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do teatro pela mãe, do personagem amado e do discurso

Sábado, finzinho da tarde, corro com filho pro Sesc mais próximo. Vai ter teatro. Chegamos com a peça já no meio. Sugiro nos sentarmos num banco vago, logo ali. Filho prefere caminhar pela unidade, ir ao café, reparar nas cores das paredes e nos detalhes arquitetônicos do prédio. Ou simplesmente vagar sem rumo. Ok, vamos lá, teatro fica pra outro dia.

Numa das andanças, minutos depois, passamos novamente bem pertinho de onde a trupe se apresenta, e o banquinho vago continua vago. “Vamos sentar só pra ver um pouquinho? Vai que você gosta…”. Filho diz que sim com a cabeça, nos acomodamos (ele no meu colo) e começamos a assistir ao espetáculo.

Tudo muito bom, tudo muito bem, peça regular, um pouco engraçadinha, filho vai ficando quietinho, prestando atenção, não pede mais para levantar e passear por aí. Eu, ligeiramente a fim de ver a peça e querendo mais ainda que o filho comece a gostar desse tipo de evento (confesso), interpreto essa quietude como um sinal de que o pequeno está curtindo. Pra não restar dúvida, pergunto: “E aí, está legal?” “U-hum, está sim, mamãe”. Ok, ótimo, ficamos então.

A peça, que já estava mais ou menos no final, termina uns 15 minutos depois. Mais do que rápido, filho levanta do meu colo e me pede pra retomarmos o passeio pela unidade do ponto em que paramos para ver o espetáculo. Nem uma palavra sobre o que acabou de ver. Perguntei algumas vezes sobre partes engraçadas, quis saber do que ele tinha mais gostado etc, e ele sempre fingindo que não estava ouvindo bem ou emendando uma outra pergunta, sobre qualquer outro assunto, na minha. Paro de insistir.

Voltamos para casa meia hora depois e, na hora de contar para o pai sobre o passeio, nem uma menção à peça. Eu digo: “Mas e a peça? Estava legal, não estava?”.

“Não, não gostei, não”.

“Ué, então por que você ficou? Por que quis ver até o final e não se levantou como a gente tinha combinado?”, pergunto, realmente surpresa.

“Porque você queria que eu visse, mamãe”.

Ca-ta-ploft!

Está aí: a gente promete que não vai sufocar os filhos com nossas expectativas sobre eles, com nossas ansiedades, com nossos desejos de infância mal satisfeitos projetados nos pequenos como se desejos deles fossem, mas, mesmo com todo o cuidado e com toda a sutileza, a gente acaba cobrando dos filhos que se encaixem num molde pré-desenhado para eles pelas nossas fantasias delirantes.

E os filhos, por mais que a gente fique atenta a isso, acabam tentando se encaixar nesses moldes. Não por desejo legítimo, mas por necessidade de serem amados e aceitos.

Uma parte considerável dessa necessidade de serem amados e aceitos dessa forma, ajustando-se às expectativas, é resultado direto de como a gente “educa” as crianças. Por mais que a gente reflita sobre isso e se policie (eu muito), toda a educação que a gente recebeu, introjetou e que por isso baseia inconscientemente a educação que a gente dá quando não percebe, quando não dá tempo de racionalizar, é baseada em julgamento e em condicionamento do amor (condicionamento do afeto, da apreciação, do “orgulho”, da valorização das crianças).

Quando criticamos alguma coisa “errada” ou elogiamos alguma coisa “certa”, estamos julgando ao invés de ensinar, julgando ao invés de compreender, julgando ao invés de acolher e ajudar. Diz Rebeca Wild, sobre as crianças (e pra mim isso vale pra qualquer ser vivo com autonomia de ação, até pra animais): “Quando se sentem bem, não se comportam ‘mal'” (sendo “mal” aqui uma coisa autodestrutiva ou destrutiva em relação a outros seres, à natureza, à vida). Mas ao invés de ajudar a sentir-se bem, a gente oferece julgamento.

E aí o julgamento é uma condição. O amor, a apreciação, o orgulho fica tudo condicionado. E mesmo que a gente não queira ou não sinta verdadeiramente isso, dizer: “filho, que bacana que você fez isso, que orgulho de você” ou “que pena que você fez isso, assim não é legal” é o mesmo que dizer: “não tenho orgulho do que você é, não acho bacana o que você é, mas sim algumas coisas que você faz que eu eu acho positivas e valorizo”.

Ou, em outras palavras, quando educamos pelo julgamento (positivo ou negativo), coisa que a gente acaba fazendo muito frequentemente, mesmo tendo consciência desse mecanismo, porque isso está em nós, no nosso subconsciente e molda a forma como aprendemos a enxergar a educação, as crianças entendem (corretamente, aliás) que há uma espécie de “nota de corte” no nosso afeto, uma linha que divide quem será amado de quem não será tão amado (valorizado, apreciado). E essa linha tem a ver com a satisfação das expectativas que temos dos filhos (porque estamos dizendo isso pra eles o tempo todo quando julgamos e botamos o referencial de julgamento em nós).

O poder do discurso materno (e paterno e de qualquer adulto que seja referência) é justamente esse: criar personagens para as crianças ao sabor do nós adultos julgamos ser o modelo ideal de ação (e nem estou falando de comportamentos mais cobrados socialmente ou que de fato tenham impacto social. Estou falando justamente das pequenas coisas também. Da expectativa que o filho goste de teatro, meu caso; da expectativa de que goste de ler, de que seja gênio na matemática, de que toque um instrumento muito bem, de que seja precoce, de que se destaque etc).

