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por que a gente é assim?

Cazuza já se perguntava, com sua vozinha rouca, a língua presa, sua poesia e aquele seu rock and roll bem brasileiro, bem anos 80,  “por que a gente é assim“? Claro que ele não se referia às mães, pelo contrário, mas eu me concedo a licença poética de aplicar essa pergunta à minha categoria também. Por que, afinal, nós, mães, somos assim?

Assim como? Assim boêmias, geniais e desencanadinhas como o Cazuza? Não! Assim culpadas! É a moral judaico-cristã? É a síndrome de Eva (a coitada que só queria um pedaço de maçã e acabou sendo acusada de jogar a humanidade na merda)? É alguma mudança hormonal que acontece depois do parto? É um microchip que os filhos instalam na cabeça da gente quando nascem? São os pitacos? É a mudança climática? É um avião? É o super-homem?

O fato inconteste é um só, embora eu desconheça os porquês (ou esteja com preguiça de investigar a fundo): nasce um filho, nasce uma mãe, nasce a culpa permanente.

Filho comeu demais? Culpa! Filho não comeu? Culpa! Filho passou frio? Culpa! Filho passou calor? Culpa! Mãe deu antibiótico? Culpa! Não deu remédio nenhum e tentou uma saída hipponga? Culpa! Mãe foi beber com o marido e uns amigos e deixou filho com a sogra? Culpa! Mãe não foi beber e ficou puta da vida? Culpa! Mãe comeu pipoca de micro-ondas escondida do filho? Culpa! Mãe deixou filho ver a pipoca e não deu? Culpa! Mãe deu uma pipoquinha só pro moleque experimentar? Culpa! Mãe colocou Balão Mágico pra cria ouvir, e o bebê amou? Culpa! (ok, essa aqui não tem desculpar mesmo, hein, mãe?).

E daí que eu sempre achei que não sentia assim tanta culpa. Conheço mães bem piores do que eu nesse quesito. Costumo lidar bem com os ataques da danada, quando ela vem, de modo que me achava assim meio imune à maldição da mãe-sinônimo-de-culpa.

Mas eis que ontem fiz uma coisa. Fiz uma coisa que deixou claro que minha vacina não funciona tão bem quanto eu imaginava. Acompanhe: não sou nem nunca fui o estereótipo da mulher vaidosa. Não tenho paciência para comprar roupa. Não uso maquiagem (só rímel e, quando estou inspirada, mas inspirada mesmo, um gloss incolor). Não curto nem uso salto alto. Gosto de estar confortável, o que geralmente me leva a vestir calça jeans, tênis e camiseta. Não encho a cara de corretivos. Não vou à manicure/cabeleireiro toda a semana e, francamente, acho salão um saco. Não sei até hoje pra que serve um iluminador. Não aliso o cabelo. Não tenho chapinha. Não tenho a menor ideia de quantas calorias tem um pedaço de pizza, um copo de cerveja, uma taça de vinho ou uma banana.

Sou vaidosa do meu jeito. E daí que aplico meu dinheiro e minha (pouca) paciência com “rituais de beleza” em hidratantes (tenho pele seca) e bons shampoos. Desde uns 20 e poucos, comecei a usar cremes anti-idade. Nenhuma neura com envelhecimento, pelo contrário. Adoro o visual “beleza real”, sabe? Gosto muito de gente que assume as rugas, os cabelos brancos, os sulcos e as papadas embaixo dos olhos. Admiro o visual da Maria Bethânia, sem firulas para parecer o que não é. Mas o envelhecimento tem que acontecer no tempo certo. É  uma questão de saúde, de pele saudável e de corpo saudável. Radicais livres também causam doenças. De modo que uso cremes de verdade (não cosméticos) e me alimento bem pra ter pele boa, sim, mas pra ter, antes de qualquer coisa, pele saudável, órgãos saudáveis.

Acontece que, com a gravidez, precisei suspender o uso de certos produtos. Mantive a suspensão durante a amamentação. E fui mantendo, mesmo sem precisar, por falta de vontade de pensar nisso, por falta de tempo, por preguiça e porque passar creme todos os dias é chato, bem chato. Como mantive a alimentação equilibrada, estava de bom tamanho.

Daí, esses dias, senti vontade de voltar à rotina de hidratação. Comparei preços e opções, tirei dúvidas com mocinhas simpáticas em algumas lojas, pesquisei composições na internet, chequei bem o saldo da conta corrente e, ontem, fui às compras. Tudo muito rápido, já sabia o que queria. Escolhi, paguei, levei, fiquei feliz. Bem feliz.

Isso até eu passar em frente a uma loja de brinquedos educativos. Isso até eu passar em frente à dita cuja da loja e ver, na vitrine, o cavalinho de madeira que quero dar pro Enzo. Isso até eu ver quanto custa o cavalinho. Isso até eu constatar que a p&#@%# do cavalinho custa um terço (isso mesmo, eu disse UM TERÇO) do que eu gastei em cremes sem nem lembrar que cavalos existem.

