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criança não é pública # 2 ou: o que é filho “mimado”?

yara

Nos comentários do post anterior –e também em rodas de conversas virtuais ou presenciais com amigos– surgiu uma questão interessante sobre como equilibrar o respeito à subjetividade da criança e a necessidade de educá-la. A dúvida, basicamente, é: se eu respeitar meu filho nesse nível proposto pelo post e pelos textos recomendados, não estarei criando uma criança mimada, sem limites, sem educação?

O que penso sobre isso é basicamente o seguinte. Antes de qualquer coisa: o corpo de alguém é inviolável. Obrigar quem quer se seja a aceitar contato físico que não deseja é uma violência inominável. E o fato de questionarmos isso quando se trata de crianças (ou de mulheres, muitas vezes) já mostra bastante o tipo de sociedade que ainda somos. Não posso tomar para mim o controle do corpo de outrem, seja com a justificativa que for (educar, ajudar, ensinar, dar carinho, dar afeto etc). Se a escolha fosse (e não é, mas vamos fingir que seja) entre ter um filho mimado ou um filho cujo corpo não fosse respeitado, eu certamente optaria pela primeira opção. É muitíssimo mais pernicioso um adulto sentir-se “dono” do corpo de uma criança e essa criança ser alvo constante da violência de não poder negar um beijo do que um pequeno dar piti à toa na fila do supermercado ou não ser simpático com qualquer desconhecido.

Mas o fato é que respeito não se contrapõe à educação e a limites. É uma falsa dicotomia. Pelo contrário. Você pode e deve educar uma criança de forma respeitosa, respeitando os interesses dela, as inclinações dela, as preferências dela, os limites dela, o ser que ela é. Aliás, essa é a ÚNICA forma de se educar uma criança. Qualquer outra coisa é imposição por força e coação. Pode funcionar até a página dois, mas jamais merece o nome de “educação”.

Um adulto desrespeitoso, um adolescente complacentemente considerado “mimado” (desses que acham que podem espancar prostitutas ou empregadas domésticas em ponto de ônibus ou dar trotes violentos, abjetos e sexistas) com toda a certeza não são assim por terem sido respeitados, amados e bem tratados. Ter acesso a bens de toda a sorte e ter pais eventualmente omissos (duas coisas bem comuns entre os “bem nascidos” de classe média alta que fazem esse tipo de coisa) não é sinônimo de ser amado ou bem tratado.

De que forma desobrigar uma criança de três, quatro anos de aceitar o beijo à força de um estranho (ou mesmo familiar) pode resultar em alguém que não respeita os limites alheios? Não vejo como.

Pelo contrário. O que ensino ao meu filho quando digo que ele não é obrigado a abraçar quem não quer? Que ele também não tem direito sobre o corpo e a vontade do outro. Inclusive esse tipo de argumento uso com ele várias vezes. Por exemplo, quando ele se chateia com algum amigo que não quis brincar com ele. Sempre digo: “lembra quando fulano quis brincar e você disse que não estava a fim? Você não foi obrigado a brincar, certo? Então, agora é a mesma coisa”. E ele entende. E me diz um “é mesmo, né, mamãe?” bem tranquilo, satisfeito, sem sentir-se rejeitado e, plus, a partir dessa constatação, disposto de coração a respeitar o amigo que preferiu brincar com outro colega.

Respeito se ensina respeitando. Não tem outra forma.

Por que tratar um adulto com respeito e educação é o mínimo que se espera de alguém civilizado, mas quando tentamos fazer o mesmo com uma criança vira um “erro” ou algo que pode resultar numa criança “mimada”? Adulto tratado com respeito é “mimado”? Por que criança seria? Por que quando uma criança manifesta sua subjetividade e inclusive suas discordâncias, tachamos logo como “mimada”? Adulto que fala “não” educadamente é “mimado”? Por que criança seria?

Isso significa que meu filho pode fazer qualquer coisa? Não. Ninguém pode fazer qualquer coisa. Eu não posso, você não pode, meu filho também não. Respeitar uma criança –e mesmo um adulto e/ou a si mesmo– é colocar limites. Como diz Rebeca Wild, “viver é estar limitado”.

Não dar limites é um problema do adulto, não da criança. E não tem nada a ver com respeitar a criança e não obrigá-la a beijar quem ela não quer. Se um pai desiste, por exemplo, de limitar o tempo de exposição do filho às telas porque o filho está se jogando no chão da sala e dando escândalo, o problema é com o pai, não com o filho, percebe? Uma criança ainda está desenvolvendo mecanismos neurológicos para lidar com a frustração de modo menos estridente que jogar-se no chão aos berros. Mas o adulto deveria ser maduro o suficiente para: 1) tomar uma decisão ponderada, coerente, que faça sentido para o bem das relações familiares, para a harmonia entre todos, levando as necessidades de todos em consideração, 2) manter essa decisão (se a única razão para questioná-la for o chilique do filho) e 3) aguentar o choro da criança, ampará-la, compreendê-la, ajudá-la, de forma empática e amorosa, a lidar com a dor da frustração.

Se o adulto não tem maturidade para tanto –e isso também é uma forma de desrespeito à criança– isso não tem nenhuma relação com respeitar a individualidade e a subjetividade da criança.

Por outro lado, colocar limite não é colocar qualquer limite, só para marcar território, manter hierarquia, “mostrar quem manda” ou não “passar vergonha” diante de parentes e amigos. Limite não pode ser uma forma de exercer poder –e desrespeitar, portanto, pois todo poder é uma forma de desrespeito à essência alheia– tampouco um modo de extravasar raiva e frustração ou– talvez pior– adequar o filho às expectativas próprias e dos outros.

Colocar limites nos filhos é limitar-se a si mesmo, porque é preciso refletir sobre as razões daquele limite que se quer colocar. É um limite porque estou despejando minha frustração no meu filho? É um limite porque quero que a família se orgulhe de mim e aprove meu filho? É um limite porque a vizinha vai pensar que não sei educar meu filho se não fizer isso? É um limite porque eu tenho medo? Ou é um limite que realmente faz sentido para o desenvolvimento do meu filho? Ou é um limite realmente necessário para que eu possa estar presente e relaxada e manter o ambiente relaxado e adequado?