E as crianças passam a infância se enquadrando nesse modelo, a adolescência em conflito com ele (mas sempre submetidas) e boa parte da vida adulta, se sorte tiverem, no divã do analista tentando descobrir quem são de fato para além das personas que lhes garantiram as estrelinhas no caderno.

E a surpresa, no meu caso, foi dar-me conta de que, apesar de saber disso tudo, repeti o modelo e lá estava eu, sutilmente, pressionando meu filho a corresponder a uma expectativa minha. Tanto que ele percebeu (eu não) e se adequou. Inclusive esse é um outro grande problema: as crianças são muito mais sensíveis que nós. Elas percebem claramente aquilo que a gente não ousa pensar. Ouvem o que somos, não o que dizemos. Nosso inconsciente até pode se esconder de nós, mas jamais dos nossos filhos.

O “cataploft” foi um choque, e tive uma longa conversa com meu filho sobre isso, apenas para explicar o que tinha acontecido e deixar claro que eu sentia muito. Também tenho procurado estar mais atenta, mas é difícil pacas, assim como é difícil pacas encontrar e aplicar um novo modelo de educação que não se baseie no julgamento, no controle, na manipulação e na desconfiança da criança (como se ela precisasse ser consertada pelo adulto, esse sim perfeito).

É claro que esse exemplo da peça não é exatamente tão profundo e/ou fundador quanto o que acontece cotidianamente e a gente não vê, quanto o que quer dizer Laura Gutman quando fala do poder do discurso materno (expressão que “roubei” dela e que deu origem a esse livro aqui), quanto o que apontam, sobre esse tema, pessoas como Montessori, Alfie Kohn, Rebecca Wild. É “só” uma quase metáfora. Mas a metáfora tem o mesmo princípio que a realidade que ela explicita. E nisso consiste a validade de não subestimá-la. Até porque a realidade é mais difícil de enxergar.

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Instada pela escola do meu filho, reli esses dias dois textos bárbaros do Alfie Kohn, traduzidos pelo Gabriel Salomão (do Lar Montessori), sobre os elogios. Tem a ver com essa conversa aí de cima, na medida em que explicita que os elogios (e o “reforço positivo”) são a face mais sutil (e por isso mesmo perigosa) da manipulação, do afeto condicionado, da desconfiança e do desequilíbrio de poder que permeiam –infelizmente– as relações com as crianças.

Vale a leitura. Aqui e aqui.

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espelho meu

Cada um tem o filho que merece, dizem. E muitas vezes essa frase soa pouco empática e bastante acusatória, como se esse “merecimento” fosse um castigo. Mas gosto de enxergar nela outro sentido. As crianças interagem com aquilo que somos, não com as máscaras. Ouvem o que sentimos, não o que dizemos. Mais que isso: veem e respondem também àquela parte que somos mas não gostaríamos de ser –ou o que não somos, mas gostaríamos de ser. De modo que, em suas muitas demandas, acabam por exigir de nós que, pelo menos, reconheçamos o que nos falta, as nossas ausências todas, e a presença delas na medida em que nos limitam. Se estivermos abertos a isso, os filhos nos colocam em contato direto com nossas pretensas impossibilidades e, portanto, nos facilitam o caminho na direção de deixá-las menos “im”  e mais “possibilidades”. A potência tão à flor da pele nas crianças potencializa a potência em nós.

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No sentido contrário, também nós enxergamos nos filhos (e não só neles…) aquilo que não queremos ver em nós. Não vemos o que vemos. Vemos o que somos. Em boa parte das vezes em que reagimos com impaciência ou irritação às demandas dos pequenos, estamos reagindo àquilo em nós que nos negamos e reconhecer e que aparece clara e limpidamente no comportamento das nossas crias. Dito de outra forma, os filhos nos revelam duplamente a nós mesmos: quando nos enxergam como somos e se comunicam com o “outro” que vive em nós e também quando nós vemos esse “outro” refletido nas atitudes dos nossos filhos que tanto nos “provocam”.

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Faz um tempo, levei meu filho a um parque para andar de triciclo. A pedido dele. Chegou lá ele deu duas pedaladas, disse que estava cansado e propôs –meio “choroso”– que eu o empurrasse. Neguei, ele desistiu de brincar. Aquilo me irritou muito. O primeiro pensamento consequente à irritação foi algo como: “ele me faz andar de casa até aqui, nesse calor, porque quer se divertir e acaba sendo incapaz disso. Estou perdendo tempo! Me esforço à toa!”

Fui reconhecendo uma série de “sombras” nesse pensamento: 1) autopiedade e autovitimização.

2) O grau de empatia é quase zero. As palavras que qualificam o outro, no caso, meu próprio filho, são duras e injustas.

3) Eu, adulta, me coloco na condição de vítima da criança, como se a intenção do pequeno fosse realmente me provocar ou prejudicar e como se eu tivesse sido obrigada a acompanhá-lo ao parque ao invés de ter escolhido ou assumido a responsabilidade de fazê-lo como cuidadora que sou. Não fui ao parque coagida. Filho pediu e eu decidi ir, decidi assumir como tarefa de mãe –que de fato é– proporcionar essa oportunidade, percebe? Mas na hora de narrar esse, digamos, acontecimento, escolhi, ainda que inconscientemente, me “desresponsabilizar” e me colocar no papel passivo: “ele me faz vir (…)”.