Daí, claro, foi uma reação em cadeia de contas, comparações, frações e proporções. O DVD que ensaio comprar pro Enzo faz uns meses (e pro qual nunca tenho dinheiro) custa menos que o sabonete líquido para o rosto, o mais barato dos produtos que comprei ontem. Já tem uns bons meses que não compro um livro novo pro pequeno (e ele adora livros). Quis comprar uma jaqueta lindona pra ele no domingo, mas desisti porque achei cara. Bom, a jaqueta custava menos que o creme para a área dos olhos.

Onde foi parar a minha racionalidade, meodeos? Cadê prioridade? Cadê meu senso de proporção? E como é que eu fui gastar TANTO com cremes quando sou tão econômica justamente com… o filho?

Desnecessário dizer que culpa virou meu segundo nome, né? Quis devolver os produtos. Quis pedir desculpas para o filho. Quis compensar, entrar na loja de brinquedos e comprar o cavalo, uma égua, um elefante, uma girafa, um xilofone, uma barraca, duas bonecas de pano, uma caixa de giz de cera, todo o estoque de aquarela, por favor. Quis doar os produtos para minha mãe, para uma amiga, para as Casas André Luiz.

Me olhei bem no espelho (mesmo sem ter espelho de fato na frente) e vi uma pessoa egoísta, vi uma pessoa que, diante de meia dúzia de melecas importadas pra passar na cara e, supostamente, tratar da pele, esqueceu a lista de coisas bacanas que poderia -e queria- fazer com o filho. Vi uma pessoa que, momentaneamente, ali naquela farmácia, comprando cremes, esqueceu que também era mãe. E esquecer disso, ainda que por apenas alguns segundos, é algo que não passa assim, despercebido, pelo radar da culpa materna.

Piiii, soou o alarme.

Chacoalhei a cabeça negativamente algumas vezes, reprovando minha atitude. E segui pra casa inconsolável, desgostosa, arrependida. Dez a zero pra culpa. Vitória por finalização.

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a vergonha alheia e o respeito pelos sentimentos dos bebês

Sabe o que de mais importante eu tenho aprendido com meu filho? Que “nós”, os adultos, e “eles”, os bebês e crianças, não somos assim tão diferentes quanto o metro e meio de altura a mais (no nosso caso) nos faz crer.

"Mother and Child", obra da Susan Stockdale (*)

“Mother and Child”, obra da Susan Stockdale (*)

A “descoberta” começou num inocente passeio de domingo, há umas três semanas. Enzo estava correndo numa arquibancada, segurando minha mão. Mesmo assim, tropeçou e levou um tombinho bem leve. Reagiu super mal, chorou horrores, gritou, saiu correndo, não aceitou conforto, afago, palavras amigáveis, nada, nada, nada. Qualquer tentativa de aproximação, preocupação ou acolhimento era recebida com gritos, choros e palavras de ordem: “Não! Não! Não! Não!”

No meio dos protestos, ele começou a dizer que estava “bavo”, “bavo”, “bavo” e, sem querer-querendo, deu a deixa de que eu precisava para tentar um diálogo. “Bravo por que, filho?” O pequeno começou a apontar em direção às pessoas que estavam na quadra. Olhava para as crianças –com as quais estivera brincando até pouco antes do tombinho–, apontava para elas, gesticulava com a testa franzida, olhos cheios de lágrima e, em seguida, mostrava o local onde tinha caído. E recomeçava a chorar. “Bavo, bavo, bavo”.

Fiquei confusa com aquela gesticulação toda, os balbucios, o choro, a “baveza”. Demorou um pouco, confesso, mas a ficha caiu. E quando caiu, não tive dúvidas, mas perguntei: “Você ficou com vergonha, filho?”.

-Aaaaah! Gonha, gonha, gonha!

Pronto, o filho voltou a sorrir. Eu tinha entendido, finalmente, o que ele estava tentando me dizer. E aí se acalmou imediatamente, veio se sentar no meu colo e conversamos longamente sobre o tombo, a raiva (que ele traduziu como “bavo”), a vergonha. Perguntei se ele tinha ficado envergonhado por cair simplesmente ou por cair na frente das pessoas. E descobri que a frustração foi por ambas as coisas, mas mais por ser num local público, cheio de gente.

Descobri que Enzo, apesar da pouca idade, é muito exigente consigo, não gosta de errar. Pior ainda se o erro for cometido com testemunhas. Expliquei que todo mundo cai, que todo mundo já caiu. Dri e eu mostramos a ele algumas cicatrizes e sinais, contamos como e quando nos machucamos daquele jeito. E isso tranquilizou o pequeno, pelo menos em relação àquele tombo.

E –mais importante– descobri que, embora ainda um bebê, meu filho já tem noção de si mesmo, sentimentos complexos  e uma vida emocional que, em geral, gostamos de atribuir apenas aos adultos. Quando uma criança cai e chora, na maioria das vezes, nos esforçamos ao máximo para sufocar o choro, minimizar os sentimentos dela, diminuir a importância do que essa criança está sentindo. A resposta padrão é sempre “não foi nada”, ou “logo passa” ou ainda o infame “antes de casar, sara” (eu detestava ouvir isso!).

