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mais licença, menos creches

“É preciso uma aldeia para criar uma criança”

provérbio africano

Então a questão carreira x maternidade tem aparecido com força nas minhas relações novamente, seja nas mesas de bar, seja nos meus estudos/inquietações filosóficas, seja nas minhas avaliações sobre convicções pessoais, nos blogs que leio e nas redes sociais. Já abordei o tema várias vezes (aqui, por exemplo; mas também aqui e aqui) e entre ontem e hoje participei de um bate-papo virtual sobre o tema (e outras coisinhas) com algumas queridas no facebook.

Daí encontro esse vídeo, do pediatra José Martins Filho, sobre a importância do vínculo, dos cuidados e do afeto no início da vida da criança, principalmente no período que compreende a gestação e vai até os dois ou três anos.

E, entre muitos pontos essenciais, ele toca no assunto da licença maternidade de fato, não essa aí que temos hoje, que, cá entre nós, não serve para muita coisa. É precisamente a licença maternidade –e outros arranjos trabalhistas que possibilitem à mãe cuidar dos filhos e trabalhar ao mesmo tempo— o que precisa ser colocado em questão quando se fala em carreira (*) x maternidade.

Já contei que, para mim, não existe esse negócio de carreira versus maternidade. O versus entrou na equação apenas porque nossa sociedade (da qual fazemos parte, vale lembrar) não está nem aí para mulheres e crianças (assim como para muitos outros grupos), sejamos sinceros. As necessidades consideradas exclusivamente femininas e as necessidades consideradas exclusivamente infantis são ignoradas solenemente.

[Parêntese: estou falando em maternidade, necessidades femininas, mas não quero excluir a paternidade e os homens da equação. Uso esses termos por duas razões, basicamente: 1) as mulheres ainda são as que assumem a maior parte da responsabilidade na criação dos filhos; ainda é dela que se cobra deixar a carreira para ficar com os filhos ou vice-versa; ainda é a mulher que se coloca em questão em relação à carreira quando vira mãe. 2) algumas funções biológicas só mesmo a mãe pode cumprir (ou cumprir bem), como parir e amamentar. Mas acho os pais fundamentais, acho que há espaço para eles atuarem muito mais e volto a isso daqui a pouco.]

Então, na prática, expomos mulheres à situação dolorosa (torturante, eu diria) e absurda (sob todos os pontos de vista, mas especialmente sob o biológico, orgânico, natural) de ter de escolher entre se sustentar ou ficar com os filhos; de ter de deixar seus filhos muito pequenos com estranhos enquanto se remoem nas firmas para pagar as contas no fim do mês; de ter de se humilhar (como se tivesse pedindo favor) e aceitar pressões psicológicas e até financeiras (ganhar menos do que um colega homem, por exemplo) porque precisa ajustar alguns horários a necessidades do filho (amamentação, saídas para pediatras etc); de ter de abandonar qualquer possibilidade de trabalho remunerado e depender inteiramente de outra pessoa.

É um absurdo obrigar uma mãe a voltar ao trabalho com quatro meses de parida. Assim como é um absurdo obrigá-la a não voltar ao trabalho.

Isso sem falar do ponto de vista da criança, que o vídeo do José Martins aborda bem.

O que mais me incomoda nisso tudo é o pressuposto. Quando discutimos a questão social e publicamente, circulamos (como disco riscado) apenas em dois pontos: creche e maternidade. Partimos, portanto, da ideia de que o ideal é oferecer mais vagas em creches, afastar as crianças de casa, deixá-las mesmo com estranhos e “liberar” a mãe para o trabalho. Uma intervenção cada vez mais precoce do mundo considerado masculino (competição, conquista, poder, obejetivo, busca), socialmente valorizado, no mundo considerado feminino (da conexão, do cuidado, das relações, do encontro), socialmente desvalorizado.  Fica claro porque isso acontece, certo? Se valorizamos mais o trabalho que as relações, o “melhor” é ter creches para as mães deixarem as crianças e cuidarem do que “importa”.

