Arquivo da tag: maternidade

autoficção

Ela estava saindo do supermercado, satisfeita por ter encontrado tudo o que precisava numa mesma loja, evitando, assim, o desgaste e a perda de tempo de ter de ir achar o que eventualmente faltasse noutro lugar.

Salsinha, alho poro, batata inglesa, cenoura, suco integral de uva, um pacote de lentilha seca e outro de arroz. Tudo confortavelmente distribuído em duas sacolas retornáveis de ráfia, produzidas na China, que não custaram mais de R$ 2 cada uma (embora devessem custar bem menos, tendo em vista o que provavelmente recebem as mulheres chinesas que costuram as sacolas, pensou).

Distraída, comemorando que, afinal, não estava atrasada pela primeira vez em vários dias, já passava da metade do estacionamento, quase alcançando a fronteira entre a calçada privada e a pública, quando finalmente percebeu que alguém a estava chamando (“ei, ei, ei!”).

Olhou em volta e demorou outro tanto para reconhecer aquele rosto que sorria e a mulher cujas mãos acenavam, logo ali, à esquerda, alguns passos adiante. Era Eulália, moça, assim como ela própria, de uns trinta e poucos anos. Tinha dois filhos, um menino de cinco e outro de dois.

As duas moravam perto e encontravam-se sempre por acaso pelos estabelecimentos do bairro. Os meninos –os de Eulália e o dela própria—já haviam brincado juntos em algumas ocasiões, numas dessas vezes em que se encontraram por aí num golpe de sorte.

Abraçaram-se longa e afetuosamente. Afeto genuíno, apesar da pouca intimidade. Não se viam, seguramente, desde novembro e, àquela altura, janeiro já ia pela metade. Partiu dela para Eulália a pergunta convencional, automática:

-Oi, tudo bem? Como você tá?, disse, ainda enquanto desenlaçava os braços, sorrindo muito, algo empolgada (sinceramente empolgada).

Esperava um “estou bem. E você?” -que não veio. Eulália desfez ligeiramente (inconscientemente?) o sorriso receptivo com que conduzira o encontro até então e o transformou num mostrar de dentes quase sarcástico, meio de lado, meio nervoso.

-Estou levando, respondeu, desanimada. -Você sabe, né?, essa coisa dos dois anos, criança pequena…, olhou pra baixo. Como você conseguiu?, suspirou, sincera.

Ela assustou-se com a resposta-pergunta de Eulália. À princípio muito menos com o que estaria justificando-a do que com a quebra do acordo tácito segundo o qual esse tipo de pergunta (“oi, como vai, tudo bem?”), sendo relativamente vaga, superficial, automática e blasé, só pode ser respondida com o vago, superficial, automático e blasé já citado “estou bem. E você, como vai”?

Lembrou-se do Chico Buarque (“olá, como vai?, eu vou indo, e você, tudo bem?”).

Sorriu, meio envergonhada.

Pegou de surpresa a sinceridade. Uma mãe, ali na sua frente, sendo apenas um ser humano. Cansado, esgotado, um tanto perdido. Como de resto estão todos. Teria respondido, se pudesse, ao Pessoa: “aqui, aqui, aqui há gente no mundo”. Porque ela também sempre estivera –às vezes mais, às vezes menos– farta de semideuses.

Sorriu de novo, dessa vez sem pudores, e desejou abraçar Eulália de novo, só pela lindeza da cena, só pela coragem do gesto, só por ter se despido ali, assim, naquela ousadia de início de desabafo. As máscaras nunca dão conta da imensa beleza daquilo que escondem.

Concentrou-se novamente em Eulália ao perceber a expressão carregada, crispada, o silêncio pesado e a espera por algum acolhimento, algum conforto, alguma palavra que ajudasse a diminuir a pressão da qualquer coisa que agora lhe pesava os ombros duplamente (pelo que era e por ter sido mencionada a uma semi-desconhecida que emudecera e meio-que-sorrira em silêncio por longos cinco ou seis segundos).

Pensou que o filho a estava esperando para almoçar e ir para a escola. Mas uma certa urgência, uma necessidade, muito mais que uma opção, a colou no chão daquele lugar, daquele estacionamento, e mover-se para fora dali tornou-se quase fisicamente impossível.

Ficou para acalmar a mãe que ousava confessar sua impotência diante do filho (ou da maternidade?), ali, nas entrelinhas daquela frase, mas aos poucos notou que ficara para acalmar a si mesma, porque reconhecer-se naquela mãe e ver ali uma igual totalmente imperfeita e totalmente profana, como ela própria, era um alívio quase sem precedentes.