Costumamos menosprezar os sentimentos das crianças. Dizemos que, se choram “demais” porque caíram, são “manhosas”, “birrentas”, “carentes”, “querem chamar a atenção”. Não somos empáticos com elas, não nos colocamos em seus lugares, não procurarmos enxergar o mundo pelos olhos delas e aí perdemos a oportunidade de perceber que elas somos nós. Que elas sentem como nós, só que com mais intensidade (ainda não têm o arcabouço racional, fisicamente falando inclusive, que nos permite organizar emoções e lidar melhor com as questões emocionais).

Carlos González (de novo ele, eu sei, mas fazer o que se o cara é bom?) foi o primeiro que me alertou, em seu ótimo “Besame Mucho“, para esse, digamos, fenômeno. Ele sustenta, e eu concordo, que tratamos as crianças como quase-pessoas, não como pessoas propriamente. Não respeitamos –e sequer admitimos– os sentimentos delas, não imaginamos que também se envergonham, que também se irritam, que se assustam, que se frustram e que todo esse emaranhado de emoções precisa ser expressado.

Quando um filho expressa o que sente, tratamos logo de dizer que “passa” ou que aquilo é “manha” e, portanto, o melhor a fazer é ignorar.

Por que fazemos isso? “Sei lá” seria a resposta mais honesta. Mas vou chutar outras alternativas. Uma delas é que somos ignorantes mesmo. Ponto. Sabemos pouquíssimo sobre a psicologia e o desenvolvimento emocional dos bebês e das crianças muito pequenas, dito por uma das mais reputadas especialistas no assunto, a britânica Sue Gerhardt.

(((Ela é psicoterapeuta e estudiosa da neurologia de bebês e crianças ainda na primeira infância. Escreveu o altamente recomendável “Why Love Matters” (infelizmente ainda sem edição em português), que evidencia como o amor e o tratamento carinhoso e respeitoso nos primeiros três anos de vida modificam para melhor a estrutura física do cérebro.)))

Nós não sabemos porque os bebês agem como agem e tendemos, então, a avaliar suas ações pelo conhecimento que temos do mundo emocional adulto. Logo, um bebê que ignora um “não” está “testando limites” ou simplesmente testando a paciência dos pais, desafiando. Se chora por alguma coisa que não compreendemos ou que, para nós, não tem importância, então são “manhosos”, “choram para chamar a atenção”. Se ficam irritadiços “à toa”, são “mimados” ou “não tem limites”.

São poucas as vozes discordantes. Duas delas já citadas. Tanto Gonzalez quanto Gerhardt defendem que, assim como os adultos, crianças têm mau humor, dias ruins, se impacientam e estressam com coisas aparentemente banais, mas que podem ser, na verdade, “gotas d’água” em processos emocionais desgastantes que ficam alheios aos adultos. Afinal, bebês não falam ou não falam bem e –plus– entendem muito pouco do que acontece consigo mesmos para expressar com exatidão o que sentem e porque sentem.

Também dizem claramente o seguinte: suportamos adultos “dando chiliques”, sendo grosseiros, se comportando mal. Ninguém vê um adulto nervoso e diz: “ah, seu manhoso, está bravo por quê? Quer um motivo real para ficar bravo? Vem cá!”. Nosso esforço, ao contrário, é sempre no sentido de tentar: a) entender o motivo da explosão e 2) acalmar o dito cujo. Por que não fazer o mesmo com nossos filhos, tão mais frágeis, inconstantes e realmente necessitados desse tipo de apoio?

Até os especialistas mais “mainstream”, que reproduzem o senso comum e esta postura desconfiada em relação às boas intenções das crianças, como o pediatra norteamericano Harvey Karp (autor, entre outros, de “O bebê mais feliz do pedaço” e “A criança mais feliz do pedaço“), reconhecem que é preciso muito mais de empatia que de desconfiança na hora de educar filhos. Karp diz em várias passagens de seus livros que acredita que os bebês sintam de forma muito parecida com a nossa, com o agravante de que entendem ainda menos do que “a gente grande”  sobre o que estão sentindo, o que, claro, aumenta a reação.

Alguns estudiosos levantam boas hipóteses sobre o funcionamento, por assim dizer, dos bebês (lá vamos nós falar de novo do González, da Gerhardt, do Winicott). Parte deles chegou a provar teorias interessantes (caso dos citados e também de Melanie Klein, John Bowlby), mas essas teorias não repercutiram entre a maioria dos pediatras, profissionais de saúde (física e mental)  e das mães da nossa geração  (ou da geração das nossas mães).

Arrisco dizer que não repercutiram porque eram –e são– francamente contrárias (sob um ponto de vista bem limitado) ao “espírito do tempo” das nossas gerações. Quem ia querer saber de colo em tempo integral se o “bacana”, o “moderno” é mãe que tem carreira? Quem ia querer saber do prazer da amamentação se prazer mesmo a gente encontra é no shopping?

Estou exagerando na descrição só pra mostrar as contradições. Não acho que mulher não deva ter carreira (eu tenho uma e amo!), ou que não possa gastar com o que bem entender ou que seja culpada disso ou daquilo. Só usei esses exemplos pra dizer que a sociedade do consumo, que ganhou força incrível depois das duas guerras do século passado, nos fez crer em um monte de coisas, infantilizou toda uma geração, só pra vender mais. Nesse contexto, olhar o outro de frente, com maturidade e respeito, não faz sentido. Se for uma criança então, piorou. Soma-se a isso o fato de que a infância já não era mesmo muito respeitada mundo afora (a “invenção” da infância é bem recente) e pronto. O pouco de conhecimento que temos sobre a vida psíquica das crianças pequenas vem sendo ignorado de propósito há tempos.

