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o tapinha não só dói como se reproduz

decur

Algumas considerações minhas sobre a aprovação da “Lei da Palmada”:

1) Não há interferência indevida do Estado na vida familiar, privada, particular. O Estado tem o dever de proteger a vida das pessoas e é precisamente isso que está fazendo agora. O corpo do outro é do outro, não pertence a ninguém além do outro. Não é porque o outro calhou de ser seu filho que o corpo dele virou “privado”. O corpo de uma pessoa é inviolável; ninguém pode bater em ninguém. Ninguém pode bater em criança; criança também é alguém, seu corpo também é inviolável. Óbvio. Seja um “tapinha”, um soco, um chute, um tacape na cabeça.

2) O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) já previa proteção para casos mais graves de agressão física. Mas não dizia nada sobre o famigerado “tapinha educativo”. A mudança que a “Lei da Palmada” realiza é justamente nesse ponto. Dá nome certo à violência do tapa na cara, do beliscão, do grito, da humilhação: violência e ponto. Mas, ao contrário do que muita gente tem dito, uma mãe que deu uma “palmada” no filho não será presa. A ideia da lei não é mandar pais e mães pra cadeia, minha gente (apesar do raciocínio binário de muitos pais violentos não dar conta de uma ação educativa que não seja punitiva). Nomeando a violência e a inscrevendo no ECA, na lei, o objetivo é conscientizar os pais que ainda não entenderam que há formas não-violentas de educar e que são essas as que melhor criam condições para uma sociedade mais justa e menos violenta (que, em tese, todos queremos). Melhor dizendo:

3)  há formas não-violentas de educar. “Tapinha educativo” não ensina absolutamente nada, exceto se o cuidador em questão quiser ensinar violência (praticar ou submeter-se a). Um exemplo bem basiquinho: imagine que tem lá uma criança fazendo qualquer coisa que o cuidador considere errada. Daí o cuidador dá uns gritos, lá de longe, mandando a criança parar. Como o poder é impotente, e a criança é potência pura, a criança OBVIAMENTE não para. Aí o cuidador vai lá e dá um tapa na criança. Vamos considerar que se pretendesse evitar que a criança se machucasse. Com o tapa, será que a criança aprendeu que o comportamento mais seguro seria não mexer naquele determinado objeto? Não, né? Porque tudo o que o adulto fez para ajudar a criança a compreender o perigo ou os limites seguros para se agir foi… nada!

4) Ainda que “tapinha” fosse mesmo educativo, que “funcionasse” instrumentalmente em algum nível, há coisas que não se faz por princípio, sabe? Porque a gente se pretende civilizados, inteligentes. A gente se pretende de alguma forma uma sociedade que usa razão, empatia, que convive e que abre mão conscientemente do uso da violência em função de uma convivência baseada em sentimentos mais “elevados” ou, dito de outra forma, com menos potencial lesivo. É como a tortura, entende?; ainda que “funcione” (e nem estou dizendo que funciona), não dá pra apoiar, aceitar, legitimar. Bater em criança está fora de questão.

5) Violência é SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE a perda de controle de quem violenta. Não é nada além disso. Não é educação, não é amor, não é nada. É só perda de controle. É só o uso de vantagens física e emocional, relativas ao poder, para controlar o comportamento de alguém pelo medo e pela dor ao invés de o indivíduo que violenta sentir ele próprio a dor que lhe compete. O comportamento do outro gera no sujeito agressivo uma sensação que ele não suporta. Não suportando, ele vai lá e agride. Perda de controle sobre si mesmo.

6) A responsabilidade pelo que se sente é sempre de quem sente. O que significa dizer que se a mãe se encoleriza com um comportamento do filho, a responsabilidade pela cólera é absolutamente da mãe. JAMAIS do filho. A mãe tem de olhar pra si mesma e entender as razões pelas quais sente-se dessa forma. Educar, colocar limites, enfrentar conflitos e lidar com as diversas demandas dos filhos não deveria causar raiva. Se causa, tem alguma coisa erra aí –com o cuidador– que precisa ser investigada –pelo cuidador. Bater no filho pra passar a raiva não vai resolver nada (além de ser uma covardia em muitos aspectos).

