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com licença

A gente já falou tanto em licença maternidade e paternidade, em apoio para exercer uma maternagem ativa sem necessariamente abrir mão da vida profissional, em participação do pai no processo, na importância da presença amorosa e disponível dos pais no começo da vida das crianças… E eis que hoje, via a mulherada antenada lá do feice, descobri um documentário justamente sobre tudo isso.

O “Com Licença”, projeto do Urbanmoms, está no Benfeitoria aguardando apoio financeiro. A ajuda será benvinda até junho pro projeto emplacar. Mas a gente já pode ir vendo o trailer desde já pra ter uma ideia da relevância do conteúdo e do debate proposto:

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Arquivado em Maternidade, profissão

amo muito isso tudo

Não não, não estou falando daquela rede de hambúrgueres que tem como símbolo o palhaço R. O “amo muito isso tudo” é, claro, uma referência ao atual slogan da tal empresa de fast-trash-food, mas só está aqui porque resume muito bem o que quero dizer sobre outra coisa e…bem…me permiti essa licença -digamos- poética. Blame on the adman que bolou a frase, ué.

Daí, então, que tive de ficar uns dias longe da madresfera (amey essa palavra, dona Mari viciada em colo). Muito trabalho, mas muito mesmo, mal conseguia responder e-mails profissionais urgentes, mal e porcamente respondia familiares e deixei sem respostas a pessoa fofa, querida e talentosa que está cuidando do bolo de aniversário do Enzo (ah, vou deixar details pra depois, mas estou organizando a festa do meu minimenininho e, lógico, tenho zentas coisas para contar, minhazamiga).

Plus: deu algum tilt no meu gmail, de modo que fiquei sem acesso a alguns arquivos remotos e descobri, 15 dias depois, que um monte de e-mails que eu mandei/recebi não chegou aos respectivos destinatários.

Daí que rolou, por força maior, um jejum de blogagem, de leitura de blogs, de acesso às redes sociais etc. Dessa experiência de abstinência severa, especificamente em relação à madresfera (meu post mais recente publicado, excetuando-se os de ontem e esse, data de 12 de abril), tenho alguns comentários e uma conclusão. Comentários:

1) Blogar vicia. Não sei se é um processo químico, psíquico, social, motoro, físico, quântico, alquimístico, místico, matemático ou gramático. Mas a coisa impregna, minha gente. E quando você precisa passar um tempo longe da blogagem, seu corpo todo reage. Não vou mentir dizendo que tive tremedeiras, que gritei, que precisei ser amarrada na cama para não abrir o wordpress. Mas confesso que foi fisicamente ruim deixar de blogar. Tive até dores de estômago. E foi emocionalmente ruim deixar de blogar. Senti uma falta louca de escrever, de dividir, de compartilhar, de organizar as ideias, de registrar as coisas. Foi punk. E foi chato.

2) Ficar sem blogar alucina. Como ex-fumante (dos 17 aos 20, 1 maço por dia), sei bem que é a coisa mais fácil do mundo a gente divagar loucamente quando está com muita vontade de fazer uma coisa, mas não pode. Logo que parei de fumar, costumava me imaginar fumando, dava algumas “desligadas” eventuais, ao longo do dia mesmo, e, quando percebia, estava divagando, fumando de mentirinha. Fiz a mesma coisa com o blog. Digamos que esse período de abstinência foi um dos mais produtivos ever. Escrevi uns centos posts mentais.

A gente sempre faz isso, né? Vai tomar banho? Escreve um post mental. Vai à feira? Outro. Esperando para entrevistar uma fonte? Post de novo. Na hora de dormir? Ah, aí são uns dois ou três. Mas dessa vez, tendo em vista que eu sabia que não iria conseguir abrir o blog e escrever no dia seguinte, parece que as ideias fervilhavam mais, numa velocidade maior ainda. Sonhei com posts até, o que nunca tinha acontecido antes. Foram tantas ideias novas, mas tantas ideias novas que, mesmo na correria, anotei algumas para ver se viram posts de fato em breve.