Quis mostrar, com certa ansiedade até, que entendia, que se irmanava, que se reconhecia naquela imagem aflita que via nos olhos da outra, que sim sim sim, qualquer que fosse a razão daquele “estou levando” e daquele “como você conseguiu?”, ela era justificada e a experiência era compartilhada, igual -mesmo diferente.

-Poderia dizer que não é fácil, porque não é mesmo. Mas seria lugar-comum demais, sabe?, disse, finalmente, pensando que uma conversa que começou tão promissora não poderia ser mantida na superficialidade. -A resposta mais honesta que tenho é: não faço a mínima ideia. Quase nunca sei com certeza o que fazer, como agir, e minha experiência é ligeiramente pendular: ora ajo assim, ora ajo assado. Mas sinto sempre que ora erro, ora erro também. Isso faz de mim o quê?

-Uma mãe?, arriscou Eulália.

Ambas riram. No começo aquele riso algo nervoso, algo contido, preso em um corpo rígido de tanta culpa. Depois o riso foi saindo pelos cantos, pelos olhos, pelos poros, escapando, relaxando um pouco os músculos e dando vazão a uma certa vergonha, gerada e gestada pela maternidade idealizada, sacralizada e, paradoxalmente, ególatra, que ocupa o imaginário coletivo, subverte arquétipos, enrijece afetos.

Depois, o que era fio de água virou rio caudaloso, e as duas moças gargalharam, sacudiram, trepidaram, estenderam-se e ensolararam-se de tanto rir.

E então veio um suspiro, seguido de um olhar camarada, cuja piscadela cúmplice não houve de fato, mas esteve subentendida o tempo todo e, talvez por isso, foi ainda mais presente e perene do que se tivesse havido, com a duração efêmera de seus dois ou três segundos.

-O maior é tranquilo, sabe? Mas o pequeno… Ele tem tanta energia, e é tão autônomo. Não dou conta. Quando eu vejo, ele já pulou na piscina, já caiu do sofá, já correu pra longe. Eu? Eu estou sempre no ainda. O menino funciona no já. Fusos diferentes.

Riram novamente.

-O meu já é desafiador. Precisa entender tudo e, mesmo assim, periga não aceitar. As negociações são intermináveis e, em algum momento, acabo me tornando, com frequência, a mãe que ameaça, a mãe que eu não queria ser.

-Ninguém é.

-O quê?

-A mãe que queria ser.

Riram.

A conversa foi seguindo, seguindo, seguindo, vida própria, asas próprias. Era quase possível ver angústias antigas ganhando asas e escafedendo-se junto com o vapor do hálito que escapava das bocas abrindo e fechando, das línguas subindo e descendo enquanto as palavras, aquele amontoado de sons que poderia não significar nada (literal e figuradamente), dava abrigo e fazia capa às culpas fugitivas, aladas.

De relatos e mais relatos -por vezes hilários, enternecedoras e acachapantes- de situações cotidianas, prosaicas e comezinhas da maternidade, ela e Eulália vagaram indistinta e não-linearmente por outros temas transversais. Sexo. Carreira. Dinheiro. Tempo. Livros. Vinhos. Louça suja. Máquina de lavar quebrada. Jornalismo. Design. Frilas. Teatro. A casa de co-work que abriu, cê viu?

O sol esquentava cada vez mais. As sombras sumiram. Devia ser meio-dia já quando Eulália e ela finalmente moveram-se, cada qual para um lado do estacionamento, em seguida cada qual para uma direção na mesma rua.

Ela voltou caminhando a passos largos. Olhara no relógio logo depois de se despedir e, de adiantada que estava, atrasara-se muito. Não daria tempo de o filho almoçar as lentilhas, tampouco conseguiria adiantar a sopa de batatas com alho poró. Mas as sacolas estavam mais leves.

Olhou para trás ainda mais uma vez, justo a tempo de acenar para Eulália, sorrir um sorriso cúmplice e tocar a vida.

**********

PS: escrevi esse post sob efeito de um alucinógeno -totalmente lícito, diga-se, embora tenha sido perseguido em Portugal. Alucinógeno esse popularmente chamado entre seus heavy users (eu inclusa) de “Saramáximo”, cujo nome científico é José de Sousa Saramago. Entre seus principais efeitos está uma comichão nas tripas, um encantamento arrebatador, às vezes lágrimas, outras tantas um desejo ardente de escrever, escrever, escrever. Causa dependência severa -de seus livros, de lirismo, de ironia, humor sagaz & crítico, de literatura e de lindezas de modo geral, seus principais princípios ativos.