De qualquer modo, simplesmente não colocar limite nenhum ou deixar que escola, babá, avó, tio etc o faça não é respeitar. Quando se fala em respeito à criança, se fala justamente também nesse tipo de limite que esta exposto aqui. Funciona como numa relação saudável com qualquer adulto. O que é respeitar seu colega de trabalho? Deixar ele fazer o que quiser com você? Ou educadamente se colocar de forma adulta e madura, mesmo que isso cause um conflito? Conflitos são ótimos e necessários. Com os filhos inclusive.

O que não é ótimo nem necessário é obrigar uma criança de três anos a beijar quem quiser beijá-la.

Criança pequena ainda está aprendendo os códigos de conduta sociais; a maioria deles ainda não faz o menor sentido, entre outras razões porque a criança ainda reage muito baseada em estruturas “mais antigas” do cérebro, as únicas que já estão formadas. Então a criança raciocina pela autoproteção. Quer estar junto da mãe e de quem mais confie. E ponto. O resto é resto mesmo e não faz sentido ser simpática. Até porque as emoções nas crianças são percebidas de formas diferentes das percebidas por adultos.

Uma criança pequena não tem a capacidade de certas sutilezas, de elaborar emoções fortes e contraditórias, de reagir de modo plácido, verbalizando ou dissimulando sensações (e isso nem é ruim). Crianças são autênticas (o que é ótimo!), dizem o que pensam, fazem o que pensam. Não é um defeito. É um estado até neurobiológico. Que vai sendo burilado conforme a criança observa os códigos sociais, conforme recebe respeito e tratamento respeitoso dos adultos que ama, conforme vai completando seu desenvolvimento cerebral e neuronal.

Aliás, nós perdemos muito quando negamos essa autenticidade infantil, em nós e nas crianças. O mundo ideal seria, conforme as áreas mais “novas” do cérebro fossem crescendo e se desenvolvendo, que elas apenas ajudassem a elaborar melhor as emoções. Jamais a dissimulá-las, como acaba acontecendo. Mas isso é outra (fascinante) conversa.

O que quero dizer com tudo isso é: educar uma criança é respeitá-la, colocar limites e não esperar dela mais do que pode dar. A sociedade nos cobra filhos sorridentes e submissos. Como lidar com o amigo que vai em casa e torce o nariz se o filho “mimado” não o cumprimenta? Como lidar com a avó que quer abraços e beijos negados pelo neto? Como lidar com parentes nas festas que ficam apertando bochechas à revelia do desejo das crianças? Como lidar com a cobrança social e interiorizada por nós de que nossos filhos não sejam “mimados” (entendendo aqui por “mimado” o senso comum: um pequeno que não se submeta a caprichos adultos adultistas)?

Veja, é uma questão de escolha. Eu sou mãe do meu filho e é com ele que tenho responsabilidades. Escolhi assumir essa responsabilidade, mesmo que todo mundo ache meu filho mimado, chato, não educado. Se ser respeitado e exigir respeito, para as pessoas, é sinônimo de “mimado”, que seja. Paciência.

Para os adultos que estranham o comportamento do meu filho quando foge de investidas pseudocarinhosas, digo, com toda a educação: “meu filho não gosta de beijos e abraços”. E, sabe?, a maioria das pessoas entende. Acho que muita gente se lembra como era horrível, na infância, ser submetido a beijos e abraços forçados. Quem nunca fugiu de parente sem noção? Eu já, meu marido já, meu irmão já, meus primos e amigos e até meus pais. Obrigar criança a ser bacaninha não dá certo para ninguém. Por que manter esse modelo? Será que o adulto, quando confrontado com a negativa respeitosa, não vai compreender e rever seus próprios conceitos?

E, de mais a mais, quem é “mimado” e sem educação mesmo? A criança que exerce seu direito sagrado ao próprio corpo ou o adulto que, maduro, não consegue lidar com a “frustração” de não poder impor um beijo a um ser pequeno e indefeso?

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Recomendo muito a leitura de Montessori sobre esse assunto. Montessori, como ninguém antes dela, compreendeu, pesquisou e expôs o fantástico universo infantil. Ninguém antes dela respeitou as crianças como seres humanos que de fato são. E, apesar de achar que resultado não é o que deveria mover nenhuma relação, entendo a cobrança sobre nós pais e por isso digo: Montessori conseguiu resultados incríveis a partir do respeito genuíno à criança e aos jovens com quem lidou. Não só em educação formal, mas na reabilitação de adolescentes infratores “desenganados” socialmente pelas “autoridades” italianas. Foi exatamente lidando com um grupo de jovens infratores numa comunidade paupérrima e marginalizada que a psiquiatra italiana desenvolveu o método que depois ficou conhecido como “montessoriano”.

Para quem quiser começar com Montessori, sugiro o blog Lar Montessori. Sobre respeito incondicional e educação sem violência, é só ir direto a esse link e a esse também.

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Muito grata a quem questionou! 🙂

Oportunidade incrível de refletir, repensar e escrever aqui um pouco mais do que me move como mãe e como ser humano. Meu filho me dá todos os dias a oportunidade de repensar e reafirmar meus próprios valores sociais e políticos, meus compromissos comigo mesma e com o mundo que me cerca, a pessoa que vou sendo e construindo nas pequenas e grandes coisas do dia a dia. Ser mãe é um modo de estar politicamente no mundo. Ser mãe é um ato político. E meu ato político é, entre outras coisas, reafirmar diariamente o respeito, a empatia, o acolhimento que todos merecemos.

Sou muito grata também ao meu filho por isso! 🙂

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A ilustra é da Yara Kono e veio daqui ó.