Segundo ponto que me incomoda é que a discussão raramente inclua os homens, os pais. Se fala em creches para as mães, em licença de seis meses para as mães e em mães que largam o trabalho na firma e empreendem, em apoio à mãe empreendedora etc.

Como eu comentei na conversa lá no facebook, para mim o foco está invertido nos dois casos: o dinheiro que o governo e (algumas poucas) empresas gastam com creches seria muito melhor empregado em licenças maternidade e paternidade decentes, um ano no mínimo, dois no ideal (a OMS recomenda amamentação por pelo menos dois anos, lembra?).

Os pais (homens) poderiam ter licenças de fato e assumir parte das tarefas e da troca de afeto com os filhos no dia a dia, liberando a mãe para o trabalho nesse período. E as crianças –com pais e mães ou pais ou mães por perto– cresceriam num ambiente bem mais adequado que numa escolinha abarrotada de crianças sendo “cuidadas” por três ou quatro cuidadoras.

Para mim, os pontos centrais do debate sobre carreira versus maternidade são justamente as licenças para quem trabalha em regime de oito horas diárias e o estímulo ao aumento de participação masculina na vida familiar, coisas que o José Martins cita no vídeo, e que não é comum de serem mencionadas, daí eu ter vindo aqui compartilhar.

Isso não resolve o “problema”, que é precisamente uma sociedade que desvaloriza o que há de mais importante, que é a vida, manifestada na criança e na mãe que a pariu. Uma sociedade que desrespeita crianças está fazendo alguma coisa muito errada. Sair fora da caixa é o caminho, o meu caminho. Cada vez mais eu vejo e entendo que posso criar a vida que quiser e que tanto faz como as empresas lidam com a maternidade, porque eu sei como eu vou lidar com a minha e cada pessoa pode lidar com a sua da forma que achar melhor. Mas como nem todo mundo pode –materialmente–ou quer fazer isso por conta própria, acho que a licença materpaterna decente já seria um bom começo, um passo na humanização e no reconhecimento real dos direitos das mães e das crianças.

(*) carreira aqui é mais sinônimo de trabalho remunerado e razoavelmente estável do que de construção de uma jornada profissional “ascendente” e “bem sucedida” no mundo corporativo

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Arquivado em Maternidade, paternidade, profissão, reflexões

dilema revisitado # 1: o dilema

Sabe o dilema por excelência de quem é mãe, a dúvida “carreira x maternidade”? Pois é, não passei por ele. Quando engravidei, já estava trabalhando em casa, frilando em home office, e decidi que manteria esse arranjo depois que Enzo nascesse. O objetivo, óbvio, era ficar perto do meu filho, suprir suas necessidades (de afeto e colim-di-mamãe inclusive), acompanhar seu desenvolvimento e evitar que ele fosse, bebezico, parar numa dessas escolinhas tipo “estacionamento” de bebê, sabe como?

Outra razão pela qual passei ao largo dessa dúvida é que nunca tive propriamente uma dúvida, uma opção. Não considero como hipótese viável parar de trabalhar. Primeiro porque não quero. Amo o que faço, ser jornalista é parte do que me define como pessoa, escolhi essa carreira aos 13 anos e, antes disso, aos 6, por mais precoce que pareça e guardadas as devidas proporções,  já sabia que trabalharia escrevendo. Ganhei uma máquina de escrever dos meus pais com 7 anos e, dias depois, já tinha escrito um “livro” e tentado vendê-lo ao jornaleiro da esquina.

Acho importante dar atenção integral ao Enzo, sei que ele precisa disso e que, especialmente nos dois primeiros anos de vida, o contato com os pais, a proximidade, a disponibilidade irrestrita e o afeto são essenciais para o desenvolvimento emocional sadio dos pequenos. Mas também sei que eu preciso estar emocionalmente saudável para criar um filho emocionalmente saudável. E é claro para mim que eu jamais conseguiria isso abdicando de algo que é essencial.

