. Que mãe eu seria se o achasse manhoso simplesmente porque ele está tentando lidar com sua frustração, com o limite? O grande barato -todo mundo diz por aí- não ensinar justamente o tal limite? Pois é, pra isso, é preciso não reprimir o choro, nem partir do pressuposto de que se trata de “manha”.

Pois eu acredito que ensinar a lidar com frustração é muito mais fácil e efetivo quando não brigamos com os filhos por eles estarem chorando (porque querem algo ou porque não podem ter algo), quando não rotulamos nossos filhos só porque, bem, eles não se comportam como se fossem bonecos. E isso foi um clic gigantesco que eu tive lendo a série sobre “birras” (outra palavra que eu detesto; outro post no forno) do O Astronauta.

5) Razões pelas quais “devo combater a manha”: para a dra. Ped, eu “perco” muito tempo fazendo as “vontades” de Enzo. Para mim eu GANHO muito tempo CONVIVENDO com meu filho.

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dou colo em livre demanda sim

Enzo adora colo, não é segredo para ninguém. E quem lê o blog sabe que sou coleira convicta. Mas parece que isso incomoda demais as pessoas que, de um jeito ou de outro, convivem com meu filho, ainda que só de vez em quando. Tenho sido cada vez mais cobrada e questionada. Uns acham que Enzo manipula a mamãe, o maquiavélico. Para outros, eu tenho é preguiça de educar. Pelo que tenho visto por aí, não sou a única a ser cobrada/questionada. O paradigma hegemônico diz que o “certo” é deixar bebês chorando, pois são todos uns manhosos.

Eu não ia escrever sobre isso. Sinceramente, não me incomodo com as críticas. Sei que as pessoas, na maioria das vezes, estão tentando “me ajudar”, sei que o senso comum determina que colo é mau, já sabia que a pressão viria, de modo que estou preparada para lidar com ela. Dou a resposta-padrão “li muito sobre isso, acho que dar colo é ótimo, não se preocupe”, sorrisinho e assunto encerrado.

Mas eis que um casal que está pensando em ter filhos veio conversar comigo sobre isso no fim de semana. Eles queriam entender porque a gente faz diferente aqui em casa e disseram que se surpreenderam com a calma do Enzo. Queriam saber se a cria é tão sossegada e sorridente por causa do colo. E confessaram que estavam curiosos, pois tudo o que ouvem vai no sentido contrário, no sentido do “não dê colo”.

Então achei que valia um post para explicitar parte das minhas convicções. Começo dizendo que, como a maioria, fui orientada por todo mundo -de obstetra e pediatra a parentes- a não dar colo para o Enzo. E acreditei nisso. E achei que faria isso. E achei que Enzo teria de ser “treinado”, teria de me obedecer desde sempre, caso contrário, me manipularia, abusaria, viveria sem limites.

Mas eis que no caminho encontrei a blogosfera e a Mari e Gonzalez,  Laura Gutman, John Bowlby, Donald Winnicott, Sue Gerhardt (e seu lindo Why Love Matters), a Associação Internacional de Parentagem por Apego. E aí tudo mudou. Refleti, refleti, refleti muito, e percebi que dar colo não só é algo muito natural (genético até) como é altamente desejável.

Fiz escolhas conscientes como mãe. Até onde tenho domínio racional sobre minhas ações (e olha que sei que, na prática, é bem pouquinho), escolhi ser a mãe que sou, a maternagem que ofereço, com a qual me identifico. Até onde consigo controlar (de novo, bem pouquinho), procuro não reproduzir por reproduzir um jeito “x” ou “y” de maternar, procuro pensar sobre os porquês de fazer ou não fazer isso e aquilo e, de novo, escolho aquilo com o qual me identifico. E tenho como parâmetro nessa análise o bem estar e o desenvolvimento emocional do meu filho.

Isso significa que: não sou escrava do Enzo, nem manipulada por ele. Pelo contrário. Dou colo em livre demanda, sim, pois decidi dar, pois acredito nisso como a melhor forma de maternar e amar uma criança. Dou colo em livre demanda, porque acredito no que diz Carlos Gonzalez: os filhos precisam do colo para se sentirem amados, amparados, seguros. Assim como nós, adultos, temos nossos rituais de segurança, os bebês têm os deles, o que inclui colimdimamãe.