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mas essa escola é diferente

(*)

sugiro clicar pra ampliar a linda ilustra do Decur (*)

“A nossa obra de adultos não consiste em ensinar, mas sim em ajudar a

mente infantil no trabalho de seu desenvolvimento”

Maria Montessori – “Mente Absorvente”

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“Mas sempre tem um que é diferente

Tem sempre um que até surpreende a gente”

Paulo Tatit – “O Rato”

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui o uniforme é qualquer roupa confortável. Calça de malha, shorts manchado, camiseta velha, camiseta nova, largona ou curtinha, e também vale só cueca, só calcinha, só fraldinha. Pés descalços, com chinelo, com crocs, só de meias, com tênis, sandália, sem nada, um pé de cada jeito. Pé no chão, pé na areia, pé no pedal, pé na água, pé no pé de fruta; pé dançante, pé pulante, pé veloz. Uniforme, aqui, pode ser tinta. É permitido usar o corpo como suporte para a arte. Menina não tem que usar rosa, nem menino só usa azul. Tem menina de camisetão e menino com saia rodada, girando pra lá e pra cá nas oficinas de dança ou nas histórias que se conta.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui a mochila desconhece personagem, só tem pano, papel não há. Não se carrega caderno ou livro didático. O conhecimento está do lado de fora e ainda nem foi escrito; está todo por ser descoberto, explorado, construído; está nas árvores, nos jogos com os colegas, no pedal da bicicleta; no purê de abóbora, no suco de romã, no abraço, no colo, nos afetos e vínculos, no presente que se ganha espontaneamente do amigo e no presente que se dá. E que não custa dinheiro, só demanda olhar, conexão, proximidade, um papel com canetinha ou tinta guache.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem professor. Ou educador. Ou cozinheiro. Ou porteiro. Aqui tem gente de coração aberto para acolher a infância, para respeitar o outro, para estar presente sem interferir, para dar a mão sem indicar o caminho, para oferecer e oferecer-se. Gente capaz de desvestir a máscara dos títulos (porque eles não importam mesmo) e da “facilidade” da prepotência adultista para ser e estar e promover um ambiente em que as crianças sejam e estejam.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui tem concentração, muito prazer nas atividades e descobertas, criança trabalhando quieta e entregue naquilo que escolheu. Tem muita conversa, de pequeno com pequeno, de grande com pequeno, de grande com grande, de pequeno-com-pequeno-com-grande-com-pequeno-com-grande. E outra coisa que grassa por aqui é ouvido. A escola toda, pode-se dizer, é um ouvidão bem atento (não são as paredes só que têm ouvidos: todo mundo tem). Daqueles que principalmente escutam, ao invés de só ouvir. Tem olhos também. Brotam aos montes, em todo o lugar. Que veem, enxergam e reparam (como diz o Saramago).

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui a sala de aula é grande, é ampla, tem sacada, tem jardim, tem escada, refeitório, ateliê, quintal, um vaso com lavanda, um casal de sabiá. E amplia espaços, ao invés de se fechar. Não é gaiola. É asa. Aqui a porta está sempre aberta, e a criança escolhe onde ficar. Pode ser no grupo que está pintando ou no que vai começar a jogar, pode ser ouvir história, pode ser observar. Tem muito tempo de quintal, tem todo o tempo para brincar. Aqui brincar é coisa séria, como só criança consegue ser. Aqui criança tem autonomia, liberdade, é sujeito. Os limites –sim, eles existem- servem só para organizar, facilitar; jamais controlar, submeter, adequar. Limite aqui é leito de rio: ajuda a fluir. Mas a água segue livre pelo curso, que ela mesma vai fazendo (tal qual o caminhante) ao caminhar.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui criança não tem TDAH como se fosse gripe. Gripe, falando nisso, é outra coisa que quase não dá. O que dá muito por aqui é riso, gargalhada, grito, corre-corre, pega-pega, trepa-trepa. Tem umas brigas, umas negociações, umas explosões de raiva. Das naturais, das infantis.  Não carecem de remédio pra aquietar. Nada aqui, aliás, foi talhado para ser quieto. Tudo é movimento e tudo está em seu lugar.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem festinha, não tem coreografia ensaiada, pasta com atividades pra pai ver de vez em quando.  Aqui pai e mãe estão dentro da escola o tempo todo. A fotografia é documental, tirada em tempo real. No sentido figurado, mas também no literal, na máquina fotográfica que registra as atividades e que muitas vezes é operada pela criança –que expressa-se a si mesma sem o olhar do adulto a escolher a hora de abrir o obturador. Aqui não tem apresentação de teatrinho, mas dá umas cenas lindas que dá vontade de filmar: abraços apertados e sinceros entre duas amigas depois das férias; um grupo tranquilo de crianças fazendo castelo de areia como se fosse praia (inclusive com raio oblíquo de sol, sombra de árvore protegendo cabecinhas e nada mais no corpo além de cueca, fralda e calcinha); outro grupinho apostando corrida de triciclo com circuito e regras que eles mesmos criaram –e respeitam, sem necessidade de sanção ou ameaça.

Ele está na escola. Mas essa escola é diferente.

Aqui não tem inglês, nem francês, nem alemão e tampouco japonês. Aqui ninguém é bilíngue de nascença, nem sabe escrever antes da hora. Palavra é coisa séria nessa escola. É pra ser dita, sentida, vivida, percebida, manipulada, saboreada, engolida, respirada, ouvida, tocada, corrida, pulada, dormida, abraçada, comida, digerida, cantada, brincada. Aqui não tem informática ou TV. E ninguém parece dar a mínima pra adultos bem sucedidos. Porque aqui, nessa escola, não é de tudo que dá. O que dá mesmo é infância, muita infância, ah, como dá.

(*) Do genial artista argentino Guillermo Decurgez. o Decur. Metáfora perfeita. Daqui ó.

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um pouco de silêncio

Dia desses estávamos Enzo e eu no quarto dele. Ele havia pedido companhia para brincar com massinhas e também ajuda, pois uma delas fica guardada num pote plástico que o pequeno não estava conseguindo abrir sozinho (ainda me pergunto porque caracas brinquedos de criança vêm em embalagens que precisam de adultos para abrir/fechar…).

Quando o filho finalmente começou a manipular a massinha, ficou em silêncio. Fez menção de me perguntar alguma coisa, mas desistiu. Ficamos alguns segundos assim: ele mexendo num pedaço da massa, eu noutro. Então senti uma necessidade de falar alguma coisa, de perguntar, de sugerir, de interagir, de marcar presença. Como se simplesmente estar ali com ele não fosse interação suficiente. E como se o silêncio fosse insuportável. Fosse mais insuportável que os ruídos todos com os quais lidamos diariamente e com os quais nos acostumamos.