Segundo motivo pelo qual não é viável deixar de trabalhar: a grana, óbvio. 1) O equilíbrio do nosso orçamento doméstico depende do que eu recebo frilando; 2) Não acho justo com o Dri que pese apenas sobre as costas dele o ônus de botar dinheiro em casa. É pressão demais, responsa demais. Aqui em casa, somamos forças, não dividimos; 3) Não gosto da ideia de depender financeiramente de ninguém, nem por algum tempo nem como opção para a vida toda. Já vivenciei histórias demais de mulheres que, por uma ou outra razão, acabaram abdicando do seu meio de sobrevivência e depois, anos mais tarde, ficaram literalmente sem nada, dependendo de “favores” de ex-maridos, filhos e quetais. Sei que há legislação, que essas mulheres tinham direitos, mas não foi bem assim que os parentes enxergaram a situação. Vi mulheres que trabalharam a vida inteira para dar a melhor assistência aos filhos serem chamadas de “preguiçosas” porque nunca “trabalharam”.

Não quero isso pra mim. Quero a liberdade de pagar minhas contas, de decidir meu destino, de pagar pelas minhas escolhas literalmente. E isso, feliz ou infelizmente, nesse mundo capitalista de meodeos, só quem tem verbas na conta bancária- ainda que minguadinhas como as minhas.

Tudo isso pra chegar ao ponto: se me safei do dilema lá no comecinho, estou vivendo o dilema hoje, com outra roupagem, disfarçadinho. Explico: meu arranjo home office deu certo por todo esse tempo porque Enzo era um bebezico. Conforme ele foi crescendo, a coisa foi complicando em termos de tempo livre para trabalhar. Contei em vários posts perrengues pelos quais passei recentemente para conseguir entregar matérias em dia. Uma coisa era trabalhar quando Enzo tinha semanas, meses, um semestre. Nessa fase, meu minimenininho praticamente dormia o dia todo -ou quase isso. Lembro que, aos 6 ou 7 meses, ele dava três cochiladas longas durante o dia, o que, na soma geral, me garantia aí quase seis horas livres para trabalhar.

Depois disso, como é natural, esperado e mega comemorado, as sonecas diurnas diminuíram, diminuíram até a configuração atual: cerca de duas horinhas de sono (um pouco mais às vezes, mas eu tenho tentado limitar para garantir um sono bacana e de qualidade durante a madrugada), o que significa que mamãe aqui consegue fazer pouco, muito pouco durante o dia.

Daí que rola: 1) mais trabalhos na madrugada; 2) mais estresse e correria; 3) impossibilidade de assumir mais frilas (necessários para manter minhas contas em dia).

Temos queimado as pestanas aqui em busca de soluções realmente viáveis e que nos deixem satisfeitos. Algumas alternativas, antes completamente descartadas, foram recolocadas na mesa. Uma delas seria contratar uma babá que ficasse com Enzo ao menos por meio período, especialmente na parte da tarde, que é quando eu tenho mais volume de trabalho, mais chance de fazer entrevistas etc. A outra seria colocar Enzo numa escolinha pelo menos em período semi-integral, o que me renderia aí cerca de cinco horas de trabalho diárias.

A babá me agrada porque, por essa solução, Enzo continua ficando o dia inteiro comigo, em casa, sob meus olhares e cuidados, à vontade, mantendo sua rotina de sempre e ganhando colinho de mãe quando quiser. Já a escolinha tem o ponto positivo de colocá-lo em contato com outras crianças (o que ele adora e do que sei que sente muita falta) e estimulá-lo mais. Enzo é curioso, inteligente, desbravador. Ficar em casa tem sido entediante para ele (tem post no forno sobre isso, mas não tenho dado conta de escrever tudo o que rascunho) e noto que qualquer novo ambiente e desafio o deixa absurdamente feliz (vou contar a experiência dele numa escolinha que visitamos no próximo post, prova disso que escrevi agora).