Daí, voltando pro meu exemplo prosaico e singelo, meu filho, tão pequeno, me dá um bela de uma lição e traduz, em atos, o que esses caras todos aí de cima levaram anos estudando. Ele sente sim. “Tombinho”, pra mim, é coisa séria pra ele. E, sim, mamãe, é preciso respeitar e acolher, ajudar o pequeno a processar a vergonha, o medo, a frustração e a raiva, que são sentimentos humanos, tanto dos “grandes” quanto dos “pequenos”.

Dizem o próprio Karp e, com muito mais propriedade, a Laura Gutman (**) que somos nós, pais/mães e adultos, que precisamos nomear os sentimentos dos filhos para ajudá-los a entender o que se passa com eles e, dessa forma, aprender a lidar (um pouco melhor) com as emoções. E foi precisamente na medida em que eu nomeei a vergonha de Enzo que o sentimento passou a fazer sentido e o choro perdeu sua função primordial, a comunicação.

De lá pra cá Enzo fala muito, muito mesmo sobre sentimentos. Virou um “bavinho”, pois qualquer pequena frustração que tem, corre me contar anunciando que está “bavo”. Até faz graça com isso, é preciso dizer, e às vezes fica “bavo” de mentirinha. De todo o modo, também é preciso dizer, praticamente não faz “birra” no sentido clássico do termo e simplesmente não chora mais para expressar qualquer sentimento que tenha. Sempre fala o que está sentindo e isso resolve ou alivia o conflito, seja dele com ele mesmo seja dele com a gente (quando negamos alguma coisa, por exemplo).

Além do mais, as crises de frustração, que duravam bem mais, agora são rápidas e levam, em geral, o tempo de uma conversa. Também sinto que a ligação e a confiança mútuas aumentaram. Sei que essa confiança vai fazer a diferença no nosso relacionamento –e no relacionamento dele com outras pessoas– quando for maior e isso, por si só, já será muito.

****

(*) Susan Stockdale é uma artista norteamericana, ilustradora de livros infantis, que eu conheci fuçando no Etsy (loja virtual de arte, design e quinquilharias bonitinhas diversas). A imagem, aliás, é de lá mesmo, vá por aqui se quiser mais detalhes.

(**) Recomendo muito uma série de vídeos de uma palestra da Gutman sobre seu livro “El poder del discurso materno“. Aqui embaixo, o primeiro trecho de 7, que valem a pena.

Dá pra ir assistindo às outras partes pelo próprio navegador do You Tube (por aqui). Altamente recomendável.

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a omelete, a mãe, o filho e a cebola roxa

(*)

Daí que a mãe se lembra, às 19 h de um domingo, que esqueceu de comprar o frango que faria pro filho. Putaqueopariu! #mãedemerda!  Isso que dá ficar 15 minutos de pernas pro ar, lendo, enquanto bebê dorme! Não se apercebeu ainda, moça,  que “pernas pro ar” não rima com “maternidade”?

Seis palavrões e uma dúzia de xingamentos depois, mãe resolve abrir a geladeira pra ver se salva alguma coisa lá de dentro. Afinal, #mãedemerda ou não, a cria vai jantar daqui a alguns minutos, confere, produção?  E eis que, nessa busca, dá de cara com os ovos. Pensa, faz contas, rememora quantas vezes o filho comeu ovo durante a semana… Uma vez, meia clara. Ok, liberado, pois a pediatra recomenda dar duas vezes por semana, ovo inteiro. Voilàmãe decide então fazer uma omelete em substituição à carne.

Separa dois ovos, um punhado de ervilhas frescas, outro punhado de milho fesco, tomatinhos cereja, umas lasquinhas de mussarela de búfala… Hum, não vai ficar a melhor omelete do mundo, mas deve dar pro gasto. Pelo menos, Enzo come proteína, leguminosas, um carboidrato do bom, o tomate, fibras…

Daí a mãe se lembra de que comprou uma cebola roxa dois dias antes para colocar numa hipotética salada de brócolis que não saiu do papel. Ok, vamos usar a cebola roxa também! Enzo nunca provou, não se sabe se vai gostar, mas tentemos.

Mãe acha muito importante oferecer alimentos e temperos variados para o pequeno. Assim, ele vai se acostumando e ampliando seu paladar e repertório alimentar, digamos assim. A cebola roxa estava na lista fazia um tempo; mãe achou uma ótima oportunidade para testar.

A ideia, a essa altura, é dar uma dourada na cebola antes de misturar à omelete. Um pinguinho de azeite na panela, cebola cortada em pedacinhos pequenos bem fininhos, uma pitada de sal e, depois de um tempo, um pouquinho de água, para dar aquela cozidinha e  para não queimar.