7) Violência gera violência. A absoluta falta de destreza para lidar com as próprias emoções a ponto de agredir alguém é algo que se aprende. Se aprende ao levar um tabefe. Se aprende ao ser humilhado. Se aprende ao ter a autoestima destroçada por pais violentos.

8) Adultos que defendem a palmada porque “apanharam e estão bem/sobreviveram/são educados etc (fill the blanks)”, poderiam refletir sobre a Síndrome de Estocolmo e sobre a adolescência, também conhecida como aquela fase da vida em que a gente começa a descobrir os próprios valores, interiorizar-se e aceitar que os pais não são perfeitos. É quando a gente amadurece o suficiente para aceitar que, mesmo amando os pais, mesmo valorizando tudo o que fizeram pela gente, eles erraram feio, erram feio e a gente não precisa fazer a mesma coisa, se essa coisa não serve mais. É preciso uma boa dose de maturidade para cortar esse cordão umbilical sutil com os pais e seguir a vida autônoma, sem dependências e sem demonização.

9) Adultos bacanas que apanharam não são bacanas porque apanharam, mas APESAR de terem apanhado.

10) Para aqueles que ainda não conhecem formas de realmente educar seus filhos sem o que o senso comum oferece como alternativa (agressões, ameaças, supernanny e castigos), mas se interessam por uma relação mais autêntica e respeitosa com os filhos, recomendo algumas leituras, começando por:

a) essa seleção aí abaixo de textos das cientistas Lígia Moreiras Sena e Andréia C. K. Mortensen (uma das administradoras da ótima comunidade Crescer sem violência):

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/02/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/11/postagem-coletiva-19-de-novembro-dia.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/04/como-o-mau-jornalismo-incentiva.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2014/03/dos-direitos-radicais-das-criancas.html

O blog da Lígia, o “Cientista que virou mãe“, aliás, é todo ele altamente recomendável. Lígia e Andréia acabaram de lançar um livro justamente sobre como –e por que– educar sem palmadas.

b) o blog “Conexão Pais e Filhos“, do Marcelo Michelsohn, é basicamente um amontoado de exemplos de educação ativa e da educação pela conexão, ambas correntes absolutamente não-violentas. E absolutamente eficazes (sou testemunha, sou aluna do Michelsohn, sou leitora de Rebeca Wild, da educação ativa, e de Patty Wipfler, da educação pela conexão). Aqui um post dele essencial sobre o tema. Mas todos são ótimos, pois ajudam a entender a educação sob outro prisma, que não o da dominação-poder-controle. Michelsohn dá aulas sobre conexão entre pais e filhos. Haverá novas turmas, basta dar uma olhada no blog dele.

c) falando em Patty Wipfler, ela coordena uma instituição nos EUA, a Hand in Hand Parenting, que dissemina muita informação sobre educação pela conexão, educação respeitosa e não violenta. Os cursos e livros são, naturalmente, pagos. Mas há conteúdo grátis para se ter uma ideia do tipo de perspectiva educativa.

d) outro ótimo blog para se entender a natureza das crianças e das relações saudáveis que podemos estabelecer com elas –e que também dá muitas ideias e subsídio para quem assume uma educação não-violenta– é este aqui, o “Lar Montessori”, escrito por Gabriel Salomão, professor montessoriano e ex-aluno de colégio que aplicava o método desenvolvido pela médica italiana Maria Montessori. Aqui também a “palmada” é cientificamente rechaçada. Montessori, há quase 100 anos, já sabia que, além de eticamente questionável, bater é ineficaz.

e) há também a criação por apego, que prega respeito na relação com o filho, inclusive na hora de se colocar limites. Aqui um blog ótimo, do Thiago Queiroz, o Paizinho, Vírgula!, sobre o tema.

f) além dos blogs, há os livros. Sim, educar dá trabalho e exige empenho, aprendizado, entrega, como tudo o que realmente vale a pena nessa vida. Eu começaria (como de fato comecei) pelo “Besame Mucho“, do Carlos González. Tem o “Unconditional Parenting“, do Alfie Kohn. E “Etapas del Desarrollo“, da Rebeca Wild. Recomendo “A maternidade e o encontro com a própria sombra” e “O poder do discurso materno“, ambos da Laura Gutman. E ainda “Mente Absorvente” e “A Criança“, da Montessori, além do já citado “Educar sem violência“, da Lígia e da Andréia.

g) finalmente, mas não menos importante: vídeos da Ana Thomaz acho essenciais nessa jornada. Já cansei de recomendá-los aqui. Mas valem cada segundo. Começaria por esse aqui, depois iria pra esse e pra esse outro aqui.

