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autoficção

Ela estava saindo do supermercado, satisfeita por ter encontrado tudo o que precisava numa mesma loja, evitando, assim, o desgaste e a perda de tempo de ter de ir achar o que eventualmente faltasse noutro lugar.

Salsinha, alho poro, batata inglesa, cenoura, suco integral de uva, um pacote de lentilha seca e outro de arroz. Tudo confortavelmente distribuído em duas sacolas retornáveis de ráfia, produzidas na China, que não custaram mais de R$ 2 cada uma (embora devessem custar bem menos, tendo em vista o que provavelmente recebem as mulheres chinesas que costuram as sacolas, pensou).

Distraída, comemorando que, afinal, não estava atrasada pela primeira vez em vários dias, já passava da metade do estacionamento, quase alcançando a fronteira entre a calçada privada e a pública, quando finalmente percebeu que alguém a estava chamando (“ei, ei, ei!”).

Olhou em volta e demorou outro tanto para reconhecer aquele rosto que sorria e a mulher cujas mãos acenavam, logo ali, à esquerda, alguns passos adiante. Era Eulália, moça, assim como ela própria, de uns trinta e poucos anos. Tinha dois filhos, um menino de cinco e outro de dois.

As duas moravam perto e encontravam-se sempre por acaso pelos estabelecimentos do bairro. Os meninos –os de Eulália e o dela própria—já haviam brincado juntos em algumas ocasiões, numas dessas vezes em que se encontraram por aí num golpe de sorte.

Abraçaram-se longa e afetuosamente. Afeto genuíno, apesar da pouca intimidade. Não se viam, seguramente, desde novembro e, àquela altura, janeiro já ia pela metade. Partiu dela para Eulália a pergunta convencional, automática:

-Oi, tudo bem? Como você tá?, disse, ainda enquanto desenlaçava os braços, sorrindo muito, algo empolgada (sinceramente empolgada).

Esperava um “estou bem. E você?” -que não veio. Eulália desfez ligeiramente (inconscientemente?) o sorriso receptivo com que conduzira o encontro até então e o transformou num mostrar de dentes quase sarcástico, meio de lado, meio nervoso.

-Estou levando, respondeu, desanimada. -Você sabe, né?, essa coisa dos dois anos, criança pequena…, olhou pra baixo. Como você conseguiu?, suspirou, sincera.

Ela assustou-se com a resposta-pergunta de Eulália. À princípio muito menos com o que estaria justificando-a do que com a quebra do acordo tácito segundo o qual esse tipo de pergunta (“oi, como vai, tudo bem?”), sendo relativamente vaga, superficial, automática e blasé, só pode ser respondida com o vago, superficial, automático e blasé já citado “estou bem. E você, como vai”?

Lembrou-se do Chico Buarque (“olá, como vai?, eu vou indo, e você, tudo bem?”).

Sorriu, meio envergonhada.

Pegou de surpresa a sinceridade. Uma mãe, ali na sua frente, sendo apenas um ser humano. Cansado, esgotado, um tanto perdido. Como de resto estão todos. Teria respondido, se pudesse, ao Pessoa: “aqui, aqui, aqui há gente no mundo”. Porque ela também sempre estivera –às vezes mais, às vezes menos– farta de semideuses.

Sorriu de novo, dessa vez sem pudores, e desejou abraçar Eulália de novo, só pela lindeza da cena, só pela coragem do gesto, só por ter se despido ali, assim, naquela ousadia de início de desabafo. As máscaras nunca dão conta da imensa beleza daquilo que escondem.

Concentrou-se novamente em Eulália ao perceber a expressão carregada, crispada, o silêncio pesado e a espera por algum acolhimento, algum conforto, alguma palavra que ajudasse a diminuir a pressão da qualquer coisa que agora lhe pesava os ombros duplamente (pelo que era e por ter sido mencionada a uma semi-desconhecida que emudecera e meio-que-sorrira em silêncio por longos cinco ou seis segundos).

Pensou que o filho a estava esperando para almoçar e ir para a escola. Mas uma certa urgência, uma necessidade, muito mais que uma opção, a colou no chão daquele lugar, daquele estacionamento, e mover-se para fora dali tornou-se quase fisicamente impossível.

Ficou para acalmar a mãe que ousava confessar sua impotência diante do filho (ou da maternidade?), ali, nas entrelinhas daquela frase, mas aos poucos notou que ficara para acalmar a si mesma, porque reconhecer-se naquela mãe e ver ali uma igual totalmente imperfeita e totalmente profana, como ela própria, era um alívio quase sem precedentes.