3) A falta que azamiga faz. Senti muita saudade. Mesmo. Não só de blogar, mas, principalmente, das mães da madresfera e dos respectivos rebentos. Saudade de gente que eu nunca vi ao vivo, mas que é tão presente, mas tão presente, que parece amigo de infância, sabe como? Senti falta de trocar ideias, de debater nos comentários, de deixar comentários, de receber comentários, daquele sorriso gostoso e sincero que a gente dá quando lê um relato bacana, quando uma mãe e um filho comemoram alguma conquista ou quando uma mãe confessa dessas coisas inconfessáveis da maternidade, e a gente pensa: “putz, igual que nem eu”.

Senti falta, na verdade, do convívio, de conviver (mesmo que virtualmente) com essas moças, mocinhas e mocinhos que foram se tornando tão importantes para mim nessa nossa pracinha. Fiquei imaginando como estariam as Alices, o Arthur, os Lucas, a Leah, o xará do Enzo, a Nina, o João, a Laura… Queria saber as novidades, queria tricotar!

Impressionante como eu gosto das meninas dessa madresfera! Claro que a gente sabe que os vínculos são vínculos, não importa que a origem seja no mundo “real” ou no mundo “virtual” (cada vez mais real). Mas, lógico, a experiência é a forma mais completa de conhecimento: uma coisa é saber na teoria, outra é saber na prática; e eu soube na prática que meus vínculos virtuais na madresfera são bem fortes.

4) Subestimei a importância da blogagem. Que eu gosto de blogar não era novidade para ninguém. Nem para mim. Mas, confesso, não sabia que gostava tanto assim. Confesso, novamente, que subestimei a importância da blogagem na minha vida. Já deveria ter caído a ficha, mas, às vezes, sou meio lerda: blogar não é acessório, é essencial. É terapêutico. É contato com o mundo, ainda mais quando, como eu, se trabalha em casa. É aprendizado. É maternar de maneiras diferentes. É crescer e melhorar como mãe. É aperfeiçoar. É dizer e é ouvir, tudo ao mesmo tempo. É vivenciar a maternidade em outros níveis. É escrever. É refletir.

E, nesse sentido, foi um aprendizado e tanto passar esse período afastada. Daí que concluí, então, o óbvio: amo muito isso tudo!

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maternidade é competição?

Pulga atrás da orelha: quando foi que a maternidade/paternidade virou competição? Ser mãe/pai é competir? O “desempenho” dos filhos é o que mede a qualidade da maternagem/paternagem (ok, essa palavra não existe, mas vou me permitir a licença poética)? É justo cobrar dos (ou esperar que os) filhos sejam os primeiros em sei-lá-o-que para que mães/pais ganhem sei-lá-o-que na comparação com outras/os mães/pais? Ou nós estamos tão acostumados à competição que nem percebemos a doideira que é tratar os filhos como se fossem competidores e/ou troféus?

Não tenho as respostas. Não tenho nenhuma delas, na verdade. Mas tenho pensado muito nisso, especialmente depois de encontros casuais que tenho tido com outras mães. Parece que há certos marcos de “desempenho” esperados para os filhos que servem, na verdade, para as mães medirem o “sucesso” delas e das crias.

Por exemplo: engatinhar é um desses marcos. Rola uma comparação deliberada para se saber qual bebê já engatinha ou começou a engatinhar primeiro, como se isso realmente significasse alguma coisa. O que se ganha quando um neném é “precoce” nessa área? Eu não sei, mas as mães parecem saber. Um google despretensioso vai mostrar que a idade “ideal” para começar a engatinhar é entre seis meses e um ano. Qualquer pediatra com dois neurônios funcionando vai dizer que, nesse período, o que vale mesmo é respeitar o tempo de cada criança. Mas experimenta dizer isso para as mães.