4) Algo que fiz pelo meu filho e que é uma responsabilidade minha é encarado, talvez inconscientemente, como um favor, como um esforço ou uma concessão, pela qual a criança deveria ser eternamente grata. Superioridade condescendente. Adultismo. Não construí a narrativa como se eu fosse um igual que convive, que cede e negocia com alguém em igualdade (alguém que também me concede, talvez em maior medida inclusive), embora dependente. Mas como aquele que merece ser agradecido por outro pelo simples fato de existir e estar, momentaneamente, presente.

5) Refiro-me a tempo e a esforço como se lidar com outro ser humano e, nessa relação, assumir e cumprir responsabilidades e tarefas, conceder, agir para o bem do outro etc fossem espécies de “investimentos”. A pergunta é: fui ao parque para ver meu filho feliz e lhe garantir oportunidade de ser criança, brincar, experimentar a infância ou levei o pequeno para que ele cumprisse um determinado papel e alcançasse algum objetivo (andar de triciclo tantos minutos e, portanto, cumprir uma hipotética cota diária de atividades físicas para se encaixar em algum padrão)?

6) Do item 5 chega-se ao 6: se me filho cumprisse à risca a expectativa que eu criei, aquilo no qual afirmei que “investi” tempo e esforço, eu teria me sentido certamente uma “mãe melhor”, que tem um filho “feliz”, que brinca com seu triciclo o tempo “adequado” como qualquer criança “normal”.

7) A expectativa é uma merda. E recai sobre o filho porque, note bem no parágrafo anterior, é cobrança que faço a mim mesma. O “filho perfeito” que imagino faz sentido porque eu preciso ser “a mãe perfeita”, saca?

8) E, ao fim e ao cabo, o mais estarrecedor e talvez menos evidente à primeira vista, mas sem dúvida mais nocivo para a relação mãe-filho e o que mais contribui para uma desconexão e uma falta de presença minhas que, sem dúvida, contribuem para meu filho ser mais dependente (quando pede pra eu empurrá-lo, por exemplo) e menos consciente de si mesmo: o pensamento –a narrativa– gira 100% em torno do meu umbigo. Cadê meu filho –de verdade, não a ideia de um filho– em toda essa situação (desde a irritação e ao longo de todo o pensamento em que conto a mim mesma a razão da irritação)?

Ana Thomaz propõe um exercício (que ela chama de trabalho) muito interessante nesse sentido de expor, por intermédio do outro, aquilo que queremos evitar em nós. É um exercício de autoconhecimento, pois, como ela mesma diz aqui, neste vídeo, a gente não se isola pra se conhecer; a gente só se conhece em relação, na relação com o outro.

Depois de muito trocar sobre isso no grupo de mães e pais do qual faço parte no facebook, me decidi a ir testando esse exercício, que consiste, resumidamente, em: reafirmar a você mesmo as críticas que faz ao outro, como se elas fossem a você.

No caso da minha irritação com o pequeno, naquele momento no parque em que, ambos injuriados, começávamos a voltar para casa, eu classifiquei meu filho como “preguiçoso”. “Ele não se empenha, não se esforça, desiste facilmente ao primeiro obstáculo, mesmo querendo muito determinada coisa”.

Passada talvez uma semana desse episódio, foi quando finalmente reafirmei esse julgamento me colocando dessa vez como alvo não como juíza. “Eu não me empenho, não me esforço, desisto facilmente ao primeiro obstáculo, mesmo querendo muito determinada coisa”.

Então, começou um processo de autoquestionamento, muito sutil e até muito pouco racionalizado ou organizado Fui me fazendo perguntas, deixando algumas inquietações virem à tona e, ao mesmo tempo, deixei as questões todas e as angústias todas seguirem seu rumo, sem tentar encontrar as respostas a: que empenho seria esse? que esforço seria esse? em que medida? o que espero que eu mesma faça para sentir que me empenho e me esforço? pelo quê? que obstáculos são esses? quando desisti facilmente? de quê? o que desejo e não me esforço pra conseguir? qual é a insatisfação comigo mesma que afinal projetei no meu filho?

Segundo a criadora do “método”, Ana Thomaz, não é preciso fazer nada além de reconhecer a sombra refletida no outro para “limpar” as energias estagnadas e dar ao corpo (que ela define também como parte do inconsciente) a senha pra “trabalhar” a situação.

O curioso (pra mim que sou cética mesmo com aquilo que, como é o caso, faz sentido) é que “funcionou”. Reconhecer a “preguiça”, a falta de energia e de determinação –uma certa inércia em mim mesma– fez com que, à revelia de qualquer avaliação consciente ou racional, eu pusesse, sem ao menos me dar conta, diversos projetos que me são caros e que estavam parados novamente em movimento.

Ao mesmo tempo em que, ainda que fundamentalmente eu continue sendo a mesma pessoa, passei a ir pra relação com o filho sem essa “bagagem”, sem essas emoções estagnadas minhas –como a autocensura ou a “autoexpectativa” não atingida– que se interpunham entre a gente.

Deixei de lado uma certa irritação latente, que, como toda irritação latente, não fazia parte do meu encontro com meu filho, mas de minha relação primária mal resolvida comigo mesma.