Cheguei a abrir a boca e puxar o ar para começar a falar. Cheguei a formar a frase na cabeça. “O que você quer fazer com essa massa? Precisa que eu te ajude a fazer uma bolinha?” (Notei que ele fazia movimentos como se quisesse formar uma bola, mas não estava conseguindo, segundo o que meus padrões escolarizados definem como “bola”, claro). Cheguei até a começar o gesto de estender a mão para oferecê-la, caso ele quisesse me de dar seu pedaço de massinha pra eu “consertar”.

E então, num segundo, antes de efetivamente fazer qualquer dessas coisas, concluir qualquer dessas ações, olhei para o meu filho. Olhei para o rosto dele, para suas mãos que não paravam, para seus olhos fixos na massinha. Foi estranho, porque parei de pensar. Simplesmente não pensei em nada por aqueles segundos. Só vi. Só enxerguei. Só senti. Como se houvesse uma interrupção no tempo/espaço e como se eu, suspensa, fora da cena, pudesse compreender completamente, para além do raciocínio, o que estava acontecendo ali entre o filho, a massinha e eu.

Senti o que ele estava sentindo. Senti como estava pleno, concentrando, entregue àquele momento, curtindo e sentindo prazer na manipulação daquele objeto. Percebi como estava numa espécie de espaço/tempo diferente do meu. Porque eu ficava elucubrando um monte de coisas na cabeça, ansiosa, tensa, tentando prever se ele precisaria de ajuda ou tentando preencher alguma coisa com a fala.

Enzo, no entanto, já estava preenchido; presente naquele contato com aquela massinha. Ele estava no presente, naquele quarto. Eu não: estava na minha cabeça, pensando, pensando, pensando.

Então, de repente, quando percebi tudo isso, não havia mais necessidade de falar nem de fazer nada nem de pensar nada. Parei tudo: a fala, o gesto, os pensamentos. E me entreguei como ele ao contato com a massinha que estava nas minhas mãos. Fiquei ali, só manipulando, sem intenção alguma, sem “construir” nada, só sentindo a sensação de mexer naquele material. Só sentindo a presença do meu filho; só estando. Ele e eu, estando juntos. No silêncio. Por uns 20 minutos, talvez mais. Ficamos ali, cada um do seu jeito, compreendendo e vivendo aquele momento, aquelas sensações.

Entendi –não racionalmente, pois não racionalizei essa nova compreensão naquele momento– que as palavras são muitas vezes desnecessárias. Mais que isso: atrapalham. Eu teria atrapalhado a entrega do Enzo àquele presente, àquele momento, se tivesse dito qualquer coisa.

Já tinha lido muitas vezes que criança, por natureza, se estiver sentindo-se bem e equilibrada, é do silêncio. Brinca em silêncio, trabalha em silêncio, aprecia o silêncio. Encontrei afirmações desse tipo em muitas fontes diferentes, de Maria Montessori e Ana Thomaz a Carlos González. Tem momentos para extravasar, óbvio, em que os pequenos gritam, cantam alto, riem abertamente. Mas há muitíssimos outros momentos, quando, segundo Montessori, acham o que querem fazer, em que o silêncio não só é suficiente como é necessário, absorvidos que estão pela atividade “ideal” para aquela situação.

Acontece que toda essa informação racional só fez sentido, só foi completamente compreendida, apreendida, percebida por mim quando todo o cognitivo aprendeu também. Só fez sentido quando eu senti o significado do silêncio para o Enzo. E, uma vez sentida a informação, aí sim foi lá ser “validada” pelo racional, que já tinha o argumento na ponta da língua.

A partir desse dia, desses minutos brincando em silêncio, mais presente do que nunca ao lado do Enzo, mesmo muda, mesmo “na minha”, mesmo sem “interagir” com ele no sentido mais objetivo do termo, comecei a reparar muito mais no que e quando falava com meu filho. E na atitude de outras pessoas com ele e até de outros pais com seus próprios filhos.

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 1)

Um menino, de uns 4 ou 5 anos, estava brincando de amarelinha. Feliz da vida, completamente alheio ao que acontecia ao redor. Do jeito dele, da forma que ele queria: pulando aleatoriamente os números, contando, andando por sobre os desenhos, dando saltinhos quando bem entendia, fingindo que caía e por aí vai. Até que o pai, quando se deu conta de como a criança brincava, resolveu “corrigir” o filho, que brincava “errado”. E começou, à princípio, sutilmente, com perguntas do tipo: “Você sabe que tem que pular desse e desse jeito?” ou “Por que você não faz assim ó? (demonstrando como “deve ser”).

Como a criança não estava dando muita bola para o pai e se limitava a fazer o que ele pedia no momento em que pedia para, logo em seguida, brincar como estava brincando antes, o adulto não se conteve e começou a efetivamente explicar e dirigir completamente a brincadeira. Pegou uma pedra ele mesmo, jogou a pedra num número ele mesmo, virou-se para o filho: “agora você tem que ir pulando assim e assim (demonstrando) até a pedra”. O menino, imóvel, olhava o pai. “Vai, vai, vai!”, o pai dizia, gesticulando.

O menino foi, visivelmente deslocado, sem muita convicção, sem entender porque cara@#&*  precisava parar de se divertir para ficar pulando pedrinhas. E o pai ainda assim não estava satisfeito. Continuava a “corrigir” o brincar do filho, cada vez mais impaciente, cada vez falando mais alto, dando mais ordens. Suspirava quando o menino não “acertava” o pulo –com um pé só ou dois.

Depois de tentar de tudo para agradar o pai, ainda que estivesse obviamente se desagradando, a criança simplesmente deixou de brincar e foi sentar-se num canto. Fosse um temperamento um pouco mais “forte”, o menino ao invés de se isolar talvez começasse a “incomodar” os adultos com comportamentos “ruins”. Aí diriam que ele é malcriado, que faz manha, birra, dá chilique. “Não sei o que tem esse menino. Não obedece nunca”. Superativo, precisa de ritalina. Sei…

**********

2)

Uma mulher e um garotinho brincavam juntos num Sesc. Não sei bem o parentesco entre eles, mas eram parentes. Ou ela era avó ou tia. Haviam pedido diversos brinquedos, alguns com números, outros de montar e ainda alguns jogos de adultos. O menino estava brincando fazia um bom tempo com um único deles, não me lembro bem qual.