Enquanto a cebola doura, o pai vai preparando a omelete. O filho brinca no chão, sob a supervisão da mãe, que também supervisiona a dita-cuja da cebola. Mas quem resiste a cheiro de cebola na panela? É só o aroma começar a se espalhar que o filho larga os brinquedos todos e pede colo pra ver o prato cheiroso mais de perto.

Aspira uma ou duas vezes a cebola na panela e pede um pouco. Mãe pega a colher, experimenta, já está cozida. Pega outro punhadinho, assopra, dá pro rebento. Agora desce e brinca aí que a mamãe vai terminar o jantar. Ã-hã.

Mal termina de engolir, filho pede cebola de novo. Mãe admira-se. Achou que ele poderia gostar, mas não tanto a ponte de pedir repeteco na cebolinha sem nada. Ok, não faz mal, mais uma colherada de cebola, então.

Mal termina de engolir, filho pede cebola de novo. Mãe dá. Mas faz a ressalva: filho, é para colocar na omelete…

Mal termina de engolir, filho pede cebola de novo. Mãe pensa em negar –pohan, assim não sobra pra omelete–, mas pondera: se o objetivo de colocar a cebola na omelete dele é que ele coma, que diferença faz se for misturadinha lá ou pura na colher? Nenhuma. Mais cebola para o pequeno.

E mais. E mais. E mais. E outra colherada. E outra. E outras. Estabelece-se o seguinte padrão: o filho brinca um pouco enquanto mastiga. Tão logo a cebola acaba, larga o brinquedo, abre a boquinha, gesticula (apontando para o recipiente acebolado) e, para não restar dúvidas do seu desejo, faz um “ahãm” mordendo o nada com a boquinha. Boquinha cheia, volta pro lugar até terminar de mastigar.

E assim vão, mãe e filho, por vários minutos, até que… a cebola acaba! Uma cebola inteirinha! E acaba  bem antes de a omelete ir para o fogo… Da cebola mesmo só sobrou o bafinho para comprovar que tudo nos bebês é fofo, até mau hálito.

(*) Imagem daqui.

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o autocontrole segundo Enzo

O pequeno está em casa, mas sob os cuidados da avó. A mãe também está em casa, mas trancada no escritório, trabalhando. A avó escova os dentes, pequeno agarrado às suas pernas. Ele pede a pasta de dentes para brincar. Ela dá. Ele pede para abrir. Ela abre. Ele brinca um pouco, lambuza os dedos, lambe, prova. Ela olha, supervisiona, pega a pasta de volta.

Ele ralha. Quer brincar mais. Ela acha que tudo bem, mas não quer que ele coma mais pasta. Devolve o tubo tampado. Ele não gosta. Quer que ela abra. Ela não abre. Ele resmunga com ela, aponta de novo para a tampa, mais incisivo. Ela diz que não. Ele ameaça uma reação, pura explosão de raiva, mas para.

Larga a avó para trás e segue, sereno e controlado, em direção ao escritório onde está a mãe. Chega lá, empurra a porta. A mãe desvia os olhos do teclado, encara o filho, que, calmamente, ajoelha-se no chão, na frente da mãe. Ele olha para ela, dono da situação, quase sorrindo. Certifica-se de que ela continua com os olhos fixados nele e então –e só então– começa a dar um piti daqueles: se joga para trás, grita, bate as mãos e os pés, reclama, chora.

Ninguém poderá acusá-lo de não ter autocontrole.

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sim, pais, vocês podem

imagem da comunidade “Mês de Valorização da Paternidade”

Em agosto, uma extensa programação marcou o “Mês de Valorização da Paternidade“. Rascunhei vários posts sobre isso, anotei umas zentas ideias, mas, no fim das contas, agosto acabou e eu não publiquei nada. Está repetitivo, eu sei, mas é a verdade: correria, correria, correria, que redunda em pouco tempo para o blog (e para outros prazeres da vida. Pergunta quando foi a última vez que fui ao cinema com o Dri. Respondo: antes do Enzo nascer. E lá se vão, pelo menos, um ano e poucos meses… Pergunta há quanto tempo não consigo abrir o livro que estou “lendo”. Há mais de 15 dias. Nem uma abridinha sequer…).

Ok, desculpas justificativas à parte, mesmo atrasada, resolvi postar algumas considerações sobre a paternidade. Coisas que tenho pensado, outras que já pensava antes mesmo de ser mãe (quando, aliás, eu tinha certeza de que nunca seria mãe…), coisas que tenho lido e que geraram reflexão. Tudo inspirado por esse post do Alex Castro sobre paternidade. Ele resume bem a história toda com essa frase aqui: “Ser pai não é pra ser fácil. Se seu filho quase não te dá trabalho, alguma coisa você está fazendo errado”.

Alex fala sobre homens separados que se consideram ótimos pais só porque ligam para os filhos todos os dias e depositam mensalmente a grana que paga parte das contas do rebento. O texto dele é ótimo e merece uma complementação: tem muito homem que age exatamente da mesma forma só que morando na mesma casa com o filho, sabe como?