Quis mostrar, com certa ansiedade até, que entendia, que se irmanava, que se reconhecia naquela imagem aflita que via nos olhos da outra, que sim sim sim, qualquer que fosse a razão daquele “estou levando” e daquele “como você conseguiu?”, ela era justificada e a experiência era compartilhada, igual -mesmo diferente.

-Poderia dizer que não é fácil, porque não é mesmo. Mas seria lugar-comum demais, sabe?, disse, finalmente, pensando que uma conversa que começou tão promissora não poderia ser mantida na superficialidade. -A resposta mais honesta que tenho é: não faço a mínima ideia. Quase nunca sei com certeza o que fazer, como agir, e minha experiência é ligeiramente pendular: ora ajo assim, ora ajo assado. Mas sinto sempre que ora erro, ora erro também. Isso faz de mim o quê?

-Uma mãe?, arriscou Eulália.

Ambas riram. No começo aquele riso algo nervoso, algo contido, preso em um corpo rígido de tanta culpa. Depois o riso foi saindo pelos cantos, pelos olhos, pelos poros, escapando, relaxando um pouco os músculos e dando vazão a uma certa vergonha, gerada e gestada pela maternidade idealizada, sacralizada e, paradoxalmente, ególatra, que ocupa o imaginário coletivo, subverte arquétipos, enrijece afetos.

Depois, o que era fio de água virou rio caudaloso, e as duas moças gargalharam, sacudiram, trepidaram, estenderam-se e ensolararam-se de tanto rir.

E então veio um suspiro, seguido de um olhar camarada, cuja piscadela cúmplice não houve de fato, mas esteve subentendida o tempo todo e, talvez por isso, foi ainda mais presente e perene do que se tivesse havido, com a duração efêmera de seus dois ou três segundos.

-O maior é tranquilo, sabe? Mas o pequeno… Ele tem tanta energia, e é tão autônomo. Não dou conta. Quando eu vejo, ele já pulou na piscina, já caiu do sofá, já correu pra longe. Eu? Eu estou sempre no ainda. O menino funciona no já. Fusos diferentes.

Riram novamente.

-O meu já é desafiador. Precisa entender tudo e, mesmo assim, periga não aceitar. As negociações são intermináveis e, em algum momento, acabo me tornando, com frequência, a mãe que ameaça, a mãe que eu não queria ser.

-Ninguém é.

-O quê?

-A mãe que queria ser.

Riram.

A conversa foi seguindo, seguindo, seguindo, vida própria, asas próprias. Era quase possível ver angústias antigas ganhando asas e escafedendo-se junto com o vapor do hálito que escapava das bocas abrindo e fechando, das línguas subindo e descendo enquanto as palavras, aquele amontoado de sons que poderia não significar nada (literal e figuradamente), dava abrigo e fazia capa às culpas fugitivas, aladas.

De relatos e mais relatos -por vezes hilários, enternecedoras e acachapantes- de situações cotidianas, prosaicas e comezinhas da maternidade, ela e Eulália vagaram indistinta e não-linearmente por outros temas transversais. Sexo. Carreira. Dinheiro. Tempo. Livros. Vinhos. Louça suja. Máquina de lavar quebrada. Jornalismo. Design. Frilas. Teatro. A casa de co-work que abriu, cê viu?

O sol esquentava cada vez mais. As sombras sumiram. Devia ser meio-dia já quando Eulália e ela finalmente moveram-se, cada qual para um lado do estacionamento, em seguida cada qual para uma direção na mesma rua.

Ela voltou caminhando a passos largos. Olhara no relógio logo depois de se despedir e, de adiantada que estava, atrasara-se muito. Não daria tempo de o filho almoçar as lentilhas, tampouco conseguiria adiantar a sopa de batatas com alho poró. Mas as sacolas estavam mais leves.

Olhou para trás ainda mais uma vez, justo a tempo de acenar para Eulália, sorrir um sorriso cúmplice e tocar a vida.

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PS: escrevi esse post sob efeito de um alucinógeno -totalmente lícito, diga-se, embora tenha sido perseguido em Portugal. Alucinógeno esse popularmente chamado entre seus heavy users (eu inclusa) de “Saramáximo”, cujo nome científico é José de Sousa Saramago. Entre seus principais efeitos está uma comichão nas tripas, um encantamento arrebatador, às vezes lágrimas, outras tantas um desejo ardente de escrever, escrever, escrever. Causa dependência severa -de seus livros, de lirismo, de ironia, humor sagaz & crítico, de literatura e de lindezas de modo geral, seus principais princípios ativos.

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