Aqui rola colo à vontade porque aplico a maternagem por apego, cujos pressupostos incluem me colocar no lugar do bebê, o indefeso, e não o contrário. O neném, recém-chegado nesse mundo, é que precisa ser protegido e acalentado, é quem está confuso, perdido e assustado, é quem olha para a mãe esperando dela a calma necessária para ajudá-lo a organizar o turbilhão de emoções e novas experiências que ele vivencia. E o toque, o holding (vide Winicott) é que vão dar, em larga medida, a segurança de que precisa o pequeno para ir organizando, a seu tempo, o seu mundo interior.

Respondendo à pergunta que os amigos fizeram, acho que sim: colo colabora muito para manter Enzo mais calmo, tranquilo e sorridente. Claro que a personalidade dele ajuda muito, é até determinante, penso. Mas colo, carinho, afago, tudo isso evita estresse e frustração, com os quais ele não saberia lidar pela pouca idade. Sobre isso, recomendo muito essa entrevista aqui, com a Sue Gerhardt, psicóloga inglesa especializada no desenvolvimento do sistema nervoso.

E dou colo em livre demanda porque quero, porque me dá prazer ter meu filho coladinho em mim, porque obviamente dá muito prazer a ele estar coladinho a mim, recebendo abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. E rindo. E mordendo meu nariz. E sendo feliz. Por que não?

Quer dizer que não estimulo Enzo a brincar sozinho, engatinhar, ficar no chão livre, leve e solto? Claro que estimulo. Claro que brinco com ele, que o incentivo a desenvolver habilidades motoras e sensoriais para as quais ele precisa estar autônomo, sentadinho no sofá, num cercadinho, num tapete. Mas faço na medida do desejo dele, do interesse dele, da inclinação dele, não da minha conveniência. Se ele quer carinho no colo, vai ter. Se está interessado em brincar, vamos brincar no chão, ajudá-lo a desenvolver a coordenação motora, a fortalecer seus músculos etc.

Isso também significa que não sou mole nem deixo para lá na hora de mostrar limites. Só que meus limites são um tanto diferentes dos limites dos outros. Não vejo meu filho alguém que deve ser “ensinado” a se adaptar às minhas necessidades. A adulta sou eu, a mãe sou eu, eu que tenho que me adaptar às necessidades do pequeno e provê-lo de tudo quanto ele necessite enquanto ele ainda precisar que seja assim, seja mamadeira, seja colo. Colo nada mais é que desejo de amor e proteção, desejo de locomoção (para quem não anda), desejo de ver o mundo de um outro ângulo, curiosidade. Se negar todas essas coisas lindas a um bebê que, óbvio, minha gente, só depende de mim, é impor limites, não quero impor limite nenhum.

Acredito que, para o bebezico, “mamãe te ama” é colo, calor humano, carinho, estômago cheio, fralda limpa, brincadeiras, atenção. E tudo isso requer dedicação, proximidade (física inclusive), disponibilidade, disposição. Botar  “limites”, ainda mais esses limites, não faz o menor sentido nesse momento do desenvolvimento dos pequenos.

Não acredito em manha. Bebês têm direito de chorar por coisas que queiram e isso não é “fazer manha”. O tipo de maternagem que escolhi é aquele em que meu filho pode se comunicar comigo, da maneira que consegue, e exprimir suas frustrações, ainda que esteja frustrado simplesmente por não poder pegar determinado brinquedo. Não acho isso ruim ou tentativa de manipulação ou má-fé, como pressupõe a palavra. Para o que é importante para mim, não rola deixar bebê chorando e ensiná-lo a não reivindicar seus interesses, como se o desejo dele valesse menos que o meu. Isso é igual a fazer tudo o que o bebê quer? Não, nem seria saudável. Mas é igual a ouvir o bebê e levar em conta seus interesses, seu ponto de vista, ao invés de deixá-lo chorando sozinho porque ele é “manhoso” e “só quer colo”.