Daí que acho que a paternidade também precisa ser discutida –assim como a gente faz (até demais) com a maternidade. E estou falando não de ter filhos, mas de criá-los; não só de educar os pimpolhos e “transmitir valores” (como Alex comenta no texto dele que é coisa adorada pelo “pai-alfa”), mas de enfiar a mão na massa mesmo. Inspirada pelo post do Alex, decidi postar reflexões que eu já fazia sobre paternidade e que, soltas num ou noutro rascunho, tentei juntar por aqui. Penso mais ou menos o seguinte:

1) Definir o conceito: “pai é quem cuida”, estamos de acordo? Mas o que é “cuidar de filho”? Feliz –ou infeliz–mente, tanto para mães quanto para pais, cuidar envolve trocar fraldas, dar banho, planejar a alimentação, cozinhar, servir o almoço-lanche-jantar na hora certa, colocar para dormir, ajudar a dormir, acordar na madrugada para ficar com o pequeno insone, dar conta das “birras”, ler uma historinha, levar e buscar na escola, ir ao pediatra, ir a reuniões de escola. Inclui abrir mão de uma série de coisas, entre elas uma certa ascensão profissional. Inclui cozinhar aos sábados, inclui ler menos, beber menos, ter menos vida social. Inclui namorar menos (com a mãe/o pai da criança ou com qualquer outra/o). E mais uma infinidade de compromissos cotidianos que vão garantir o crescimento saudável da cria -e que vão mudando conforme a faixa etária vai avançando. Se você, pai, ainda não faz tudo isso, melhor refletir um pouquinho: ou está faltando alguma coisa para o seu filho ou a mãe dele está sobrecarregada.

2) Aproximar conceitos: paternidade não é tão diferente de maternidade quando os pais realmente são presentes, assumem seu quinhão de responsabilidade –e de prazer, porque cuidar é muito bom também. Mas acontece que as cobranças acabam recaindo só sobre as mães. Ou alguém aí ouve com frequência um pai ser interpelado por outra pessoa com a seguinte pergunta: “como você concilia carreira e paternidade”? Não faz lá muito sentido perguntar isso APENAS  para a mulher. Se estamos falando de paternidade de verdade, o pai vai ter que rebolar –como rebolam as mães– para conciliar seu trabalho com a paternidade, para não levar esporro de chefe porque chegou atrasado (de novo) por causa da reunião na escola, para não perder promoções ou para lidar bem com as promoções perdidas. Ontem ainda li uma chamada nessas capas de revistas femininas que dizia mais ou menos assim: “vale a pena o esforço de dar conta da carreira, da maternidade e do casamento?”. Me pergunto se essas revistas são mesmo femininas. Porque elas NUNCA assumem a defesa da igualdade de gêneros. O homem não deveria estar igualmente comprometido com a paternidade e com fazer o casamento dar certo? Acho que falta evoluirmos muito nesse sentido ainda para que a maternidade e paternidade sejam sinônimos de fato.

3) Brincar de boneca: li esses dias uma frase que dizia mais ou menos o seguinte: enquanto não for permitido aos meninos brincarem de bonecas, pais que trocam fraldas, dão banho, cozinham para os filhos e assumem compromisso com o cuidar diário serão mais exceção que regra. Simples assim. Eu já dizia quando estava grávida (razão pela qual levei vários amigos incrédulos às gargalhadas compulsivas) e reafirmo: Enzo terá muitas bonecas e será estimulado a brincar com elas. Ainda não é hora, mas ganhará as deles quando for. Por enquanto, ele demonstra todo o seu afeto (com abracinhos, beijinhos, carinhos e companhia) ao Leo e ao Leozinho, seus dois leõezinhos de pelúcia, pelos quais é apaixonado.

4) Abaixo a supermãe: mulheres, por favor, vamos parar com essa bobagem de “dar conta” de tudo? Ainda bem, não somos perfeitas nem super coisa nenhuma. Ainda bem, somo só humanas. É nossa responsa também que os homens não participem mais da parte braçal –e mais trabalhosa– da criação dos filhos. Assumimos tudo o que há para ser feito, aceitamos tudo o que os homens não fazem. E ainda achamos o máximo quando, no fim do dia, exaustas, descabeladas, cheirando a comida azeda e com cara de chapadas, contabilizamos quantas coisas fizemos. Reclamar não adianta nada, ok? É preciso mudar de postura. Aos poucos, de uma vez, com carinho, com firmeza, do jeito que der. Mas com mudança prática. No nosso caso, aqui em casa, sempre houve divisão de tarefas. Todo mundo faz de tudo. Dri assume não só as responsas de pai presente, mas de dono de casa.  Já contei aqui (com muito orgulho do Dri, aliás), como a paternidade dele é que permite a minha maternagem. Recomendo a leitura.

5) Licença paternidade: Sou super favorável à licença paternidade decente  porque: a) vai ajudar os pais a colocarem a mão na massa; b) pode permitir que os homens participem de fato do nascimento e dos primeiros meses dos filhos (tão cruciais); c) vai reduzir a discriminação profissional em relação às mulheres e d) deve tirar um importante argumento de quem ainda tem a cara de pau de defender a discrepância entre salários de homens e mulheres que ocupam igual posição. Desde 2008, acontecem aqui e ali algumas manifestações nesse sentido, há projetos de lei em tramitação para elevar a licença para um mês, mas, até agora, nada. Uma das campanhas, a “Dá Licença, Sou Pai“, teve até a participação de “globais”. Mas há um silêncio sobre isso até entre as mães. Acho que falta mobilização nossa –das mães e dos pais– para o tema ganhar a dimensão que merece.

