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a rotina

Imagine uma menina. Imagine uma menina de 4 anos. Imagine que essa menina, como a maioria das meninas de 4 anos, adora chocolate, doces da mãe, bolos e tortas da avó, cocada, pé-de-moleque, paçoca e bolo de fubá cremoso. Agora imagine que ela também adora dormir tarde, dormir ATÉ MAIS tarde, almoçar no horário errado, não tomar banho às cinco, como manda a mãe, e convencer o pai a sair para dar voltas na vizinhança às 10 da noite. Imagine que ela trocaria boa parte dos doces por uma boa enganada na rotina.

Imagine que essa menina cresceu e virou jornalista. Imagine que ser jornalista tem lá sua rotina, mas menos rígida que a maioria das outras profissões: imagine que jornalista não bate cartão; não tem muita hora pra chegar e menos ainda pra sair; cada dia fala com gente diferente, sobre assuntos e temas diferentes; pode ficar na redação, mas pode ser escalado pra ir pra rua cobrir um evento que só será conhecido na hora em que o chefe chamar; pode começar a carreira escrevendo sobre um tema e depois mudar pra outro e outro e outro; pode ter de ir trabalhar em outra cidade, em outro país, em outro continente.

Imagine que essa menina foi morar com o namorado. E aí a vida deles poderia ser resumida assim: exceto o trabalho, não tinham hora nem regras pra nada. Jantar durante a semana? Quando dava vontade. Tomar umas depois do trabalho? Sempre que era possível. Sair com os amigos? A toda hora. Fazer refeições nos finais de semana? Raramente. Acordar aos sábados? Depois das 14h. Café-da-manhã? Sempre à tarde. Dormir? Só no dia seguinte, depois de várias cervejas e muito papo de boteco. Chegar atrasados em compromissos de família? Sempre. Geladeira? Nem sabiam o que era isso. Fogão? Menos ainda. Pegar estrada quando dava na telha? Sempre. Programas de última hora? Idem. Decidir e “desdecidir” ao sabor das vontades do momento? Uma constante.

Pois bem, amiga que chegou até aqui: imagine, agora, que essa dupla é, neste momento, responsável por organizar a ROTINA (sim, isso mesmo, a rotina) de um bebê. Responda sinceramente: como você acha que eles dois estão se saindo? a) Muito bem; b) Marromenu; c) Dando pro gasto; d) De forma sofrível.

Acertou quem apostou na letra “d”. Sofrível, sofrível, sofrível.

Juro que nós até tentamos. Funciona assim: decidimos horários, atividades, tarefas, cardápios semanais, lazer, limpeza e manutenção da casa, sono pro Enzo. No papel, fica tudo lindo, perfeito. Mas na vida real, quem disse que conseguimos implementar o planejamento?

Ou acordamos tarde porque Enzo dormiu tarde, ou decidimos deixar “só isso” pra depois por impulsos hedonistas urgentes, ou ficamos com preguiça de lavar o banheiro, ou o sol está tão lindo lá fora, vamos pra rua com Enzo, ou o bebê está com sono agora, vamos deixá-lo dormir fora de hora mesmo, ou ou ou… Não temos habilidade nenhuma para cumprir rotinas. Fato.

Percebo que, em algum nível, isso ajuda a atrapalhar os horários do Enzo. Mas confesso, novamente, que tenho muita dificuldade também em disciplinar esses horários, em dizer “não” pra cria, em ajudá-lo a dormir mais cedo, por exemplo. Só faço isso sem peso na consciência quando ele está mesmo com sono, irritadiço, e não consegue dormir. Aí fico firme, apago luz, guardo brinquedos, não deixo sair do colo, nino até ele se entregar e adormecer. Mas quando ele ainda está curtindo visivelmente a bagunça, deixo que curta, seja 23h, meia-noite ou 1 da manhã.

Claro que há algumas regras e horários por aqui. Não abro mãe de que Enzo coma ao menos três frutas por dia, de preferência diferentes entre si. Em termos de alimentação, seguimos bem à risca as regras, tanto no que diz respeito à quantidade de refeições (entre cinco e seis por dia) quanto em relação à qualidade. Com isso, sou bem rígida.

Porém, em relação ao resto… toda semana decidimos, Dri e eu, começar a regrar mais as coisas por aqui, ainda que seja bem aos poucos. Fato é que nosso passado nos condena e nós mesmos sempre optamos por uma vida de “não-regras”. Pra regrar agora comofaz?

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