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PS: leia também a “Lei da Palmada”. Aqui ó.

PS2:  Para quem diz que “quem cuida do meu filho sou eu”, seguinte: ok, cuidar você pode. Melhor: cuidar você deve. O que não pode é bater. Entendeu?

Se violência é educação, posso bater em você também? Porque, segundo meus parâmetros, pai que bate em criança precisa aprender muita coisa.

PS3: a imagem lindíssima que ilustra/complementa o post é do artista e ilustrador argentino Guillermo Decurgez, o Decur. Ele tem um perfil artístico no feissy, este blog e uma loja bacana no Etsy.

 

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dos limites e do ócio

Discordo bastante do senso comum sobre limites. Não acho que o principal problema das crianças seja falta de limites. Ao contrário, a vida delas já é bastante limitada, bem mais do que foi na minha geração. O que falta, na verdade, é tempo (com os pais, para o ócio, para não fazer nada, para fazer de tudo um pouco, para brincar, para errar…) e espaço (físico-literal, mas também figurado. Não há espaço para a infância, que é experimental e errante por natureza, numa sociedade em que, de repente, tudo é “orientado para resultados”).

Daí que venho pensando bastante nisso e, hoje, boa surpresa, encontro esse texto aqui no MMqD. Direto ao ponto, bota os pingos nos “is”. Estamos criando pessoas ou um exército de futuros yuppies que vão falar 15 línguas, ter experiências internacionais, MBAs, conhecimento sobre vinho e gastronomia nanomolecular e, paradoxalmente, não farão a mínima ideia de quem são?

Recomendo a leitura.

E, aproveitando, vale ver esse vídeo aqui, do sempre ótimo Carlos González. Com muito bom humor, tiradas irônicas e algum deboche, ele fala o que precisa ser dito sobre limites. Está em espanhol, infelizmente sem legendas. Mas, no geral, dá pra entender bem. E vale a pena.

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reflexões sobre educação e limites depois de uma manhã no “play”

E daí que ainda estou tentando entender alguns códigos de conduta, digamos assim, dos “plays”, pracinhas e afins. Eu não tinha a menor ideia de como as crianças são violentas umas com as outras, especialmente com as pequenas, mais indefesas. E de como isso é super tolerado por mães, pais, babás e similares. Nem imaginava que, para os pais, as “pracinhas” não são locais para CURTIR os filhos, mas para se LIVRAR deles.

Explico minha surpresa: o que mais tenho visto é o seguinte arranjo: pai ou mãe com filho um pouquinho maior (3 pra cima), que já brinca sozinho, deixa a cria lá no meio da molecada, arranja um local confortável para sentar (longe ou perto, tanto faz), liga o note, o tablet, abre um livro, o jornal e ESQUECE que pariu a criatura que, nesse momento, já está lá no parquinho fazendo uma das seguintes coisas (ou ambas ao mesmo tempo):

a) importunando os menores, seja tentando roubar-lhes os brinquedos, seja tentando impedir-lhes de brincar, seja ameaçando bater mesmo; b) subindo ou descendo perigosamente de algum equipamento, arremessando alguma coisa violentamente e gritando loucamente: “mamãããããe, papaaaaai, olha o que eu consigo fazer”. E sendo ignorado, claro.

No feriado, com Enzo num SESC, tive de –literalmente– fugir sala de brincadeiras afora porque um tal de João resolveu que meu filho –e outros pequenos que ousaram ir brincar também– não poderia tocar nada que ele visse. Vê só: estávamos agachados no tapete de atividades, no nosso canto, brincando com duas almofadas de encaixar. O tal João chegou, olhou a gente de longe, veio em nossa direção. Achei que quisesse brincar, ofereci uma das almofadas. A reação dele: pegou as duas e começou a gritar: “é meu, é meu, é meu”. Saiu correndo.

Ok, deixei para lá, crianças nessa fase (pela qual deduzi que o João está passando) são assim mesmo, tudo é deles. V’ambora com Enzo até o outro canto, onde ele achou outros brinquedos. Eis que o mocinho “é meu, é meu” nos vê e corre para o nosso lado novamente, tentando levar embora o brinquedo pela segunda vez. Não deixei. Gentilmente, disse que estávamos brincando agora, que ele se juntasse a nós. Desistiu por um tempo, foi para longe.