Descobri, meio por acaso, na prática (e é sempre na experiência que aprendemos porque é na experiência que nosso corpo, nosso inconsciente, sente e elabora) que, ao se abrir aos filhos, ao que eles exigem de nós e também àquilo que exigimos deles (portanto ao nosso reflexo neles), nos franqueamos uma infinidade de possibilidades de autodescoberta e de incorporação da nossa “sombra” àquilo que de fato somos ou podemos ser.

O mais incrível? Depois que eu apenas reconheci que a irritação dirigida supostamente ao meu filho era, na verdade, uma irritação comigo mesma, o pequeno simplesmente abandonou o comportamento “preguiçoso” que me irritou –ou que serviu de veículo pra eu expressar um descompasso que estava relegado à sombra. Uma vez que me vi refletida e aceitei meu reflexo, deixou de ser necessário mirá-lo de novo e de novo e de novo. A ficha caiu.

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“Quero ressaltar que não importa se nossa mãe (ou cuidadores) ‘fez tudo certinho’. Não importa se foi uma mãe fenomenal, calma, paciente, sacrificada ou justiceira. O que os filhos necessitam para criar seres alinhados com seu ser essencial e em profunda conexão consigo mesmos, é que seus cuidadores compreendam a si mesmos. Se não tivermos cuidadores adultos e maduros, consciente de seus próprios estados emocionais e sua história, essa sabedoria não será derramada sobre as crianças. Por isso, é pouco provável que as crianças quando cresçam olhem para suas vidas em estado de total consciência. Tornar-nos adultos é tomar as rédeas de nossas vidas, atravessar os bosques para enfrentar de frente nossos dragões internos, olhá-los nos olhos e ao final desse caminho cheio de perigos, decidir quem sou eu. A partir desse momento, seremos totalmente responsáveis pelas decisões que tomamos em nossas vidas em todas as áreas, incluindo a capacidade de não encerrar nossos filhos (se os temos) nos personagens que sejam mais convenientes para nós.”

Trecho do livro “La Biografía Humana: una nueva metodología al servicio de la indagacion personal”, de Laura Gutman, citado recentemente no facebook pela Anna Gallafrio.

 

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o tapinha não só dói como se reproduz

decur

Algumas considerações minhas sobre a aprovação da “Lei da Palmada”:

1) Não há interferência indevida do Estado na vida familiar, privada, particular. O Estado tem o dever de proteger a vida das pessoas e é precisamente isso que está fazendo agora. O corpo do outro é do outro, não pertence a ninguém além do outro. Não é porque o outro calhou de ser seu filho que o corpo dele virou “privado”. O corpo de uma pessoa é inviolável; ninguém pode bater em ninguém. Ninguém pode bater em criança; criança também é alguém, seu corpo também é inviolável. Óbvio. Seja um “tapinha”, um soco, um chute, um tacape na cabeça.

2) O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) já previa proteção para casos mais graves de agressão física. Mas não dizia nada sobre o famigerado “tapinha educativo”. A mudança que a “Lei da Palmada” realiza é justamente nesse ponto. Dá nome certo à violência do tapa na cara, do beliscão, do grito, da humilhação: violência e ponto. Mas, ao contrário do que muita gente tem dito, uma mãe que deu uma “palmada” no filho não será presa. A ideia da lei não é mandar pais e mães pra cadeia, minha gente (apesar do raciocínio binário de muitos pais violentos não dar conta de uma ação educativa que não seja punitiva). Nomeando a violência e a inscrevendo no ECA, na lei, o objetivo é conscientizar os pais que ainda não entenderam que há formas não-violentas de educar e que são essas as que melhor criam condições para uma sociedade mais justa e menos violenta (que, em tese, todos queremos). Melhor dizendo:

3)  há formas não-violentas de educar. “Tapinha educativo” não ensina absolutamente nada, exceto se o cuidador em questão quiser ensinar violência (praticar ou submeter-se a). Um exemplo bem basiquinho: imagine que tem lá uma criança fazendo qualquer coisa que o cuidador considere errada. Daí o cuidador dá uns gritos, lá de longe, mandando a criança parar. Como o poder é impotente, e a criança é potência pura, a criança OBVIAMENTE não para. Aí o cuidador vai lá e dá um tapa na criança. Vamos considerar que se pretendesse evitar que a criança se machucasse. Com o tapa, será que a criança aprendeu que o comportamento mais seguro seria não mexer naquele determinado objeto? Não, né? Porque tudo o que o adulto fez para ajudar a criança a compreender o perigo ou os limites seguros para se agir foi… nada!

4) Ainda que “tapinha” fosse mesmo educativo, que “funcionasse” instrumentalmente em algum nível, há coisas que não se faz por princípio, sabe? Porque a gente se pretende civilizados, inteligentes. A gente se pretende de alguma forma uma sociedade que usa razão, empatia, que convive e que abre mão conscientemente do uso da violência em função de uma convivência baseada em sentimentos mais “elevados” ou, dito de outra forma, com menos potencial lesivo. É como a tortura, entende?; ainda que “funcione” (e nem estou dizendo que funciona), não dá pra apoiar, aceitar, legitimar. Bater em criança está fora de questão.

5) Violência é SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE a perda de controle de quem violenta. Não é nada além disso. Não é educação, não é amor, não é nada. É só perda de controle. É só o uso de vantagens física e emocional, relativas ao poder, para controlar o comportamento de alguém pelo medo e pela dor ao invés de o indivíduo que violenta sentir ele próprio a dor que lhe compete. O comportamento do outro gera no sujeito agressivo uma sensação que ele não suporta. Não suportando, ele vai lá e agride. Perda de controle sobre si mesmo.