Dia desses ouvi de uma delas, cujo filho com 5 meses “quase engatinha”, que o “segredo” para a precocidade (que ela deve achar uma qualidade a ser copiada) do rebento é que ela nunca o pega no colo. Deixando o filho sozinho, sem colo, ela conseguiu que ele desenvolvesse habilidades motoras mais cedo. E ela critica as mães que fazem o contrário.

Pergunto: 1) Que vantagem o filho leva com isso? 2) Não seria melhor ter colo de mãe enquanto isso é fundamental –até para estimular o desenvolvimento neurológico e as sinapses– e deixar para estimular a evolução motora quando for a hora (ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo)? 3) Essa mãe já refletiu sobre a importância da autoestima na vida do filho? Será que já pensou que “se virar sozinha”, nessa idade, não é algo desejável para uma criança?

Filosofia de botequim (que eu A-DO-RO! Pena que não esteja tomando cerveja por esses dias. Do contrário, confesso, já estaria com uma bem gelada a me fazer companhia): vivemos em uma sociedade altamente competitiva, que estimula ainda mais competição como se isso fosse o único caminho para uma prometida prosperidade. Nós pais, perdidinhos da silva, achamos que o melhor para os filhos é que já nasçam competindo, que já nasçam na frente, chegando antes dos outros bebês em qualquer lugar que seja.

É uma síndrome de maternagem desenvolvimentista, sabe como? A preocupação principal deixa de ser o bem estar, a felicidade, o crescimento saudável e no tempo de cada criança, o respeito às etapas e ao ritmo do filho. O objetivo torna-se desenvolver -o quanto antes, de forma “otimizada”- tudo o que tiver que ser desenvolvido no menor espaço de tempo possível.

E daí a competição: se meu filho engatinha antes, ponto para mim, que consegui estimulá-lo e desenvolvê-lo mais rápido. Se ele anda primeiro, ótimo. Se fala primeiro, então, nossa, eu poderia ganhar um Nobel da maternagem.

O natural sequer é considerado. E o tempo, que nos submete a todos, é solenemente ignorado na busca ansiosa por alcançar, via filhos, a ponta, o pódio, o primeiro lugar de qualquer coisa que seja. Os filhos são superestimulados e, paradoxalmente, recebem menos atenção do que mereciam, já que “aprender a se virar sozinho” virou mantra. Na maternagem desenvolvimentista hegemônica,  quanto antes os bebês ficarem independentes, melhor. Mesmo que isso custe (se é que alguém ainda se preocupa com isso) boa parte da formação afetiva e emocional desse neném.

E essa “nova” forma de maternar -não por acaso- cai como uma luva numa sociedade consumista e individualista que parece que desaprendeu a ter filhos. Enquanto não consome, filho não se insere nesse contexto. Para mim, parece fato que, ao passo que a ciência evolui e permite que casais que jamais teriam filhos concebam, coletivamente, perdemos a capacidade de nos reproduzir a contento, pois perdemos -e nos orgulhamos disso- habilidades fundamentais para maternar/paternar:

-Não temos mais tempo: não esperamos nossos filhos crescerem e se desenvolverem; queremos acelerar os processos todos. Não temos tempo, nem nossos filhos tem, para esperar as etapas normais e apropriadas.

– Não temos mais disponibilidade: prioridade é o que vem em primeiro lugar. Não dá para ter vários primeiros lugares na nossa lista. E, em geral, mesmo querendo priorizar nossos filhos, na prática, priorizamos o que paga as contas. Porque, afinal, as contas precisam ser pagas, e vivemos numa sociedade esquizofrênica que nos faz escolher entre filhos e ganha-pão.

-Não temos mais paciência: sou tecnológica, adoro os avanços todos da ciência, mas acho que o mundo super conectado, que nos leva a trabalhar como loucos (ao invés de nos poupar tempo, como seria de se supor) também nos faz acostumar com um ritmo irreal e não-natural de vida. Queremos adiantar tudo, queremos tudo para ontem, levamos o imediatismo a um outro nível. Não queremos para já, queremos que já esteja pronto quando começarmos a desejar o que quer que seja.