Mas a acompanhante dele encasquetou que ele deveria parar o que fazia para brincar com o das peças de montar. “Olha, Fulano, vamos fazer um carrinho?”. E aí ela fazia, o menino assistia para, logo depois voltar ao brinquedo original. “Fulano, aqui tem esse ó, dá pra montar um monte de coisas legais”. Menino ainda na dele. A moça esperava um pouco e retomava a artilharia: “Que tal a gente brincar com esse de montar?”

Não interessa muito as razões dela. O menino estava seguro com o brinquedo que queria. As escolhas dele deveriam ter sido respeitadas. E estava óbvio que ele não queria brincar de montar nada. No fim das contas, de tanta insistência, o pequeno cedeu e foi montar sei-lá-o-quê com a tia/avó.

**********

3) 

Avó leva a neta de quatro anos num parquinho. A menina é inteligente e articulada para a idade. A avó, toda orgulhosa, me explica que é porque a menina é “superestimulada” pelos pais, dois professores universitários que investem tudo na educação integral da criança e que, em casa, ainda insistem em “puxar” a menina, oferecendo sempre atividades artísticas e de lazer que possam “contribuir” para o “aprendizado”.

Além de articulada, a menina tem muita energia e imaginação. Logo transforma o tanque de areia em piscina. Quando a avó percebe, vai lá “ajudar” e “superestimular” a neta, que está concentrada, brincando e falando consigo mesma. Quer dizer, estava, até a avó aparecer: “nossa, que piscina grande! Deixa eu ver se a água está boa (fingindo colocar os pés na areia-água)”. E continua: “o que você está fazendo? Por que você não atravessa a piscina nadando? Vem até aqui nesta margem nadando que eu vou marcar seu tempo (!!!)” “Poxa, como você nada bem! Que tal mergulhar agora?”.

A menina não brincou sozinha, não inventou situações. Viveu apenas as fantasias da avó, que não parou de dirigir a brincadeira da neta até elas irem embora, duas horas depois.

Todas essas situações relatadas acima são reais, presenciadas recentemente.

**********

Não fazemos isso por mal. Nem eu nem o pai ou a tia/avó ou a avó. Mas atrapalhamos um bocado mesmo sem querer. Tiramos a liberdade, a tranquilidade e a energia das crianças.

Não conseguimos respeitar a conexão delas com o agora, com o que estão fazendo (talvez porque não tenham respeitado a nossa e porque tenham nos ensinado a nos desconectar desde muito cedo). Atrapalhamos. Muito. O tempo todo. É enlouquecedor.

Comecei a ficar muito incomodada. Irritada mesmo. Só de ver. Só de ouvir.

Fico imaginando como se sentem as crianças com tanta gente tagarelando, interrompendo os fluxos naturais de concentração e o prazer de estar presente numa atividade que tenha despertando interesse.

E em boa parte das vezes, fazemos pior: além de atrapalhar falando, a fala em si pretende dirigir as ações dos menores. Sugerimos que prestem atenção nisso ou naquilo (e não no que eles já estão prestando atenção); que façam de um jeito “certo”, pois pretendemos “ensinar” como se “faz” ou simplesmente fazer com que façam aquilo que achamos que devem fazer, não o que querem fazer.

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Comecei a tomar o caminho inverso. Falo cada vez menos com Enzo –e, creia-me, já é muito. Quando estamos juntos brincando, sempre espero que ele tome a iniciativa de falar comigo. Se me perguntou algo, só respondo. Se a conversa continuar, será porque ele quis. Antes de abrir a boca, olho, olho, olho e olho mais uma vez e olho de novo. Para ter certeza absoluta de que não estou interrompendo nada. Não interfiro nas brincadeiras dele, não sugiro nada. Todos os brinquedos dele estão acessíveis em diversos cômodos da casa. Outros utensílios com os quais goste de brincar, idem. Não sou eu quem vai achar ou sugerir ou estimular o que fazer. Essa é uma prerrogativa dele. Meu papel é “apenas” garantir que ele tenha atividades adequadas à mão. E que esteja bem emocionalmente para ouvir a si mesmo e achá-las.

Ainda escorrego muitíssimo, porque sou tagarela. Mesmo. E adoro isso. Mas agora sei –em diversos níveis, não apenas racionalmente– como é que a coisa toda deve ser. Ter me permitido experimentar a massinha, ter procurado sentir a emoção do Enzo, está sendo essencial nesse processo. E, em contrapartida, tenho aprendido muito nessa observação. Tenho aprendido –ou me lembrado de– como é bom a entrega a uma tarefa que te enche de vida e te absorve e te coloca em contato com tudo e com nada ao mesmo tempo. As crianças são mesmo geniais. Estou tentando não estragar isso.

**********

Para ler mais a respeito desse assunto, recomendo muito:

-Esse post aqui, do Marcelo Michelsohn;

-O Lar Montessori, do Gabriel Salomão, e em especial esse post;

-O encontro com o silêncio da Ana Thomaz

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porque eu quis, porque eu gosto, porque me dá prazer

A questão é que, em geral, o tempo que eu tenho para ler e para escrever é um só. Daí isso exige uma opção: ou leio ou escrevo. E ultimamente (como a frequência aqui no blog deixa claro) tenho optado por ler. Não por mera questão de preferência, mas por um detalhe prático. Dá pra ler na cama (coisa que eu adoro); dá pra ler por 10, 15, 2o minutos; dá pra ler um livro mais absorvente ou uma leitura menos sofisticada (se o sono é grande, pego um livro reportagem, uma biografia, por exemplo. Os mais bacanas deixo pra quando a entrega for possível, sabe como?); dá pra ler rapidinho enquanto o filho está sonolento, mas ainda não dormiu.

Dependendo de quanto seja exatamente o tempo livre, ler se adapta a diversas situações e possibilidades. Dá pra gozar uma boa leitura tendo um minutinho ou hora e meia.

Mas o texto, não. Ou sento em frente ao computador com concentração e desprendimento adequados, ou o post não sai. Se, depois de todas as tarefas cumpridas, restarem 20 minutos, nem abro o blog. Quando estou por aqui só é bom se for 100%. Escrever por obrigação, com prazo no pescoço, é o que faço pra ganhar a vida. O blog é outra coisa. É prazer mesmo. É terapia também. 50 minutinhos, no mínimo. É trocar e aprender com tanta gente fina, elegante e sincera que passa por aqui.