Aí eis que ele viu Enzo escorregando. Veio na nossa direção novamente e tentou impedi-lo. Simples assim, entrando na frente, dizendo “não”. Abri espaço para ele passar, sugeri que ele passasse antes e logo, pois estávamos usando aquele brinquedo, ele entrou na frente, parou, não subia nem saia de lá. Suspendi Enzo no colo, pulei a “subida” no escorrega e desci Enzo, normalmente.

E aí procurei, com os olhos, a mãe do guri. Pohan, não vou pro “play” para ficar cuidando de filho dos outros. Nem para voltar à quarta série e ficar me acotovelando com crianças no parquinho, como se tivesse a idade deles. Quando Enzo “atravessa” a diversão de outras crianças, tenta brincar com o que já tem “dono” ou participar de brincadeiras nas quais não é bem vindo, sou eu mesma que intervenho e mostro a ele que as outras crianças têm limites. É meu papel inseri-lo em certas normas de convivência pacífica com os demais.

Mas cadê a mãe do tal João? Procurei, procurei e então achei uma mulher sentada, láááá longe, lendo o Estadão, sem nem levantar os olhos ocasionalmente para ver onde o filho estava. “Rá, aí está a mãe do João”, pensei. E era mesmo.

Ela só se comunicou com o filho ou interveio na brincadeira dele quando ele levou para o tapete de atividades um brinquedo particular (*). Claro que as outras crianças se interessaram, e o João perdeu a compostura. Se já gritava “é meu, é meu” para o que era de todos, imagine para o que era, de fato, dele. Depois do décimo grito e de  muita choradeira, lá do alto do seu “tô-nem-aí”, a mãe  do João berrou de volta: “brigando de novo, João?”. Por que será, né? E a moça só foi até onde estava o filho longos minutos depois para recolher o tal brinquedo. Seca, quase pisando nas outras crianças, mandou: “Me dá isso que eu vou guardar!”. Pegou, saiu, batendo os pés, sem nem olhar para trás. Sentou, reabriu o jornal e esqueceu do João.

Não é um caso isolado. Já vi acontecer outras vezes coisas parecidas, com Enzo ou com outras crianças menores que o “brincalhão” metido a violento. Parece que o barato da brincadeira não é brincar em si, mas impedir os mais “fracos” de se divertirem, mostrar “força”, “poder”. E o denominador comum desses casos todos são os pais aparentemente ausentes. Não posso falar como é a relação dessas crianças com seus pais em casa, mas nos ambientes coletivos asseguro que é uma lástima.

Pais que dão de ombros pros próprios filhos em pleno fim de semana, normalmente o único momento em que adultos ocupados têm, em tese, tempo de conviver com as crias. Mas esses mesmos adultos (serão adultos mesmo?) estão sempre mais ocupados com seus próprios umbigos, e a insatisfação e raiva das crianças sem atenção acabam sobrando para outros pais e crianças que não têm nada a ver com isso.

Já tive de ler histórias para uma menino cujo nome nem sei, mesmo seus pais estando a menos de dez passos de onde eu estava com Enzo. Eu lia para o meu filho, e o pequeno desconhecido ficava trazendo livrinhos para mim, não para os próprios pais, que viam tudo e continuavam sentados, impassíveis, diante do evidente interesse do filho. Depois de várias historinhas compartilhadas, o menino começou a implicar com Enzo, queria subir no meu colo (!!!), onde Enzo estava, claro, e aí a coisa toda ficou tão estranha que agradeci horrores quando vi que estava na hora de ir almoçar.

Confesso que não sei o que fazer nessas situações. Fico preocupada com a criança largada, que busca chamar a atenção importunando os demais. Mas fico mais preocupada é com o meu filho e com os outros bebês importunados. E também confesso que não consigo sentir muita empatia pelas mães/pais que largam seus filhos como se o parquinho, o play ou o que quer que seja fosse passe livre para se verem livres das responsabilidades maternas/paternas.

Sabe? Desinteresse é uma violência, né? Especialmente quando os desinteressados são os pais justamente pelos filhos, que precisam tanto da atenção deles para crescer e se desenvolver emocionalmente. Natural que os pequenos reproduzam a violência que sofrem (ainda que de outras formas) com os menores que eles.