Por outros lados, confesso, não gosto da ideia de ter uma babá cuidando do Enzo. Acho que ele vai ficar com todo o lado negativo de não estar comigo o dia todo sem ganhar nada em troca (como ganharia na escolinha), pois, na prática, vai passar as tardes com uma estranha mas sem o lado bom de conviver com outras crianças e aprender, ser estimulado.

Mas tudo o que li sobre as escolas, e especialmente as opiniões de especialistas que respeito muito, como a do Dr. José Martins, que responde perguntas de leitoras no blog da Paloma Varón, sugere que se espere pelo menos até a criança completar 2 anos. Há quem recomende aguardar um pouquinho mais, até os 3. Ou, ainda, caso as crianças convivam com outras crianças em casa, colocar na escola só dos 4 em diante. E eu concordo com isso, acho que faz muito sentido e, mesmo que tenha gostado do que vi nas escolas que visitamos até agora (relatos no próximo post), acho cedo demais para colocar meu filho nelas.

E aí, como faz?

Por enquanto, como medida paliativa, Dri e eu sentamos com as nossas respectivas mães e pedimos, literalmente, socorro. Elas sempre ajudaram na medida do possível, e essa ajuda sempre foi muito bem vinda. Mas estamos precisando de mais. Minha sogra acha que não é mesmo hora de Enzo ir para a escolinha, de modo que está disposta a ajudar no que precisarmos.

Minha mãe compreende que, além de tudo, ainda temos o problema da grana: não sei como é em outras cidades, estado e países, mas por aqui as escolas são caras. Mesmo. Então, também topou vir duas vezes por semana, às tardes, ficar com Enzo.

Não é o ideal nem para mim nem para elas, que têm suas próprias vidas, outros compromissos e já criaram os próprios filhos. Mas é o que temos para o momento enquanto não decido se vamos de babá, de escolinha, se esperamos mais um pouco, como nos arranjaremos nesse caso etc.

Alguma sugestão?

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home + baby + office

A semana passada foi punk: um prazo apertadíssimo, uma matéria complicada sobre um assunto do qual eu entendia pouco, um calor horrível que deixava Enzito praticamente insone ao longo do dia (o que empacava demais o trabalho), dentinhos e mais dentinhos nascendo e incomodando pacas a cria (o que também empacava demais o trabalho). Resumo da ópera: dormi 12 horas em cinco dias, sendo que de quinta pra sexta, foram duas horinhas de sono apenas, das 6h às 8h da matina.

Trabalho em casa, sou repórter frilancer e já levava essa vida bem antes de engravidar. Deixei a redação no final de 2009, um ano e meio antes, portanto, de parir meu filho. E, confesso, foi providencial. Porque não imagino como seria minha relação com Enzo se, aos 4 meses dele, eu tivesse de voltar à rotina que eu tinha na redação: entrar às 10h para não ter hora pra sair, chegando em casa frequentemente depois das 23h. Eu mal veria meu filho, não teria condições de cuidar dele nas mínimas coisas (nem mesmo dar um banho), não acompanharia nada do seu desenvolvimento, seríamos quase estranhos a dividir a mesma casa. E um dia eu levaria um susto: “putz, você já fala?”

Logo que ele nasceu, no entanto, a rotina do “home office” mudou radicalmente, o que é natural e esperado. Eu já sabia que não conseguiria trabalhar no mesmo ritmo de antes. E fui me ajeitando, trabalhando nos intervalos das mamadas, trabalhando quando ele dormia, quando se distraía, quando umas das avós vinha visitar a gente ou à noite, depois que Dri chegava do trabalho. E deu certo. Mesmo no primeiro mês eu trabalhei, pois Enzo adiantou 15 dias e nasceu bem no meio da conclusão de uma matéria, de modo que na maternidade eu tive de fazer entrevistas e, em casa, segui apurando e escrevendo, contando muito com o marido, que estava de férias.

Dei por garantido o sucesso do trabalho em casa com filho.