Tudo isso pra dizer que sim, tenho lido muito. Não, não tenho blogado quase nada. Muita coisa do dia a dia que adoraria compartilhar vai ficando sem registro. Outras eu boto lá no face. Tem diálogos impagáveis entre o filho e eu. Tem conclusões surpreendentes do pequeno. Tem perguntas do Enzo que eu respondo com outra pergunta, só pra ver o que ele descobre ou inventa por si mesmo. Nas duas situações (tanto descobrir quanto inventar) aprendemos muito, ele e eu. Eu principalmente. Aprendo que as respostas “certas” são só isso mesmo. “Certas” entre aspas.

Já as fabulações… São de tudo um pouco. Imaginação, bricolagem, sentimentos expressos, frustrações, desejos, criações. E tem muito mais potencial. Uma coisa imaginada pode gerar outras coisas, ideias, pode dar vazão a sensações, comunicar, colocar em movimento. Imaginação é fértil literalmente. Cria, gera. As respostas “certas” são estanques, vazias de sentido pra um menino tão pequeno, terminam em si mesmas, não geram coisa alguma. A menos que ele imagine outras perguntas. E crie novas respostas. Mas daí é a imaginação de novo, entende?

Então tenho parado de responder. Ou de sempre querer responder “enciclopedicamente”. Estou aprendendo a não me sentir mal por não saber tudo. E não querer, portanto, que meu filho saiba tudo. Não fui procurar ainda o nome científico da parte branca do olho, por exemplo. Enzo perguntou umas duas vezes, depois de pedir “dá o nome disso”, apontando pra minha íris. Na falta de uma resposta “certa” (disse que não lembrava, mas que iria ver e falaria depois), ele mesmo resolveu-se e achou explicação que fez sentido pra ele (sensacional, aliás). “Acho que a parte branca é a parte que segura e abraça a íris, mamãe”. E não é mesmo?

O meu filho me desescolariza, me faz mais flexível, mais presente no presente. Sempre disse que a infância é lírica demais. Menos racionalização. Mais sentido. Infância é toda poesia. A nossa vida adulta burocratizada é texto técnico. Não sei você, mas eu tenho apostado mais na poesia.

Tenho feito coisas por nada, só pelo prazer de fazê-las. É minha pequena revolução poética. Porque, nesse mundo de resultados, de planilhas, de sucesso-padrão, de trabalho produtivo como centro de uma vida cujo sentido é comprar e acumular cada vez mais, fazer alguma porque sim, porque quero, porque gosto, porque me dá prazer e me enche de vida e que não vai dar lucro pra ninguém, é praticamente uma subversão.

Uma vez eu li (ou ouvi) alguma coisa mais ou menos assim: pra saber do que você gosta, pense no que você faz quando ninguém (nem seu superego) está olhando. Bom, o que eu faço quando ninguém está olhando é isso: leio, ouço música, vejo filme, danço sozinha, canto no chuveiro, canto pro filho, escrevo aqui, escrevo acolá (tenho um blog fechado de contos e ficção, já contei?), bebo uma cerveja jogando conversa fora com o Dri, mando e-mails quilométricos pros amigos, brinco com o Enzo, durmo.

Tenho me metido numas coisas que eu nunca me permiti antes. Aprender a tocar violão, por exemplo. Irmão maestro me emprestou um livro, me deu outro de aniversário, descolou o violão propriamente, deu dicas. No youtube achei zentas vídeo-aulas e cá estou. Engatinhando e me divertindo horrores com minhas duas mãos esquerdas.

Outra: no ano passado, li um livro do Enrique Vila-Matas, “Dublinesca”, que me arrebatou de tal modo que resolvi ir atrás das principais referências literárias (das muitas) em que ele baseia sua história. As mais óbvias são Samuel Beckett (especialmente “Murphy”) e James Joyce (“Ulysses”, por supuesto). “Ulysses” já estava na minha lista havia muito tempo e na minha estante desde 2012, quando o Dri me deu a edição de bolso da Penguin Companhia, com a festejada tradução do Caetano Galindo.

Mas eu estava com um pouco de preguiça de começar sozinha essa empreitada. Eu queria trocar com outros leitores de Vila-Matas, de Beckett, de Joyce. Sempre fui assim, de gostar de pensar junto, de falar e de ouvir. Mas depois da maternidade acho que virei um ser ainda mais sociável, ao mesmo tempo em que curto cada vez mais minha própria companhia. Estar sozinha, assim como estar acompanhada (dependendo do momento) têm sido experiências igualmente ótimas.

Então convidei alguns amigos interessados em literatura e meu irmão, que geralmente topa minhas loucuras.

Pausa: quando penso em ter outro filho –e essa é uma ideia que às vezes baixa por aqui, ainda que sob protestos do marido–, sempre penso nisso por causa do meu irmão, das experiências e da infância compartilhada, das memórias compartilhadas, e também do companheirismo da vida adulta. Amor de irmão é uma coisa diferente de todos os outros afetos. Não sei se quero privar meu filho de provar esse sentimento. Despausa.

Alguns aceitaram e viramos três dispostos a essa jornada literária autoimposta. Era pra lermos “Ulysses”, depois Beckett. Zé, meu irmão, sugeriu outro arranjo: já que estávamos lendo obras mais antigas que inspiraram uma obra contemporânea, que tal começar pela obra original, que inspirou o próprio Joyce em “Ulysses”? Sim, botamos no topo da lista “Odisseia”, de Homero, em verso e na íntegra.

E aí eu me vi, mesmo com tanta coisa que tenho pra ler pro trabalho, pra estudo, pros grupos dos quais participo, pro mestrado, deixando todas essas “leituras necessárias” de lado e priorizando as 574 páginas de uma das obras mais antigas de que se tem notícia no Ocidente.

Por quê? Porque sim, oras. Porque é bom pacas. Porque adorei. Porque ri. Porque me emocionei. Porque é lindo. Porque é tosco às vezes. Porque é cheio de revelações sobre a subjetividade daquele grupo de pessoas que viveu por essas bandas há nove ou dez mil anos. Porque eles são nós. Porque o Homero (ou os homeros, ninguém sabe se esse cara realmente existiu ou se suas obras são criações coletivas sem autoria definida –e a gente achando que está inventando a roda com as colaborações via internet) foi o pioneiro nas “vinganças justificadas”. Porque, por mais inverossímel ou exagerada que nos pareça a saga do Odisseu, ela é bem contada como poucas coisas que li. Porque dá prazer ler. Muito prazer.