Daí que todo mundo fala o tempo todo em limites. “As crianças precisam de limites”. “Eles são malcriados porque não têm limites”. “Falta castigos, falta pulso”. Blá blá blá whiskas sachet, o que falta mesmo, pelo menos aos “valentões” mirins que ando encontrando por aí, é um pouco mais de amor, de presença, de carinho, de interesse GENUÍNO. Só isso já ajudaria muito.

(*) Também continuo tentado entender porque uma mãe ou pai leva a um local coletivo brinquedos que o filho não quer compartilhar com outras crianças. Se seu rebento está naquela fase do “é tudo meu”, melhor manter os brinquedos dele em casa, não? Porque se ele aparecer com as coisas no “play”, é lógico que as outras crianças vão querer brincar também. Ou é difícil demais imaginar isso?

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não gosto de manha, a palavra

Não gosto da palavra manha. Não acredito nela, não uso. Meu problema com a palavra começa em seu pressuposto: o bebê só precisa de alguns tipos de cuidados. Portanto, se chorar querendo qualquer outra coisa, é “manha”, é um “choro sem motivo”.

No senso comum, em se tratando de bebês, manha equivale a manipulação, a chorar à toa com intenção de manipular os pais para obter deles algum benefício a que o bebê não tem direito -ou que não é “bom” para ele. Significa exagerar uma emoção com o objetivo deliberado de enganar mamãe e papai, sensibilizá-los a dar algo que não deveriam dar ou que simplesmente não dariam, pois não é necessário.

Não faz muito tempo, numa consulta com a pediatra do Enzo, levei uma bronca por “perder” muito tempo com Enzo e ficar à disposição dele o dia todo. Para eu saber se estava “exagerando” ou não nos cuidados, a dra. Ped me deu a seguinte receita: põe a cria em algum lugar seguro (carrinho, cercadinho, tapetinhos etc). Se chorar, faça um check list mental: ele está alimentado? Está limpo? Está com alguma dor ou incômodo? Se a resposta for “sim” para as duas primeiras e “não” para a última, então o choro é “manha”, ele não precisa de nada.

Aí eu pergunto:

1) Quem disse que o bebê só precisa de cuidados físicos? Quer dizer que se estiver de barriga cheia, limpo e sem dor o resto é frescura? Necessidades psicológicas, emocionais, curiosidade tudo isso é ignorável? É desejável que seja ignorado? Nem pode ser considerado uma necessidade?

O que leva à segunda pergunta.

2) Quem disse que só queremos -ou que só devemos querer- o estritamente necessário? O que não garante a nossa sobrevivência imediata é supérfluo e desejar isso é errado? E se fosse um adulto? É assim que funciona também? Só precisamos garantir alimentos, higiene e alívio pra enxaqueca? Todo o resto é dispensável? Amor? Carinho? Amigos? Uma cervejinha gelada? Um livro? Um disco? Querer essas coisas é frescura e manha?

Ou 0s adultos têm mais valor que os bebês? Podem querer mais coisas? Bebês não sentem? Não desejam? Não podem desejar sei-lá-o-quê? Só gente grande pode ter vontades esquisitas (tipo ficar milionário antes dos 30)?

O pior é que tachar os pequenos como manhosos a priori não quer dizer apenas que as crianças não têm direito a nada que não seja necessidade básica -e física ainda por cima. Quer dizer que elas não têm nem o direito de pedir por coisas que não sejam comida, bumbum limpo e, eventualmente, um remedinho para dor de ouvido.

Dizer “isso é manha” desqualifica, de uma só tocada, o pedido (o ato de pedir, reivindicar, expressar desejo e frustração) e o desejo em si, já que, senso comum, manha é “chorar à toa”. Para muitos, psicólogos inclusive, alguns dos quais li recentemente, dar o que a criança pede é igual a contentar todos os seus “caprichos”. E reduzir os quereres e necessidades das crianças a “caprichos” não é de uma soberba imensa? Para mim, é.

Se meu desejo, adulta que sou, é um desejo digno; se nós, “gente grande”, somos estimulados (até demais) e super premiados por “lutar” pelo que queremos, porque o querer das crianças deve ser menosprezado?