6) A responsabilidade pelo que se sente é sempre de quem sente. O que significa dizer que se a mãe se encoleriza com um comportamento do filho, a responsabilidade pela cólera é absolutamente da mãe. JAMAIS do filho. A mãe tem de olhar pra si mesma e entender as razões pelas quais sente-se dessa forma. Educar, colocar limites, enfrentar conflitos e lidar com as diversas demandas dos filhos não deveria causar raiva. Se causa, tem alguma coisa erra aí –com o cuidador– que precisa ser investigada –pelo cuidador. Bater no filho pra passar a raiva não vai resolver nada (além de ser uma covardia em muitos aspectos).

7) Violência gera violência. A absoluta falta de destreza para lidar com as próprias emoções a ponto de agredir alguém é algo que se aprende. Se aprende ao levar um tabefe. Se aprende ao ser humilhado. Se aprende ao ter a autoestima destroçada por pais violentos.

8) Adultos que defendem a palmada porque “apanharam e estão bem/sobreviveram/são educados etc (fill the blanks)”, poderiam refletir sobre a Síndrome de Estocolmo e sobre a adolescência, também conhecida como aquela fase da vida em que a gente começa a descobrir os próprios valores, interiorizar-se e aceitar que os pais não são perfeitos. É quando a gente amadurece o suficiente para aceitar que, mesmo amando os pais, mesmo valorizando tudo o que fizeram pela gente, eles erraram feio, erram feio e a gente não precisa fazer a mesma coisa, se essa coisa não serve mais. É preciso uma boa dose de maturidade para cortar esse cordão umbilical sutil com os pais e seguir a vida autônoma, sem dependências e sem demonização.

9) Adultos bacanas que apanharam não são bacanas porque apanharam, mas APESAR de terem apanhado.

10) Para aqueles que ainda não conhecem formas de realmente educar seus filhos sem o que o senso comum oferece como alternativa (agressões, ameaças, supernanny e castigos), mas se interessam por uma relação mais autêntica e respeitosa com os filhos, recomendo algumas leituras, começando por:

a) essa seleção aí abaixo de textos das cientistas Lígia Moreiras Sena e Andréia C. K. Mortensen (uma das administradoras da ótima comunidade Crescer sem violência):

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/02/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/11/postagem-coletiva-19-de-novembro-dia.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/04/como-o-mau-jornalismo-incentiva.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2014/03/dos-direitos-radicais-das-criancas.html

O blog da Lígia, o “Cientista que virou mãe“, aliás, é todo ele altamente recomendável. Lígia e Andréia acabaram de lançar um livro justamente sobre como –e por que– educar sem palmadas.

b) o blog “Conexão Pais e Filhos“, do Marcelo Michelsohn, é basicamente um amontoado de exemplos de educação ativa e da educação pela conexão, ambas correntes absolutamente não-violentas. E absolutamente eficazes (sou testemunha, sou aluna do Michelsohn, sou leitora de Rebeca Wild, da educação ativa, e de Patty Wipfler, da educação pela conexão). Aqui um post dele essencial sobre o tema. Mas todos são ótimos, pois ajudam a entender a educação sob outro prisma, que não o da dominação-poder-controle. Michelsohn dá aulas sobre conexão entre pais e filhos. Haverá novas turmas, basta dar uma olhada no blog dele.

c) falando em Patty Wipfler, ela coordena uma instituição nos EUA, a Hand in Hand Parenting, que dissemina muita informação sobre educação pela conexão, educação respeitosa e não violenta. Os cursos e livros são, naturalmente, pagos. Mas há conteúdo grátis para se ter uma ideia do tipo de perspectiva educativa.

d) outro ótimo blog para se entender a natureza das crianças e das relações saudáveis que podemos estabelecer com elas –e que também dá muitas ideias e subsídio para quem assume uma educação não-violenta– é este aqui, o “Lar Montessori”, escrito por Gabriel Salomão, professor montessoriano e ex-aluno de colégio que aplicava o método desenvolvido pela médica italiana Maria Montessori. Aqui também a “palmada” é cientificamente rechaçada. Montessori, há quase 100 anos, já sabia que, além de eticamente questionável, bater é ineficaz.

e) há também a criação por apego, que prega respeito na relação com o filho, inclusive na hora de se colocar limites. Aqui um blog ótimo, do Thiago Queiroz, o Paizinho, Vírgula!, sobre o tema.

f) além dos blogs, há os livros. Sim, educar dá trabalho e exige empenho, aprendizado, entrega, como tudo o que realmente vale a pena nessa vida. Eu começaria (como de fato comecei) pelo “Besame Mucho“, do Carlos González. Tem o “Unconditional Parenting“, do Alfie Kohn. E “Etapas del Desarrollo“, da Rebeca Wild. Recomendo “A maternidade e o encontro com a própria sombra” e “O poder do discurso materno“, ambos da Laura Gutman. E ainda “Mente Absorvente” e “A Criança“, da Montessori, além do já citado “Educar sem violência“, da Lígia e da Andréia.

g) finalmente, mas não menos importante: vídeos da Ana Thomaz acho essenciais nessa jornada. Já cansei de recomendá-los aqui. Mas valem cada segundo. Começaria por esse aqui, depois iria pra esse e pra esse outro aqui.