-Não respeitamos o que é natural: bacana mesmo é o artificial, é o que acelera processos, “facilita” processos, substitui o que seria natural por algo mais adequado à nossa vida corrida, cosmopolita, sem qualquer ligação com instintos, ancestralidade, com as heranças que gerações anteriores levaram milênios para aperfeiçoar e nos legar.

E, veja, não estou apontando o dedo para ninguém. Também me incluo nisso tudo aí, também sou fruto disso tudo aí, também reproduzo isso tudo aí, também já me flagrei cobrando a mim mesma sobre o desenvolvimento do Enzo e planejando quais as habilidades dele eu vou querer “acelerar”.

Não aponto dedos não apenas porque teria de começar por mim mesma e porque não estou aqui para isso, mas, principalmente, porque não há exatamente responsáveis. A sociedade caminhou para onde estamos, nos trouxe até aqui, nos estimula. Somos consequência do mundo em que vivemos, dos valores do nosso tempo, da ciência e das informações de que dispomos, daquilo que nós e que os outros consideramos importante, ainda que discordemos um pouco (não vivemos numa ilha). Somos filhos do tal zeitgeist, o “espírito do tempo”.

E o espírito do nosso tempo é extremamente competitivo, individualista, frenético,workaholic (vida pessoal, esse palavrão, não gera lucro para as empresas capitalistas, afinal), artificial, contraditório, caótico, precoce, imediatista, consumista e eternamente insatisfeito. Por que as mães ficariam de fora?

O que nos resta, então? Refletir, refletir, refletir. Debater, debater, debater. Transformar, transformar, transformar. E olhar para os nosso filhos, acima de tudo, com os olhos livres desses óculos todos que nos fazem ver os pequenos sob o prisma do que o mundo quer deles, não do que eles querem do mundo e podem dar a ele.

Fácil não é. Mas também não é impossível. Minha segunda resolução -já colocada em prática- é respeitar as inclinações do Enzo e o tempo dele. Quando ele quer brincar no chão, tentar engatinhar, tentar andar, ajudo, estimulo, fico do lado. Quando ele quer colo, sombra e água fresca, é isso que dou. Quando me cobram largar meu filho, não dar colo, deixá-lo “independente”, não estou mais me calando. Digo que optei por uma maternagem na contra-mão mesmo, sinto muito, mas não vou na sua casa dar pitaco, né? Plis, não faça isso na minha. Faço isso por mim, mas também pelas outras mães. Circular conhecimento. Esse é o nome do jogo.

Também decidi -faz tempo, o que faz dela minha primeira resolução- priorizar mesmo Enzo. Meu tempo é dele. Ponto. Isso me custa correrias extras no trabalho, mas vale muitíssimo a pena. Qualidade também é quantidade nesse caso. E como eu posso (tem mãe com bem menos sorte), não vejo razão para não fazer isso.

E -terceira resolução, que na verdade é consequência de uma resolução maior (fugir dos modismos consumistas)- optei por mudar um pouco as coisas com a festa de um ano do Enzo. Estava planejando contratar especialistas e buffet para fazerem o aniversário dele. Mas mudei de ideia e vou fazer tudo (com exceção dos salgados). Não quero inserir Enzo desde sempre nessa coisa capitalista de competição pela festinha de aniversário mais “bacana” (leia-se mais cara e cheia de coisas supérfluas). Quero uma festa linda, claro, mas feita por nós, cumprindo todas as etapas, participando de todos os processos, com as nossas possibilidades reais, sem disfarces dados por especialistas.

Meu bolo não vai ter três andares e pasta americana. Mas vai ser delicioso, feito com muito amor, bem bonito, saudável, orgânico e sem porcarias. Enzo vai poder comer o próprio bolo!