E tudo isso é consequência direta do que aprendo como mãe, com meu filho, com seu olhar fresco sobre o mundo e com sua ligação tão íntima com ele mesmo. Redescobri em mim, observando Enzo, um prazer íntimo e intenso com a literatura. Nunca deixei de gostar de ler. Mas perdi um pouco do tesão que eu tinha quando era mais nova.

E o que eu tenho percebido –e refletido publicamente por aqui– é que a gente perde o tesão justamente pelo que jamais poderia perder, por aquilo em nós que nos constitui. Daí buscamos numa coisa ou numa conquista ou numa outra pessoa preencher um vazio supostamente inato, mas que não nasce com a gente e que, na verdade, botamos no peito quando abrimos mão de amar o que nos move.

As crianças só amam o que as coloca em movimento, o que dá prazer. E isso é tão subversivo e, de certa forma, considerado perigoso, que tratamos logo, nós, adultos, de botar a criançada nas escolas, a primeira das muitas coisas brochantes, corta-tesão e alienantes que inventamos para nos distrair do que realmente importa, porque essa distração é pressuposto para toparmos levar essa vida sem sentido que levamos.

Durante muito tempo, na terapia (foram seis anos de análise até eu resolver me dar um descanso), eu busquei um sentido, uma resposta, uma explicação lógica. Pra mim, pra vida. Procurei um sentido na vida de um modo geral. Na minha vida particularmente. E sabe de uma coisa? Com a maternidade descobri que não é preciso buscar sentido. O sentido não nos escapa. Ele nasce conosco, ele meio que é o que nós somos. Conosco e em nós. O tempo todo.

Observando meu filho, comecei a pensar que não há um vazio fundamental na condição humana. Não há busca. Há pessoas, aquilo que as constitui, a vida que levam. E essa vida pode ser mais plena de sentido (não necessariamente de lógica, mas who cares?) e, portanto, menos “vazia”, quanto mais fiel essa pessoa for àquilo que lhe dá tesão, prazer. O sentido sempre esteve e estará aqui. As crianças sabem, nós também sabíamos.

Então, resumindo, se eu não escrevo mais frequentemente no blog, não é por falta de vontade ou por falta de ter o que dizer. É por amor. É por tesão. Amor que não me deixa vir aqui à toa. Amor que me leva a outras paixões, entre elas desenhar uma praia com nuvens com o filho e vê-lo, como eu vi hoje, botar os olhos da nuvem dentro da boca só porque ele achou mais bonito assim. E se pra ele é mais bonito assim –e a beleza é fundamental–, que assim seja, pois mais belo assim será.

Não escrevi esse post gigante (sorry, não consigo evitar, juro que tento) pra me justificar pelas ausências ou pra explicar coisa alguma ou com qualquer finalidade que seja. Escrevi só (só mesmo) porque quis, porque deu vontade, porque me deu um prazer enorme e me fez feliz. Um brinde, então (com cerveja gelada por aqui), às coisas “inúteis” e deliciosas.

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a (falta de) TV e o “computador” do filho

Faz 15 dias que estamos sem TV. Quer dizer, o aparelho continua firme e forte, funcionando (até onde eu sei), no mesmo lugar onde está desde que tiramos da caixa. A diferença é que, faz duas semanas, ele permanece desligado durante o dia todo, pelo menos até a hora do filho ir para a cama.

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A princípio, eu queria apenas diminuir o tempo de exposição do Enzo às telas. Observando o comportamento recente dele, havia percebido um aumento muito grande de interesse pelos programas televisivos e, na mesma proporção, a diminuição (ou perda completa) de interesse por atividades lúdicas quaisquer.

Sempre fui favorável a estimular uma infância com pouca TV porque sempre acreditei que TV distrai do que é importante. Ligar o aparelho muitas vezes é desligar-se, especialmente no caso das crianças, em que a relação delas com o mundo pode ser tão intensa e frutífera e que a criação e a descoberta ainda estão tão potentes (ainda não desaprenderam a inventar). Criança não bloqueia a criação nem a percepção racionalizando e tentando explicar/entender logicamente o mundo, como a gente faz. Criança primeiro sente, cria, primeiro ousa, experimenta. Depois apreende o sentido lógico, que é só uma das faces de qualquer coisa. A Ana Thomaz diz que as crianças têm os sentidos ainda muito abertos e usam muito mais do que a parte racional do cérebro (os famosos 5%) que os adultos usamos. Concordo.

Para os pequenos, um objeto é muito mais do que a função utilitária que ele tem. É também forma, cor, textura, cheiro, som, gosto e zilhões de possibilidades de percepção e aplicação. Ou, de outra forma, uma tampa de panela jamais viraria uma direção de carro, confere? E isso não é “só” brincadeira. Quem disse que alguém começa a aprender a dirigir quando senta no carro da autoescola? Para mim, criança começa a aprender tudo sobre tudo não apenas quando faz as perguntas racionais e lógicas aos adultos sobre o que é isso ou o que é aquilo, mas principalmente quando (e porque) se permite experimentar todas as coisas, observar, testar, imaginar, inventar e reinventar usos reais e imaginários e absorver das coisas tudo o que elas têm para dar, sem limites. Elas acham as próprias respostas antes de fazer as perguntas.

Só que esse percurso de criação e experimentação pode ser atrapalhado, entre outras coisas, por tecnologia e brinquedos prontos (ou “ultraprontos”, tipo a boneca que come, faz xixi e fala). Aliás, isso explica porque criança pequena não gosta muito de brinquedo, prefere embalagem. Para criar, é preciso algum vazio; alguma coisa por fazer, certo? E para mim fez muito sentido na prática, como disse, pela observação do meu filho. Quanto mais ele preenchia seu tempo com entretenimento, menos criava. Resolvi ampliar as possibilidades de criação dele pelo modo mais óbvio: diminuindo a distração.