Para quem quiser ver o vídeo direto no Youtube, só clicar aqui.

6) Sim, pais, vocês podem: acho que falta um empurrãozinho para estimular os pais a assumirem mais responsabilidades no cuidar dos filhos. É preciso vontade deles, claro, mas também estímulos, condições favoráveis e compreensão. O meu empurrãozinho virtual é esse: vamos refletir? Vamos arregaçar as mangas? Vamos seguir o exemplo de tantos pais que se jogaram na paternidade e não se arrependem (taí o Renato Kauffman que não me deixa mentir)? Vamos ser sinceros e assumir que o papel tradicional de pai é cômodo e não dá mais conta de cumprir as obrigações paternas –ainda bem– no século XXI?

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o bebê, o e-mail e a mãe

Mãe precisa mandar um e-mail. Bebê está sentado ao lado dela, brincando com um telefone quebrado, distraído e eufórico. Mãe pensa que pode ser o momento de sacar o notebook, propositalmente depositado ali do lado, e tentar, finalmente, escrever o dito-cujo.

Já disse que as mães são muito inocentes? Pois é, elas são, tadinhas.

Daí que é só a mãe entrar no gmail e clicar em “escrever” que o bebê, de repente, se desinteressa totalmente no telefone quebrado e volta seus olhinhos brilhantes, sua atenção e suas mãozinhas ágeis e ávidas para o teclado do computador.

Então mãe para de digitar, desvia o note do pequeno, mostra, de longe, uma coisa ou outra no computador para saciar a curiosidade do pequeno explorador e entrega outro brinquedinho para o bebê, que se distrai.

Ela espera uns segundos, confirma a distração da cria e volta a escrever. Digita MEIA palavra e…pumba! Dedinhos ágeis, que não são os seus, apertam centas teclas ao mesmo tempo.

Mãe ri, orgulhosa, da esperteza do neném e trata logo de tirar o note do alcance da cria. Insiste em tentar chamar sua atenção para outra coisa e acha uma orelhinha plástica de cachorro plástico que, no dia anterior, fez tremendo sucesso com o pequeno. De posse do novo objeto, bebê olha, analisa, leva à boca e vira-se de costas pra mãe e computador.

Respirando aliviada e pensando um inocente “agora vai” (já disse que mãe é tudo inocente?), ela retoma o princípio de e-mail, termina de escrever a metade da palavra e…oops! Eis que o minimenininho já jogou a tal orelha longe e está todo em cima do teclado, que está no colo da mãe. Duas dedadas bebezísticas e a área de trabalho vira de ponta cabeça, sabe como?

ABRE PARÊNTESE PARA QUESTIONAR A MICROSOFT: Alguém, plis, me explica: pra que a Microsoft libera teclas de atalho pra virar a tela de ponta cabeça? Já acho difícil acreditar que alguém vá usar um computador com tudo ao contrário. Imagine, então, usar tanto que precise de uma tecla de atalho! Microsoft, querida, que tal pensar nas mães com bebês xeretas? Hein, hein? FECHA PARÊNTESE.

Daí que mãe, que antes só queria escrever um e-mail rapidinho, agora precisa segurar o filho que segue avançando sobre o computador, arrumar a tela (coisa que ela não lembra mais #comofaz) e, antes,  ligar pra alguém pedindo socorro pra arrumar a tela.

Com bebê pendurado no colo, ralhando à beça com a mãe porque quer mexer no note, que ficou lá no sofá, mãe levanta, acha o celular no meio da bagunça que está a mesa da sala, liga pro marido. Ele há de saber, pensa.

-Sua chamada será encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita à cobrança depois do sinal.

Daí mãe tenta seu próprio pai. Celular de novo. Enzo começa a chorar, porque quer porque quer brincar com o celular, que está, nesse momento, grudado na orelha da mãe. Bebê é insistente. Puxa o rosto da mãe, puxa pelos cabelos, tenta escalar a tadinha até alcançar o aparelho. Não alcança, se retorce, vê a Jóh passar (a gata salvadora da pátria) e gargalha, distraído.

Chama, chama, chama. Finalmente, o avô atende, a mãe conta o causo. Depois de loooongos segundos de risada desabrida do vô (todo mundo acha engraçada a inocência da mãe…Mandar e-mail com o bebê acordado… ahaha ahah ahah hahaha. Tadinha), a resposta:

-É só dar control, alt e seta pra cima que volta pro lugar.

Esse “é só” atestando a burrice falta de conhecimento materno é um pequeno soco no estômago. Mas ok, ok, obrigada. Mãe volta ao sofá, abre o note, dá control, alt, seta pra cima, tela volta ao normal. Bebê estica, estica, estica pra alcançar o teclado, mãe faz ginástica pra mantê-lo longe do note. O embate dura alguns segundos. Ambos estão suados. Mãe desiste do e-mail, finalmente (alôou! tem alguém aí, mamãe?). Fecha o note. Coloca de lado. Senta com Enzo no chão. Escolhe um brinquedo.