Mas acontece que conforme Enzo cresce, mais e mais ele precisa de atenção, passa menos tempo dormindo, se distrai menos com bobagens e procura, cada vez mais, “emoções”: ficar sentadinho no sofá é pouco, mexer nos brinquedinhos de bebês é pouco; ele quer mesmo é escalar o armário, alcançar o lustre, abrir as portas das coisas, mastigar minha caneta, digitar no computador e atender o telefone. Resultado: cada vez menos tempo para eu efetivamente trabalhar.

Não que eu esteja reclamando. Esse arranjo é o melhor para nós, sigo tendo a certeza de que somos -Enzo e eu- privilegiados pela possibilidade de estarmos juntos o dia todo, de eu estar presente o dia todo, cuidando de tudo o que diz respeito a ele e, ainda assim, manter minha vida profissional razoavelmente em ordem.

Mas confesso que é preciso uma boa dose de esforça e boa vontade pra coisa andar. Estou tendo de reorganizar um monte de hábitos, por exemplo. E, com o teste da semana passada (sim, porque foi a primeira vez em que eu praticamente tive de trabalhar em ritmo de redação novamente desde que Enzo nasceu), aprendi um bocado de coisas, que podem ajudar quem pensa em optar por trabalhar em casa:

-Admitir que trabalhar em casa com um bebê pequeno é viver muito mais o home que o office: isso é importante para o planejamento, para ter ideia de quantas horas de fato sobram livres para me dedicar ao “office”. Mas, mais que isso, é essencial para diminuir a ansiedade e a cobrança. Quando se tem um prazo, um trabalho para entregar, alguma coisa para fazer, é complicado ficar passeando pela casa com o bebê sem se cobrar, sem pensar um “que-que-eu-tô-fazendo-meodeos”. E isso não ajuda nada, pois nem bem eu me dedico ao Enzo, nem bem me dedico ao trampo. Menos cobranças, pois, e melhor medida do tempo. O que me leva ao segundo aprendizado:

-O expediente não é mais o mesmo: antes, quando eu pensava em “x” dias para o fim do prazo, tinha uma ideia de quanto isso me renderia de trabalho, ainda que não precisasse fazer a conta em horas. Só que trabalhar com esse timing na cabeça é perder o prazo na certa, pois, na prática, a gente trabalha bem menos do que gostaria/deveria por dia, especialmente conforme os filhos crescem. A verdade é que, no sistema “home office”, o trabalho vira o lazer, sabe como? Você acaba cumprindo seus deveres nos INTERVALOS entre o almoço da cria e a mamadeira, entre trocar a milésima fralda e dar uma volta com o bebê no sol, entre entreter o bebê com uma tampa de panela e tentar embalá-lo pro próximo soninho. Além disso, estou tendo de me acostumar: trabalhar à noite ou na madrugada virou meu segundo nome.

-Foco, foco, foco: já disse que sou caótica? Pois é, sou caótica. E isso significa uma tendência a fazer zentas coisas ao mesmo tempo. Mas estou tendo de me curvar a esse tal foco, essa palavrinha amanda pelos autores de autoajuda, que eu tanto criticava. Porque é imprescindível aproveitar o (pouco) tempo livre para o trabalho apenas trabalhando. Daí que não leio mais jornal online, não tuito durante o dia (às vezes, no horário do almoço, mas bem às vezes), não navego na internet, nada. E é essencial que se esteja com o dia todo planejado para não se perder tempo de trabalho organizando ou decidindo, na hora, o que fazer.

-Pensar hoje o que se pode fazer amanhã: não dou o dia por encerrado antes de colocar na agenda direitinho o que terei de fazer no dia seguinte. É bom para ter um roteiro a seguir e, na hora em que baby dorme, ir direto ao ponto. E também ajuda a não botar coisas demais na agenda que não serão cumpridas. Comecei a planejar a semana, ao invés de só o dia, coisa que NUNCA fiz antes. Mas é importante para ver se  prazo será ou não factível.