Enfim, estou refletindo. E saindo da caverna.

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dou colo em livre demanda sim

Enzo adora colo, não é segredo para ninguém. E quem lê o blog sabe que sou coleira convicta. Mas parece que isso incomoda demais as pessoas que, de um jeito ou de outro, convivem com meu filho, ainda que só de vez em quando. Tenho sido cada vez mais cobrada e questionada. Uns acham que Enzo manipula a mamãe, o maquiavélico. Para outros, eu tenho é preguiça de educar. Pelo que tenho visto por aí, não sou a única a ser cobrada/questionada. O paradigma hegemônico diz que o “certo” é deixar bebês chorando, pois são todos uns manhosos.

Eu não ia escrever sobre isso. Sinceramente, não me incomodo com as críticas. Sei que as pessoas, na maioria das vezes, estão tentando “me ajudar”, sei que o senso comum determina que colo é mau, já sabia que a pressão viria, de modo que estou preparada para lidar com ela. Dou a resposta-padrão “li muito sobre isso, acho que dar colo é ótimo, não se preocupe”, sorrisinho e assunto encerrado.

Mas eis que um casal que está pensando em ter filhos veio conversar comigo sobre isso no fim de semana. Eles queriam entender porque a gente faz diferente aqui em casa e disseram que se surpreenderam com a calma do Enzo. Queriam saber se a cria é tão sossegada e sorridente por causa do colo. E confessaram que estavam curiosos, pois tudo o que ouvem vai no sentido contrário, no sentido do “não dê colo”.

Então achei que valia um post para explicitar parte das minhas convicções. Começo dizendo que, como a maioria, fui orientada por todo mundo -de obstetra e pediatra a parentes- a não dar colo para o Enzo. E acreditei nisso. E achei que faria isso. E achei que Enzo teria de ser “treinado”, teria de me obedecer desde sempre, caso contrário, me manipularia, abusaria, viveria sem limites.

Mas eis que no caminho encontrei a blogosfera e a Mari e Gonzalez,  Laura Gutman, John Bowlby, Donald Winnicott, Sue Gerhardt (e seu lindo Why Love Matters), a Associação Internacional de Parentagem por Apego. E aí tudo mudou. Refleti, refleti, refleti muito, e percebi que dar colo não só é algo muito natural (genético até) como é altamente desejável.

Fiz escolhas conscientes como mãe. Até onde tenho domínio racional sobre minhas ações (e olha que sei que, na prática, é bem pouquinho), escolhi ser a mãe que sou, a maternagem que ofereço, com a qual me identifico. Até onde consigo controlar (de novo, bem pouquinho), procuro não reproduzir por reproduzir um jeito “x” ou “y” de maternar, procuro pensar sobre os porquês de fazer ou não fazer isso e aquilo e, de novo, escolho aquilo com o qual me identifico. E tenho como parâmetro nessa análise o bem estar e o desenvolvimento emocional do meu filho.

Isso significa que: não sou escrava do Enzo, nem manipulada por ele. Pelo contrário. Dou colo em livre demanda, sim, pois decidi dar, pois acredito nisso como a melhor forma de maternar e amar uma criança. Dou colo em livre demanda, porque acredito no que diz Carlos Gonzalez: os filhos precisam do colo para se sentirem amados, amparados, seguros. Assim como nós, adultos, temos nossos rituais de segurança, os bebês têm os deles, o que inclui colimdimamãe.

Aqui rola colo à vontade porque aplico a maternagem por apego, cujos pressupostos incluem me colocar no lugar do bebê, o indefeso, e não o contrário. O neném, recém-chegado nesse mundo, é que precisa ser protegido e acalentado, é quem está confuso, perdido e assustado, é quem olha para a mãe esperando dela a calma necessária para ajudá-lo a organizar o turbilhão de emoções e novas experiências que ele vivencia. E o toque, o holding (vide Winicott) é que vão dar, em larga medida, a segurança de que precisa o pequeno para ir organizando, a seu tempo, o seu mundo interior.