E, encafifada, pensa:

-Mas como c#%*lhos você conseguiu dar control, alt e seta pra baixo, filho? Vai ter muita coisa pra me ensinar, esse menino.

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o papel do pai

Aqui em casa não há uma divisão formal de tarefas entre marido e eu, tipo mamãe faz isso e papai faz aquilo. Qualquer um de nós faz o que tiver de ser feito, o que for possível ser feito, seja lavar roupa, lavar banheiro, fazer o jantar, passar pano na casa ou cuidar do Enzo. E muitas dessas tarefas domésticas são cumpridas à noite e aos finais de semana.

Anteontem, por exemplo, Dri chegou exausto do trabalho, mas foi faxinar a casa, lavar a louça, preparar nosso lanche. Enquanto isso, eu dava jantinha pro Enzo, banho, colocava pra dormir. Hoje, é possível que ele tenha de me ajudar a lavar a cozinha. Sim, a jornada tripla aqui não conhece diferença de gêneros, é da mãe, mas também do pai.

E daí que pode parecer que não, mas isso tem tudo a ver com maternagem. Com a maternagem possível. Pra mim, caiu a ficha ao ler um texto com um depoimento de uma mãe que dizia que não conseguia dar colo ao filho na medida do que gostaria por ter as tarefas de casa todas para fazer ao longo do dia. Ao bebê, restava tempo apenas para cuidar das necessidades físicas básicas de sempre, aquelas que não podem ser adiadas.

Esse arranjo (mãe-dona-de-casa-sobrecarregada) não é novidade. Minha mãe viveu isso comigo e com meu irmão. Nunca que ela poderia parar de fazer o que fosse em casa para brincar comigo ou para me dar colo. Até porque, se ela deixasse de fazer, ninguém faria por ela. E eu tinha um irmão que precisava comer, um pai que chegava para jantar, enfim, a vida era outra e era necessário que a prioridade filhos X casa fosse compartilhada.

Percebi, portanto, que a minha opção de maternagem, que inclui apego, colo em livre demanda, brincadeiras, atenção integral às necessidades físicas e emocionais do Enzo e disponibilidade total para ele, depende muito -quase exclusivamente- do acordo tácito que tenho com o marido em relação às responsabilidades da casa.

Durante o dia, minha prioridade absoluta é o Enzo. Quando ele dorme ou se distrai sozinho, sem necessidade da minha companhia, é o tempo que tenho para trabalhar, para dar conta do prazo, afinal (já contei aqui e ali minhas aventuras trabalhando em casa com um bebezico delícia que adora atenção). Geralmente, antes mesmo de eu terminar minhas tarefas jornalísticas, Enzo já acordou de novo ou já notou que eu dei uma fugidinha até a mesa -e já está protestando por isso, claro.

De modo que limpar a casa, fazer comida ou lavar as roupas são coisas que não cabem na minha rotina diária. Quando dá, eu faço. Ninguém quer, às 22h30, cansadaça, louca pra ler um livro ou assistir um DVD com o marido, começar a faxinar o banheiro, né? Pois é, nem eu. Mas lidamos com o possível e o possível é feito de escolhas.

Quando aproveitei meu home office para ficar com Enzo, a decisão foi FICAR COM ENZO. Não com a casa. Não com a faxina. Não com a roupa para lavar. Não com o jantar/almoço. Daí que priorizo Enzo. Do contrário, não haveria razão para não colocá-lo num berçário e ir logo trabalhar fora.

No fundo, acho que o papel de pai que Dri representa inclui -mas claro que não se limita a- permitir que eu seja a mãe que quero ser pro Enzo, a mãe que acredito que devo ser, a mãe que acho que Enzo merece, da qual precisa, pela qual espera. Respeitaria meu filho se ele fosse diferente, mas a cria é um bebê que precisa de mãe, que adora colo, que adora companhia, que quer aprovação e afeto o tempo inteiro. É um bebê dependente.

Por meu lado, sou uma mãe que acha ótimo que o filho seja dependente nessa fase da vida, pois é nisso que acredito: bebezicos dependentes são iguais a crianças, adolescentes e adultos seguros, confiantes, com autoestima saudável. De modo que Enzo e eu combinamos bem. E o Dri, que compartilha comigo essa ideia sobre criação dos filhos, nos dá esse espaço porque não se furta às obrigações domésticas só por ser homem ou só por trabalhar fora.

ABRE PARÊNTESE: Preciso dizer que essa postura do marido não é de hoje, não é do nascimento do Enzo. Sempre foi assim. Dri nunca achou que limpar a casa fosse minha tarefa, nem nunca fez muxoxo para arregaçar as mangas, comigo, e dar conta das chatíssimas tarefas de casa. FECHA PARÊNTESE.

É comum, navegando por sites de jornais e revistas, encontrar especialistas questionando o papel do homem no mundo de hoje, o papel do pai na família etc etc etc. Pode ser que o papel que Dri assumiu não interesse a todos os homens desempenhar, nem mesmo a todas as mulheres. E, de verdade, respeito isso. Acho todo arranjo familiar válido; o que importa é fazer sentido para aquela família.

Mas aqui em casa, é justamente essa postura do marido que me dá o tempo de que preciso para por em prática aquilo no que acredito, como mãe.

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