-Não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje: procrastinação, essa coisa delícia da vida, na qual, confesso, era viciada, virou história. E esse conselho de pai, essa coisa chatinha de fazer tudo na hora, virou mantra. Se alguma coisa que eu deveria ter feito ontem sobrar pra hoje, putz, complica e muito a vida.

-Mães à mão: para quem tem esse privilégio, é sempre bom deixar as nossas mães de sobreaviso. Às vezes, não tão raramente quanto eu gostaria, é necessário pedir uma ajuda, nem que seja coisa de duas horinhas. Minha sogra mora longe, minha mãe trabalha, de modo que não é tão simples assim contar com elas, mas eu já precisei diversas vezes, e a ajuda delas foi essencial, inclusive, na semana passada. Para quem não tem parentes por perto e com disponibilidade de tempo, sugiro uma babá daquelas que cobram por hora e geralmente cobrem folga. Não é fácil de achar, a gente não tem tradição em baby sitter , mas é bom ter alguém de confiança na manga, pro caso das coisas não saírem como o esperado.

-Disciplina: não ia falar dela de novo. Odeio essa coisa autoajuda de “discipline-se”. Mas acontece que, na prática, ela é um pressuposto. Trabalhar em casa é depender 110% de si próprio e de suas escolhas em relação ao seu tempo. A tentação é grande, ainda mais com um bebezico fofo querendo abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. E com uma rotina de mãe tão extenuante, fica fácil querer deixar pra lá alguma alguma tarefa que parece desimportante, mas que, no fim das contas, vai fazer falta.

Tem outras coisas úteis, que eu recomendo ter/checar/ponderar:

-Tecnologia: computador que funcione, internet que funcione, telefone que funcione. Se alguma dessas coisas der pau, não tem “mocinho da tecnologia” para resolver em cinco minutos e botar na conta da firma.

-Acessórios: para quem, como eu, precisa do telefone o dia todo, vale a pena pensar em comprar aqueles head sets de telefonistas, que deixam as mãos livres. Fios longos também ajudam, pois é preciso se movimentar muito, às vezes com bebê no colo, às vezes indo atrás do bebê. Notebook e internet sem fio dão mobilidade. Úteis, pois.

ABRE PARÊNTESE: Licença-maternidade decente já e licença-paternidade decente já. É assunto pra um outro post, que prometo pra breve, mas sempre gosto de lembrar que a imensa maioria das mães e dos pais não têm esse privilégio de optar por trabalhar em casa. Acho que temos -pais e mães- de pensar nisso coletivamente, não apenas nos arranjos possíveis pra nós, mas em como alcançar arranjos melhores para a maioria. E isso passa não apenas pelas licenças (4 meses é pouco, 5 dias é nada), mas por condições de trabalho adequadas, por creches nas firmas, por creches públicas decentes, por programas de trabalho especiais para pais e mães, por trabalho meio-período para pais e mães e pela extensão de benefícios a pais, de modo a diminuir preconceito contra mulheres em idade fértil e colaborar para equiparar nossos salários, uma vez que ainda ganhamos  menos que os meninos em igual cargo (entre 30% e 40% menos, dependendo da fonte). FECHA PARÊNTESE.

Por outro lado, ficar em casa pode parecer A maravilha das maravilhas, mas não é. Tem prós que pesam muito, como acompanhar o filho, especialmente nessa fase de bebê, em que os pais são essenciais até pra formação emocional saudável. É bacana também, por exemplo, poder sair pra dar uma volta com Enzo numa tarde de sol, quando as coisas estão tranquilas. Mas faz falta se arrumar pra trabalhar, encontrar gente, falar com gente, aquele tempinho gostoso lendo no metrô, conversas no cafezinho, sair pra beber umas depois do expediente, resolver as coisas com os chefes olho no olho (e-mail/telefone sucks), reunião de pauta olho no olho, olho no olho, enfim. Eu pesei bem tudo isso e fiz uma escolha que acho consciente, o que diminui a pressão da frustração, que acaba aparecendo aqui e ali.

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