Respondendo à pergunta que os amigos fizeram, acho que sim: colo colabora muito para manter Enzo mais calmo, tranquilo e sorridente. Claro que a personalidade dele ajuda muito, é até determinante, penso. Mas colo, carinho, afago, tudo isso evita estresse e frustração, com os quais ele não saberia lidar pela pouca idade. Sobre isso, recomendo muito essa entrevista aqui, com a Sue Gerhardt, psicóloga inglesa especializada no desenvolvimento do sistema nervoso.

E dou colo em livre demanda porque quero, porque me dá prazer ter meu filho coladinho em mim, porque obviamente dá muito prazer a ele estar coladinho a mim, recebendo abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. E rindo. E mordendo meu nariz. E sendo feliz. Por que não?

Quer dizer que não estimulo Enzo a brincar sozinho, engatinhar, ficar no chão livre, leve e solto? Claro que estimulo. Claro que brinco com ele, que o incentivo a desenvolver habilidades motoras e sensoriais para as quais ele precisa estar autônomo, sentadinho no sofá, num cercadinho, num tapete. Mas faço na medida do desejo dele, do interesse dele, da inclinação dele, não da minha conveniência. Se ele quer carinho no colo, vai ter. Se está interessado em brincar, vamos brincar no chão, ajudá-lo a desenvolver a coordenação motora, a fortalecer seus músculos etc.

Isso também significa que não sou mole nem deixo para lá na hora de mostrar limites. Só que meus limites são um tanto diferentes dos limites dos outros. Não vejo meu filho alguém que deve ser “ensinado” a se adaptar às minhas necessidades. A adulta sou eu, a mãe sou eu, eu que tenho que me adaptar às necessidades do pequeno e provê-lo de tudo quanto ele necessite enquanto ele ainda precisar que seja assim, seja mamadeira, seja colo. Colo nada mais é que desejo de amor e proteção, desejo de locomoção (para quem não anda), desejo de ver o mundo de um outro ângulo, curiosidade. Se negar todas essas coisas lindas a um bebê que, óbvio, minha gente, só depende de mim, é impor limites, não quero impor limite nenhum.

Acredito que, para o bebezico, “mamãe te ama” é colo, calor humano, carinho, estômago cheio, fralda limpa, brincadeiras, atenção. E tudo isso requer dedicação, proximidade (física inclusive), disponibilidade, disposição. Botar  “limites”, ainda mais esses limites, não faz o menor sentido nesse momento do desenvolvimento dos pequenos.

Não acredito em manha. Bebês têm direito de chorar por coisas que queiram e isso não é “fazer manha”. O tipo de maternagem que escolhi é aquele em que meu filho pode se comunicar comigo, da maneira que consegue, e exprimir suas frustrações, ainda que esteja frustrado simplesmente por não poder pegar determinado brinquedo. Não acho isso ruim ou tentativa de manipulação ou má-fé, como pressupõe a palavra. Para o que é importante para mim, não rola deixar bebê chorando e ensiná-lo a não reivindicar seus interesses, como se o desejo dele valesse menos que o meu. Isso é igual a fazer tudo o que o bebê quer? Não, nem seria saudável. Mas é igual a ouvir o bebê e levar em conta seus interesses, seu ponto de vista, ao invés de deixá-lo chorando sozinho porque ele é “manhoso” e “só quer colo”.

Porque eu acredito que, se a questão é evitar que os filhos sejam “tiraninhos” quando um pouco maiores, o caminho é o inverso. Com um ano, um ano e pouco, o bebê vai desobedecer mesmo. Não por falta de limite, mas por curiosidade, porque esquece recomendações. Nesse caso, o ideal vai ser distrai-lo e chamar sua atenção para outras coisas. Enchê-lo de “não” só vai vulgarizar a palavra.