Porque eu acredito que, se a questão é evitar que os filhos sejam “tiraninhos” quando um pouco maiores, o caminho é o inverso. Com um ano, um ano e pouco, o bebê vai desobedecer mesmo. Não por falta de limite, mas por curiosidade, porque esquece recomendações. Nesse caso, o ideal vai ser distrai-lo e chamar sua atenção para outras coisas. Enchê-lo de “não” só vai vulgarizar a palavra.

E, quando for ainda maior (2, 3 anos), confrontar a ordem dos pais vai ser reafirmar sua personalidade, pois é nessa fase que as crianças começam um processo de individualização: testam quem são, do que gostam, o que preferem, de que forma colocar as preferências em prática. E, assim como na adolescência, a melhor forma de ser você é deixar de ser o outro (os pais). Daí a confrontar abertamente é um passo. Só que sabe qual criança vai passar por essa fase mais tranquilamente? Aquela que tem vínculo de melhor qualidade com os pais, aquela que se sentiu mais amada e protegida lááá atrás, na fase bebezica. Sabe qual? Essa mesma, a do colo, a “viciadinha”-dependente-que-“fazia-manha”. E não estou sozinha nisso. Dê uma boa olhada aqui e aqui. Aliás, isso ainda rende outros posts, no forno. Até porque não pratico “maternagem de resultados”. É muito bom que bebê coleiro seja mais tranquilo até nas fases emocionalmente confusas, mas faço o que faço por princípios. Ainda que os resultados fossem “piores”, ainda que fosse mais “eficiente” não dar colo, daria.

E chegamos ao ponto da tal independência, que parece que virou o objetivo principal de pais e mães. Independência é desejável? Muito. Já disse em algum outro post que crio meu filho pro mundo, para se encontrar, para se virar, para saber se respeitar e respeitar os outros, para viver suas próprias experiências, fazer suas próprias escolhas, trilhar seu caminho, sem interferências. Minha função como mãe, minha tarefa maternal, é ajudar Enzo a SER ELE MESMO, seja lá o que isso signifique, seja lá quanto tempo ele demore para descobrir quem é (se é que vai descobrir completamente), seja lá onde isso o leve. Não quero, não vou nem posso interferir numa jornada que é dele, só dele. O que quero, posso e vou fazer é ajudá-lo a estar pronto quando as escolhas começarem a cercá-lo, quando for preciso optar pelos caminhos. E ampará-lo se ele precisar.

Se minha tarefa é ajudá-lo a estar pronto, minha tarefa é prepará-lo, ajudar a prepará-lo. Pois eis que, para estar pronto lá na frente ele precisa se fortalecer agora, precisa se saber amado, protegido, precisa de fundação, de raízes, de um porto-seguro. Saca o tal “resiliente”? Ele só é resiliente porque as pontas são flexíveis, mas a raiz é sólida. Raiz sólida é amor, é autoestima, é reconhecimento de si próprio como capaz e amado. E, para isso, é preciso dependência completa quando o bebê for completamente dependente. Não é óbvio? Não é óbvio que exigir independência de um ser emocionalmente dependente é queimar etapas que, lá na frente, farão falta? Não é óbvio que quanto mais eu respeitar os limites do meu filho e suas necessidades físicas e psíquicas agora, mais independente ele será no futuro, quando estiver pronto para isso?

Gonzalez definiu muito bem (sempre ele) duas correntes de maternagem/paternagem/palpites. Ele falava, na verdade, sobre pediatras, mas vale para todo mundo. De um lado, os que pensam que tomam partido dos pais. Esses acham que os bebês devem ser treinados desde o primeiro dia para a independência, que deve chegar ainda na bebezice. Nesse caso, os pais só estão autorizados a fazer coisas relativas às necessidades básicas físicas ao bebê, como dar de comer, limpar, dar banho. Serão maus pais se derem colo, se ninarem para dormir no colo, se deixarem chupetar o peito, se estimularem o bebê a experimentar o mundo pelo afago “colístico” da mãe.

E há o outro grupo que entende que não há lado nessa história: mães e bebês vivem em simbiose, não se opõem, se complementam. Esse incentiva o colo, a amamentação em livre demanda, cama compartilhada, calor humano, satisfação dos prazeres e desejos do bebê, amor em manifestação livre, dependência, muita DEPENDÊNCIA. Eu faço parte, seguramente, desse grupo.

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