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PS: leia também a “Lei da Palmada”. Aqui ó.

PS2:  Para quem diz que “quem cuida do meu filho sou eu”, seguinte: ok, cuidar você pode. Melhor: cuidar você deve. O que não pode é bater. Entendeu?

Se violência é educação, posso bater em você também? Porque, segundo meus parâmetros, pai que bate em criança precisa aprender muita coisa.

PS3: a imagem lindíssima que ilustra/complementa o post é do artista e ilustrador argentino Guillermo Decurgez, o Decur. Ele tem um perfil artístico no feissy, este blog e uma loja bacana no Etsy.

 

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conversa comigo, mamãe

Daí que o pequeno tem ficado meio irritado com a presença da minha mãe, mesmo nas poucas vezes em que encontramos com ela. Hoje à tarde, por exemplo, tomando um café, deu pitis homéricos por motivos que normalmente não o tirariam do sério daquele jeito. Comecei a reparar, não só de hoje, que ele parecia ficar incomodado com a atenção que eu dava às outras pessoas. Um indício: hoje, num dos momentos mais tensos, quando ele estava se acalmando, retomei assunto que tinha interrompido com minha mãe; imediatamente ele começou a chorar de novo e me disse: “não conversa com a vovó, conversa com o Enzo, mamãe!”

Resolvi falar com ele sobre isso. À noite, em casa, depois do banho, estávamos deitados no sofá brincando e vendo um dos desenhos prediletos dele, só esperando a hora de tomar o leitinho e ir pra cama. Achei um bom momento e comecei o diálogo:

–Por que você não gostou quando a mamãe conversou com a vovó à tarde?

–Porque é ruim.

–E por que é ruim?

–Por que não é bom.

{Ah, a simplicidade e a lógica das crianças… Fofo!}

—E por que não é bom?

–Porque Enzo sente falta.

–De quê? De conversar com a mamãe?, “chutei”.

–É, de conversar com a mamãe.

Pronto. Chegamos ao que realmente estava incomodando. Não era a colher de plástico que quebrou ou o suco que ele queria/não queria tomar. A “birra” não era nem com a avó. Enzo não estava fazendo “manha” (como muitos me disseram). Estava, na verdade, ressentindo a perda da atenção. Estava avisando, a seu modo, que sentia-se excluído naquele grupo que se formou, em que muitos adultos falavam, por muito tempo, coisas de adultos sem inclui-lo na conversa.

{Natural, não? Se alguns amigos se reúnem e a conversa fica restrita a apenas parte deles, os excluídos se ressentem. Em geral, com adultos, tentamos nem deixar as coisas chegarem a esse ponto. Já com as crianças… E depois ainda dizemos que elas é que são “não-civilizadas” por gritar no meio de um restaurante, por chorar “à toa”. Depois ainda brigamos com elas porque choram, gritam, esperneiam sobre a nossa óbvia falta de educação e civilidade.}

Sigo cada vez mais convencida de que manha não existe. O que existe são crianças aprendendo a lidar com sentimentos fortes e contraditórios, aprendendo a conviver com eles, aprendendo a expressá-los. E o que existe são adultos dispostos a ajudar ou a atrapalhar os pequenos nessa jornada.

Pedi desculpas ao Enzo pelo meu descuido, prometi que vou procurar não fazer mais isso, expliquei a ele que vejo pouco a vovó e que, quando isso acontece, são tantos assuntos pra por em dia que realmente falamos muito; reforcei, com ênfase, que gosto de conversar com ele e da companhia dele.

Ele sorriu, me abraçou, repetiu parte do que expliquei (como sempre faz), pulou no colo do papai, agradou a gata e pediu tetê “puquê Enzo qué dumi”.

Silenciosamente, agradeci meu filho pela paciência e por nunca desistir de me ensinar coisas, de me querer, de me chamar, de me mostrar o que significa respeito. Agradeci também Carlos González por ter me ensinado que uma criança merece tanto respeito quanto um adulto e muito mais cuidado do que um (óbvio, não?). E ainda a Laura Gutman porque foi ela que me mostrou que é preciso conversar com as crianças, sinceramente e sempre, não importa quantos anos elas tenham. Sempre vão entender um coração sincero, uma conversa sincera e sempre se farão entender se o ouvinte também tiver um coração aberto a isso.

As crianças são geniais!

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“vai ser cada vez mais interessante viver neste planeta”

“Conheci” a Laura Uplinger no trailer do documentário “O Renascimento do Parto“. Mas ainda não sabia bem quem era. Pesquisei um pouco mais depois de receber uma indicação de uma amiga. Cheguei à página dela e me encantei com o trabalho que desenvolve e com as reflexões que propõe.

Daí achei esse vídeo –que é só um trailer– e resolvi compartilhar:

Resolvi compartilhar porque me provocou muitas reflexões e trouxe uma série de informações novas. E também porque deu uma acordada em ideias que estavam meio adormecidas por aqui, desde os tempos em que li González e Gutman pela primeira vez.

Faz tempo que tenho pensado sobre o tipo de sociedade que somos, especialmente no que diz respeito à acolhida (ou não) que damos à infância, reflexão constante da Uplinger. Do parto cesáreo agendado às escolinhas, babás, mil e tantas aulas, mil e tantos compromissos. Se não respeitamos nem o tempo das crianças, pra mim é óbvio que não as respeitamos como crianças.