E, quando for ainda maior (2, 3 anos), confrontar a ordem dos pais vai ser reafirmar sua personalidade, pois é nessa fase que as crianças começam um processo de individualização: testam quem são, do que gostam, o que preferem, de que forma colocar as preferências em prática. E, assim como na adolescência, a melhor forma de ser você é deixar de ser o outro (os pais). Daí a confrontar abertamente é um passo. Só que sabe qual criança vai passar por essa fase mais tranquilamente? Aquela que tem vínculo de melhor qualidade com os pais, aquela que se sentiu mais amada e protegida lááá atrás, na fase bebezica. Sabe qual? Essa mesma, a do colo, a “viciadinha”-dependente-que-“fazia-manha”. E não estou sozinha nisso. Dê uma boa olhada aqui e aqui. Aliás, isso ainda rende outros posts, no forno. Até porque não pratico “maternagem de resultados”. É muito bom que bebê coleiro seja mais tranquilo até nas fases emocionalmente confusas, mas faço o que faço por princípios. Ainda que os resultados fossem “piores”, ainda que fosse mais “eficiente” não dar colo, daria.

E chegamos ao ponto da tal independência, que parece que virou o objetivo principal de pais e mães. Independência é desejável? Muito. Já disse em algum outro post que crio meu filho pro mundo, para se encontrar, para se virar, para saber se respeitar e respeitar os outros, para viver suas próprias experiências, fazer suas próprias escolhas, trilhar seu caminho, sem interferências. Minha função como mãe, minha tarefa maternal, é ajudar Enzo a SER ELE MESMO, seja lá o que isso signifique, seja lá quanto tempo ele demore para descobrir quem é (se é que vai descobrir completamente), seja lá onde isso o leve. Não quero, não vou nem posso interferir numa jornada que é dele, só dele. O que quero, posso e vou fazer é ajudá-lo a estar pronto quando as escolhas começarem a cercá-lo, quando for preciso optar pelos caminhos. E ampará-lo se ele precisar.

Se minha tarefa é ajudá-lo a estar pronto, minha tarefa é prepará-lo, ajudar a prepará-lo. Pois eis que, para estar pronto lá na frente ele precisa se fortalecer agora, precisa se saber amado, protegido, precisa de fundação, de raízes, de um porto-seguro. Saca o tal “resiliente”? Ele só é resiliente porque as pontas são flexíveis, mas a raiz é sólida. Raiz sólida é amor, é autoestima, é reconhecimento de si próprio como capaz e amado. E, para isso, é preciso dependência completa quando o bebê for completamente dependente. Não é óbvio? Não é óbvio que exigir independência de um ser emocionalmente dependente é queimar etapas que, lá na frente, farão falta? Não é óbvio que quanto mais eu respeitar os limites do meu filho e suas necessidades físicas e psíquicas agora, mais independente ele será no futuro, quando estiver pronto para isso?

Gonzalez definiu muito bem (sempre ele) duas correntes de maternagem/paternagem/palpites. Ele falava, na verdade, sobre pediatras, mas vale para todo mundo. De um lado, os que pensam que tomam partido dos pais. Esses acham que os bebês devem ser treinados desde o primeiro dia para a independência, que deve chegar ainda na bebezice. Nesse caso, os pais só estão autorizados a fazer coisas relativas às necessidades básicas físicas ao bebê, como dar de comer, limpar, dar banho. Serão maus pais se derem colo, se ninarem para dormir no colo, se deixarem chupetar o peito, se estimularem o bebê a experimentar o mundo pelo afago “colístico” da mãe.

E há o outro grupo que entende que não há lado nessa história: mães e bebês vivem em simbiose, não se opõem, se complementam. Esse incentiva o colo, a amamentação em livre demanda, cama compartilhada, calor humano, satisfação dos prazeres e desejos do bebê, amor em manifestação livre, dependência, muita DEPENDÊNCIA. Eu faço parte, seguramente, desse grupo.

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