1 comentário

Arquivado em Maternidade, reflexões

com licença

A gente já falou tanto em licença maternidade e paternidade, em apoio para exercer uma maternagem ativa sem necessariamente abrir mão da vida profissional, em participação do pai no processo, na importância da presença amorosa e disponível dos pais no começo da vida das crianças… E eis que hoje, via a mulherada antenada lá do feice, descobri um documentário justamente sobre tudo isso.

O “Com Licença”, projeto do Urbanmoms, está no Benfeitoria aguardando apoio financeiro. A ajuda será benvinda até junho pro projeto emplacar. Mas a gente já pode ir vendo o trailer desde já pra ter uma ideia da relevância do conteúdo e do debate proposto:

Deixe um comentário

Arquivado em Maternidade, profissão

mais licença, menos creches

“É preciso uma aldeia para criar uma criança”

provérbio africano

Então a questão carreira x maternidade tem aparecido com força nas minhas relações novamente, seja nas mesas de bar, seja nos meus estudos/inquietações filosóficas, seja nas minhas avaliações sobre convicções pessoais, nos blogs que leio e nas redes sociais. Já abordei o tema várias vezes (aqui, por exemplo; mas também aqui e aqui) e entre ontem e hoje participei de um bate-papo virtual sobre o tema (e outras coisinhas) com algumas queridas no facebook.

Daí encontro esse vídeo, do pediatra José Martins Filho, sobre a importância do vínculo, dos cuidados e do afeto no início da vida da criança, principalmente no período que compreende a gestação e vai até os dois ou três anos.

E, entre muitos pontos essenciais, ele toca no assunto da licença maternidade de fato, não essa aí que temos hoje, que, cá entre nós, não serve para muita coisa. É precisamente a licença maternidade –e outros arranjos trabalhistas que possibilitem à mãe cuidar dos filhos e trabalhar ao mesmo tempo— o que precisa ser colocado em questão quando se fala em carreira (*) x maternidade.

Já contei que, para mim, não existe esse negócio de carreira versus maternidade. O versus entrou na equação apenas porque nossa sociedade (da qual fazemos parte, vale lembrar) não está nem aí para mulheres e crianças (assim como para muitos outros grupos), sejamos sinceros. As necessidades consideradas exclusivamente femininas e as necessidades consideradas exclusivamente infantis são ignoradas solenemente.

[Parêntese: estou falando em maternidade, necessidades femininas, mas não quero excluir a paternidade e os homens da equação. Uso esses termos por duas razões, basicamente: 1) as mulheres ainda são as que assumem a maior parte da responsabilidade na criação dos filhos; ainda é dela que se cobra deixar a carreira para ficar com os filhos ou vice-versa; ainda é a mulher que se coloca em questão em relação à carreira quando vira mãe. 2) algumas funções biológicas só mesmo a mãe pode cumprir (ou cumprir bem), como parir e amamentar. Mas acho os pais fundamentais, acho que há espaço para eles atuarem muito mais e volto a isso daqui a pouco.]

Então, na prática, expomos mulheres à situação dolorosa (torturante, eu diria) e absurda (sob todos os pontos de vista, mas especialmente sob o biológico, orgânico, natural) de ter de escolher entre se sustentar ou ficar com os filhos; de ter de deixar seus filhos muito pequenos com estranhos enquanto se remoem nas firmas para pagar as contas no fim do mês; de ter de se humilhar (como se tivesse pedindo favor) e aceitar pressões psicológicas e até financeiras (ganhar menos do que um colega homem, por exemplo) porque precisa ajustar alguns horários a necessidades do filho (amamentação, saídas para pediatras etc); de ter de abandonar qualquer possibilidade de trabalho remunerado e depender inteiramente de outra pessoa.

É um absurdo obrigar uma mãe a voltar ao trabalho com quatro meses de parida. Assim como é um absurdo obrigá-la a não voltar ao trabalho.

Isso sem falar do ponto de vista da criança, que o vídeo do José Martins aborda bem.

O que mais me incomoda nisso tudo é o pressuposto. Quando discutimos a questão social e publicamente, circulamos (como disco riscado) apenas em dois pontos: creche e maternidade. Partimos, portanto, da ideia de que o ideal é oferecer mais vagas em creches, afastar as crianças de casa, deixá-las mesmo com estranhos e “liberar” a mãe para o trabalho. Uma intervenção cada vez mais precoce do mundo considerado masculino (competição, conquista, poder, obejetivo, busca), socialmente valorizado, no mundo considerado feminino (da conexão, do cuidado, das relações, do encontro), socialmente desvalorizado.  Fica claro porque isso acontece, certo? Se valorizamos mais o trabalho que as relações, o “melhor” é ter creches para as mães deixarem as crianças e cuidarem do que “importa”.