O pediatra espanhol Carlos Gonzalez diz, em seu ótimo Besame Mucho, que nos acostumamos a tratar os pequenos de forma desrespeitosa, de maneiras que não trataríamos adulto nenhum. E provoca: ué, não somos todos iguais, afinal? Ou, como dizia o poeta, uns são mais iguais que os outros? Ele desafia: antes de fazer qualquer coisa a um bebê ou a uma criança, imagine o que faria na mesma situação se fosse um adulto.

Isso significa atender a todos os desejos dos bebês? Claro que não. Concordo com quem diz que é nosso papel de pais ensinar e ajudar os filhos a lidar com a frustração. E nem todos os desejos podem mesmo ser realizados, na bebezice e na vida.

Mas discordo muito da pediatra sobre:

1) A atenção que Enzo merece: não acho que eu não deva estar disponível, que eu deva ensiná-lo a “não precisar de mim”. Como eu já escrevi outras vezes, ele precisa, eu quero que precise, é bom e natural que precise, pois ele é um BEBÊ. E acho que é natural que qualquer coisa de que ele precise ou que ele queira o faça procurar por mim ou pelo pai, do jeito que ele sabe e pode fazer: chorando. Se vamos dar o que ele quer é outra coisa, mas não quero tachá-lo de manhoso só porque ele pede, nem vou ignorá-lo.

2) O que é necessário: acho colo necessário, acho beijo necessário, acho afago necessário, acho sentir-se amado necessário, acho sentir-se seguro necessário, acho sentir-se acalentado necessário, acho toque necessário, acho alegria necessária, acho riso necessário, acho brincadeirinhas necessárias. Não acho limpar a bunda e encher a barriga as únicas necessidades.

3) O que fazer quando Enzo quer algo de que não precisa: é ótimo que pessoas, incluindo crianças, queiram o que não precisam. Se a gente só quisesse aquilo de que precisasse, seríamos todos nômades, coletores de frutos, caçadores de pequenos animais, viveríamos em cavernas e usaríamos desenhos toscos para nos comunicar. Nem os bichos limitam seus desejos às necessidades. Minha gata não precisa de colo, mas adora esse tipo de afago; não precisa da nossa cama, mas prefere dormir com a gente que sozinha. Podendo atender a esses desejos (dos filhos, dos gatos, dos amigos, nossos mesmos) -e eles sendo saudáveis- não vejo razão para negar.

4) Como e quando ensinar a lidar com frustração: não acho que a gente precise marcar na agenda: esses ensinamentos serão naturais, se estivermos atentos aos filhos e a nós mesmos, porque temos limitações, limites que também limitam os filhos.Exemplo bobo? Eu me canso de ficar com Enzo no colo (ele pesa 9,6 kg, afinal). E aí eu o coloco no carrinho, no sofá, no tapete, mesmo que ele ralhe um pouco. E eu converso com ele e explico que estou cansada e mostro que, naquele momento, é isso que dá pra ser feito. E ele entende, a seu modo, e lida com sua impossibilidade.

E há situações em que o que a cria deseja é impossível. Não precisamos inventar um “não” só pra o menino não ficar “manhoso”. Enzo ama facas. É claro que ele não pode brincar com elas, é claro que eu não dou, é claro que ele chora. E ok. Ele chora o tempo necessário para, justamente, lidar com a frustração. E depois passa. Que mãe eu seria se o achasse manhoso simplesmente porque ele está tentando lidar com sua frustração, com o limite? O grande barato -todo mundo diz por aí- não ensinar justamente o tal limite? Pois é, pra isso, é preciso não reprimir o choro, nem partir do pressuposto de que se trata de “manha”.

Pois eu acredito que ensinar a lidar com frustração é muito mais fácil e efetivo quando não brigamos com os filhos por eles estarem chorando (porque querem algo ou porque não podem ter algo), quando não rotulamos nossos filhos só porque, bem, eles não se comportam como se fossem bonecos. E isso foi um clic gigantesco que eu tive lendo a série sobre “birras” (outra palavra que eu detesto; outro post no forno) do O Astronauta.

5) Razões pelas quais “devo combater a manha”: para a dra. Ped, eu “perco” muito tempo fazendo as “vontades” de Enzo. Para mim eu GANHO muito tempo CONVIVENDO com meu filho.

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