No vídeo, Laura diz uma coisa que eu não tinha percebido: desde muito tempo, sempre que uma mulher teve dinheiro, delegou a terceiros os cuidados com os filhos. Mas isso está mudando, e talvez sejamos a primeira geração de mães para quem a maternidade ganhou a importância que realmente merece. Como já me disse uma vez a Mari Zanotto, não há nada mais político nessa vida que educar cria. E é disso que se trata esse vídeo da Laura. Vale a pena.

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quem tem um olho é rei

[“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade” ]

Laura Gutman

Que nome você daria a uma situação em que uma pessoa usasse a força para submeter outras à vontade dela? E que nome você daria à mesma cena caso a primeira pessoa usasse não a força física, mas a manipulação psicológica? Eu chamaria de violência. Tanto quanto eu chamaria de violência um assalto, um sequestro, um tapa na cara, uma agressão qualquer.

E me espanto muito quando poucas pessoas acham violentos os nascimentos hoje em dia. Vou explicar. Li esse post da Anne Rammi e, coincidentemente, uma pessoa muito querida passou por situação semelhante a uma das narradas no texto dela: informações pela metade e omissão de informações que culminaram numa cesárea desnecessária (como são a imensa maioria das cesáreas).

Fico aqui pensando com meus botões: o corpo que vai parir é da parturiente; a carne que vai ser cortada é dela também; a cirurgia vai agredir o útero da grávida; é o filho dela que vai retirado do ventre à força, com violência (sim, sim, nascer sem TP é, em geral, uma violência para o bebê); é o filho dela que não vai poder usufruir do cordão umbilical até que pare de pulsar; é esse recém-nascido que não vai poder ser afagado pela mãe nas primeiras horas, que não vai começar a mamar quando seu impulso de sucção é maior, que poderá ter sua amamentação prejudicada…

Essa mulher não tem o direito de decidir o que quer fazer de seu corpo e que tipo de parto deseja dar ao filho? Ser cortada, manipulada, exposta a uma cirurgia não deveria ser uma decisão de quem vai sofrer esse procedimento? Minha vontade sobre meu próprio corpo não deveria ser soberana?

Como fazer tudo isso se sonegam informações? Se alguém mente e diz que a única saída é uma cesárea, e aí a parturiente consente com a cesárea, esse consentimento é válido? Ela consentiu mesmo? Ou foi manipulada  e enganada para consentir?

Como decidir sofrendo uma pressão psicológica desde antes de engravidar? Como optar por um parto normal com a segurança necessária se médicos, mídia e senso comum fazem de conta o tempo todo (com má fé ou não) que PN é mais inseguro que uma cesárea, que parto em casa é mais arriscado que parto hospitalar? Como não ter medo de parir e acabar, por isso, recorrendo a uma cirurgia, aceitando a cirurgia e naturalizando a cirurgia como se ela fosse a via usual, adequada, própria para o nascimento?

O que fazer se os médicos partem do pressuposto de que um bebê precisa nascer antes da 40ª semana quando, na própria literatura médica, nada comprova esse “procedimento padrão”, dito pelos próprios médicos? Na teoria, todo mundo sabe –e ouve dos GOs– que a gestação normal numa humana vai de 38 a 42 semanas. Quem espera chegar à 42ª? Por que não? Quem foi que convencionou um limite de 40 semanas? E mais importante: por quê?

Colo fechado, quadril estreito, pouca dilatação, bebê grande demais, bebê “velho” demais, placenta “velha”, cordão enrolado no pescoço… Quantos argumentos curtos e grossos são dados às pressas para convencer mães a evitarem o PN sem que ao menos os médicos se deem ao trabalho de explicar o que esse monte de coisa quer dizer? Não podem explicar o inexplicável? Não podem dizer que, salvo raríssimas exceções, todas as mulheres dilatam, por exemplo? Não podem dizer que, na verdade, o problema com a sua dilatação é que ela não está acontecendo no tempo que o médico quer e que é mais lucrativo pro hospital?

Eu sigo tendo certeza de que manipular alguém para submeter o corpo desse alguém à vontade de outrem é nada mais que violência. E é uma violência dissimulada, travestida de “milagre da medicina”. Se as cesáreas –muito válidas e necessárias para salvar vidas quando prescritas adequadamente– fossem mesmo necessárias na proporção que são usadas hoje nos hospitais particulares, então estaríamos admitindo que mais de 80% das grávidas estariam mortas não fosse a cirurgia, que mais de 80% das parturientes chegaram à maternidade correndo risco, a despeito de terem acesso ao pré-natal mais eficiente ever. Estranho, não?

Não quero dizer que quem pariu de PN é melhor que quem pariu via cesárea. Pelamor, mulherada, vamos superar essa coisa de mais e menos; melhor ou pior, ok? Quero dizer só o que disse: estamos sofrendo violência e nem nos damos conta. Sequestraram um dos últimos bastiões da liberdade e da sexualidade livre da mulher, que era o parto; um dos poucos espaços onde a patrulha machista (feminina ou masculina) não se metia. Lá ninguém julgava, não dava palpites, não dizia que era “feio”, “pecado”, “proibido”. Não era preciso refrear emoções, era permitido gritar feito bicho, bater, ficar de cócoras, sangrar, gemer, uivar. E tudo era permitido.

Era.