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No primeiro dia em que fiz isso, recorri a um expediente muito conhecido entre as mães: a mentira. Não me orgulho, mas… menti descaradamente. Como de costume, ele começou a pedir para ligar a TV assim que acordou, antes mesmo do café. Desconversei. Não deu certo. Então apelei: “filho, sinto muito, mas a TV quebrou”. Esperto que só, não acreditou muito. Retrucou com um “a mamãe ti mosta que quebou“. Improvisei um teatro, dei uma disfarçada com o controle remoto e, bem na hora em que o desenho que ele pediu ia começar, desliguei. “Está vendo, filho, quebrou”. Se convenceu.

Tinha planejado ligar mais à tarde e deixá-lo ver o desenho que quisesse. Mas, para minha surpresa e admiração total (ou não, porque no fundo eu esperava que isso acontecesse), ele simplesmente esqueceu que a TV existia. E foi brincar. Brincou com guache, depois com os carimbos (lavou as almofadas de tinta dentro do copo de água, de modo que saiu toda a tintura e as ditas cujas foram pro lixo), desenhou com giz de cera e lápis de cor, tirou tudo para fora da caixa de brinquedos e voltou a usar muitos que fazia tempo nem ligava, encaixou e desencaixou inúmeras pecinhas, conversou com os bichos de pelúcia, pegou o edredom do meu quarto e fez uma cama para a Branca e para o Pimpão (a coelha e o urso, respectivamente, com quem ele dorme todos os dias), “telefonou” para um monte de gente, correu. Nem um minuto parado. Dormiu cedo, exausto.

Esperei para ver como seria no dia seguinte. Pediria ou não para ver “Charlie e Lola”? Não pediu. Tomou café e foi brincar de novo. Como ele não pedia para ligar a TV, eu simplesmente ia deixando desligada. E assim estamos. Ele não pede, eu não sugiro. Os personagens de que ele gostava, que antes eram parâmetros para todas as (poucas) brincadeiras, surgem esporadicamente nas fabulações dele, que agora são muito mais criativas e reveladoras do que ele realmente observa, pensa e sente. E isso tem sido um aprendizado para mim também, porque vejo nossa dinâmica refletida e consigo perceber, por exemplo, quando ele se chateou com alguma coisa ou quando ficou impressionado com algo que eu (ou as pessoas próximas) fiz (fizeram). Brincadeira (assim como a arte) também é comunicação.

Dia desses ele pegou meu edredom, colocou no sofá, “guardou” sob ele a Branca e o Pimpão, cobriu metade das pernas (sob um calor de 35º C) e me chamou. Sentei onde ele indicou (bem ao lado dele) e então começou a brincadeira: “Agola não é mais o Enzo, é a majetade. E eu estou levando a mamãe de tem pro paque“. Majestade é uma personagem de um livro que ele adora (e que nem temos em casa; a gente lia numa biblioteca pública). Trem é o veículo utilizado num dos episódios de que ele mais gosta do “Backyardigans”. E o parque é a praça onde vamos com ele com frequência nos finais de semana. Bem mais rica e imaginativa essa brincadeira do que simplesmente reproduzir falas do “Mr. Maker”… E isso é só um exemplo. Porque uma criança que brinca o dia inteiro sem parar (pausas esporádicas para me ajudar a lavar o tomate cereja e preparar o almoço ou arrumar a casa…) diz muito sobre o bom estado da sua criatividade, confere?

Mas eu soube mesmo que está dando certo e que estamos no bom caminho sem a TV anteontem. Da mesa da sala, onde trabalho às vezes, vi e ouvi o pequeno brincando (porque a gente trabalha em casa sempre com um olho no peixe e outro no gato, né?). E eis que Enzo pegou um livro fininho, mas de capa dura, colocou deitado em cima do móvel da TV e abriu a capa, levantando-a apoiando-a no aparelho. Começou a “digitar” no livro aberto como se fosse o notebook. Tirou uma das mãos do livro, levou ao ouvido, e então ficou um bom tempo “conversando” e fazendo “perguntas” sobre valejo (varejo, área que eu cubro como jornalista). Aí se despediu (“xau, xau, bigadu“), colocou o “telefone” de volta na mesa da TV, baixou a capa do livro e, satisfeito, disse para si mesmo: “Ponto, posso fechar o compodoi que eu já acabei minha entevita“.

(*) Mafalda veio daqui e (**) o Calvin eu achei nesse endereço ó.

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dos limites e do ócio

Discordo bastante do senso comum sobre limites. Não acho que o principal problema das crianças seja falta de limites. Ao contrário, a vida delas já é bastante limitada, bem mais do que foi na minha geração. O que falta, na verdade, é tempo (com os pais, para o ócio, para não fazer nada, para fazer de tudo um pouco, para brincar, para errar…) e espaço (físico-literal, mas também figurado. Não há espaço para a infância, que é experimental e errante por natureza, numa sociedade em que, de repente, tudo é “orientado para resultados”).

Daí que venho pensando bastante nisso e, hoje, boa surpresa, encontro esse texto aqui no MMqD. Direto ao ponto, bota os pingos nos “is”. Estamos criando pessoas ou um exército de futuros yuppies que vão falar 15 línguas, ter experiências internacionais, MBAs, conhecimento sobre vinho e gastronomia nanomolecular e, paradoxalmente, não farão a mínima ideia de quem são?

Recomendo a leitura.

E, aproveitando, vale ver esse vídeo aqui, do sempre ótimo Carlos González. Com muito bom humor, tiradas irônicas e algum deboche, ele fala o que precisa ser dito sobre limites. Está em espanhol, infelizmente sem legendas. Mas, no geral, dá pra entender bem. E vale a pena.

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pitacando no Mamatraca

Hoje estou lá no Mamatraca, pitacando sobre a regulamentação da publicidade infantil. Sou favorável à criação de uma legislação específica que regule a publicidade voltada para crianças (já contei aqui os meus motivos) e estou, portanto, acompanhando com muito interesse o desenrolar da tramitação do PL 5921, que pode ser um primeiro passo nesse sentido.

Também faço parte do coletivo de mães e pais Infância Livre de Consumismo e, como integrante desse grupo aguerrido e cheio de disposição para defender os interesses dos nossos filhos, dei o depoimento que virou este vídeo aqui no portal das queridas Anne Rammi, Priscilla Perlatti, Carol Passuello e Roberta Lippi.

Bóra lá dar uma olhada? Depois volte aqui e me diga o que achou. Publicidade para crianças deve ser melhor regulada? Ou você está satisfeita (o) com as coisas como são hoje em dia?

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