Porque agora podemos ser “higiênicas”, “limpas”, “rápidas”, “quietinhas”, “passivas”. A passividade, tão valorizada como “característica” feminina, chegou ao parto. Basta tomarmos uma anestesia, alguém nos amarra as mãos e participamos tão ativamente do nosso parto quanto querem que participemos: nada.

Vamos ficar quietas até quando? 

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De onde saiu isso? Daqui, daqui, daqui e daqui. E, claro, daqui e daqui. Recomenda as leituras. A mulherada da madresfera finalmente está tirando as garras pra fora, no ótimo sentido. Rumo ao maternismo.

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laura gutman: só lendo

Comecei a ler a Laura Gutman. Quem é mãe blogueira e frequentadora assídua da madresfera sabe bem de quem estou falando.Para quem ainda não sabe, Laura Gutman é uma psicóloga argentina, especializada em amamentação e no atendimento a crianças e casais. “Militante” da criação por apego, é fundadora da Escola Capacitação Crianza, onde atende mães e bebês e promove cursos para profissionais da saúde e doulas.

Laura escreveu o que acho que seja o mais importante livro sobre maternidade da nossa geração,  “A maternidade e o encontro com a própria sombra“,  justamente o que estou lendo agora, numa “sentada” só (impossível parar de ler!). Entre (muitas) outras coisas, ela mostra de que forma emoções que consideramos “ruins” e que pretendemos não reconhecer (a nossa “sombra”) se refletem nos nossos filhos.

Ela fala de gravidez, de parto, de amamentação, de comportamentos e doenças infantis, do papel dos homens, do prazer das crianças (e da nossa reação a ele), de limites e comunicação, de sono, de violência. E escreve sobre tudo isso com uma profundidade que eu não tinha encontrado antes em nenhum  “especialista”  que ousei ler.

A leitura de  “Maternidade”  é, ao mesmo tempo, prazerosa e dolorida. Gutman afaga e acolhe na medida em que nos ajuda a reconhecer que muitas das nossas falhas são “explicáveis”por um sistema de coisas que é alheio à nossa vontade; mostra que a maioria das nossas inclinações maternas –aquilo que a gente tem vontade genuína de fazer de bom pros filhos, mas que a sociedade recrimina–são heranças femininas que carregamos conosco há milênios e que, em última análise (como já disse Carlos González), permitiram a sobrevivência da espécie humana por essas bandas.

Mas também é soco no estômago porque nos força a reconhecer que a parte de nós que nos esforçamos tanto para esconder nossos filhos trazem à luz. É difícil engolir que, de repente, aquela atitude que tanto irrita na criança é apenas RESPONSABILIDADE sua ou a manifestação externa, no bebê, de um conflito SEU.

Também pode ser complicado para algumas mães refletir sobre a maternidade que praticam. Gutman, assim como González, adota o ponto de vista do bebê. Ou seja, não se preocupa muito em passar a mão na cabeça das mães. Ao contrário, aponta como funciona a psiquê dos pequenos, a “fusão” com a mãe nos dois primeiros anos de vida, a “exterogestação”, que dura os primeiros nove meses, e a consequente importância que a figura materna tem na formação da personalidade das crianças. Sem medo de cutucar as mães, ela mostra o IDEAL de maternidade para a CRIANÇA (não para a mãe, nem para o marido, tampouco para o mercado de trabalho).

Enfim, muito mais do que um manual do tipo “faça isso, não faça aquilo”, o livro é uma espécie de “reflexão guiada” sobre si mesma e sobre o universo da formação da personalidade dos bebês. É profundo e libertador.

Mesmo ainda na metade, recomendo. Ainda ruminando o que tenho lido, separei algumas frases para compartilhar por aqui:

“O selvagem torna todas as mulheres saudáveis. Sem o lado selvagem, a psicologia feminina fica desprovida de sentido”.

“O mundo seria outro se as salas de parto fossem menos silenciosas, se no início da relação entre os seres humanos houvesse espaço para as emoções, se a desumanização não abrangesse as áreas da boa vinda ao mundo”.

“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade”.

“Talvez este [o parto] seja o espaço mais sutil encontrado por toda a sociedade para se permitir exercer o controle, os maus-tratos e o ódio sobre o poder infinito das mulheres que estão parindo”.

“Quando [o bebê] mama com mais frequência, isso não acontece, necessariamente, pelo fato de o leite não ser suficiente. Pelo contrário, é porque é um bebê ativo, conectado e feliz”.

“Um bebê se constitui um ser humano na medida em que está em total comunicação com o outro, de preferência a mãe. (…) o tempo todo de colo, calor, abrigo, movimento, ritmo”.

“A possibilidade de sugar, ingerir e satisfazer a fome deveria estar disponível cada vez que o bebê pedisse”.

“Deveríamos refletir sobre o poder que exercemos sobre elas [as crianças], na posição de adultos, dizendo arbitrariamente quando é justo oferecer alimento e quando isso não é adequado ou merecido”.

“A alma não registra o tempo”.

“Somos uma sociedade extremamente violenta com nossas crias. Insistimos em não atender as queixas dos bebês, que dependem exclusivamente do cuidado dos adultos”.

Esse são só alguns exemplos, o livro é repleto de ideias complexas, que precisamos “marinar”  com calma. Para quem se interessou, também recomendo um vídeo que as meninas do Mamatraca fizeram para registrar a palestra da Gutman no Brasil. Elas editaram as melhores partes do seminário, que podem ser conferidas aqui ó.

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