Segundo ponto que me incomoda é que a discussão raramente inclua os homens, os pais. Se fala em creches para as mães, em licença de seis meses para as mães e em mães que largam o trabalho na firma e empreendem, em apoio à mãe empreendedora etc.

Como eu comentei na conversa lá no facebook, para mim o foco está invertido nos dois casos: o dinheiro que o governo e (algumas poucas) empresas gastam com creches seria muito melhor empregado em licenças maternidade e paternidade decentes, um ano no mínimo, dois no ideal (a OMS recomenda amamentação por pelo menos dois anos, lembra?).

Os pais (homens) poderiam ter licenças de fato e assumir parte das tarefas e da troca de afeto com os filhos no dia a dia, liberando a mãe para o trabalho nesse período. E as crianças –com pais e mães ou pais ou mães por perto– cresceriam num ambiente bem mais adequado que numa escolinha abarrotada de crianças sendo “cuidadas” por três ou quatro cuidadoras.

Para mim, os pontos centrais do debate sobre carreira versus maternidade são justamente as licenças para quem trabalha em regime de oito horas diárias e o estímulo ao aumento de participação masculina na vida familiar, coisas que o José Martins cita no vídeo, e que não é comum de serem mencionadas, daí eu ter vindo aqui compartilhar.

Isso não resolve o “problema”, que é precisamente uma sociedade que desvaloriza o que há de mais importante, que é a vida, manifestada na criança e na mãe que a pariu. Uma sociedade que desrespeita crianças está fazendo alguma coisa muito errada. Sair fora da caixa é o caminho, o meu caminho. Cada vez mais eu vejo e entendo que posso criar a vida que quiser e que tanto faz como as empresas lidam com a maternidade, porque eu sei como eu vou lidar com a minha e cada pessoa pode lidar com a sua da forma que achar melhor. Mas como nem todo mundo pode –materialmente–ou quer fazer isso por conta própria, acho que a licença materpaterna decente já seria um bom começo, um passo na humanização e no reconhecimento real dos direitos das mães e das crianças.

(*) carreira aqui é mais sinônimo de trabalho remunerado e razoavelmente estável do que de construção de uma jornada profissional “ascendente” e “bem sucedida” no mundo corporativo

4 Comentários

Arquivado em Maternidade, paternidade, profissão, reflexões

da série #maedemerda {#1}: ele só quer presença

Ele só quer presença, só quer que eu esteja por perto, conectada. A proximidade física é irrelevante se não houver proximidade emocional e, como disse a Ana Thomaz (vídeo imperdível, acesse por aqui e ou veja no fim do post), as crianças ouvem o que a gente sente, não o que a gente fala.

Mas acontece que tem dias em que eu não quero e/ou não posso ser essa mãe presente. Ou porque estou mesmo sem disposição para ficar sentada ao lado dele brincando ou porque estou a fim de terminar de ler aquele livro ou porque simplesmente tenho alguma tarefa para cumprir.

{Parêntese rápido: a Gutman já tinha dito que a fase fusionada, mãe-filho-uma-coisa-só, começa a afrouxar lá pelos dois anos dos pequenos. E aí interesses da mãe que ficaram suspensos no período de fusão vão, aos poucos, ganhando importância novamente. Estamos nesse momento por aqui}

Nesses dias, ele briga muito. Não consegue me conceder esse espaço, talvez porque seja ele quem precise das minhas concessões, não o contrário. Exige –não pede– ainda mais presença do que normalmente. Chora muito, grita muito, me puxa, tenta me bater, se joga no chão, arremessa as coisas longe, chora com raiva, chora de impotência, depois chora sentido.

E aí eu erro e falho duplamente: nem presente, nem firme. #maedemerda vezes dois: eu, que sei que ele só quer a mim –mas sei também que preciso ensiná-lo a não agir com essa agressividade toda–, acabo culpada, sem convicção para educar meu filho, para mostrar a ele que não vai obter o que quiser se comportando dessa forma. Eu tento. Mas, em geral, ou perco a paciência e, mesmo me contendo, acabo agindo de forma impositiva e agressiva especialmente na linguagem corporal e no tom de voz (o que frustra todo o processo e vira um anti-exemplo) ou fico com dó por achar (saber?), lá no fundo, que tudo o que ele quer é presença. A minha presença. Que eu nego, mesmo quando cedo e sento junto. Porque meu filho está ouvindo o que sinto e sabe que não estou lá.

*O vídeo imperdível da Ana Thomaz (dura mais de 60 minutos, mas eu recomendo muito, já vi e revi inúmeras vezes):

4 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

as mulheres que existem são melhores

Visitando, hoje cedo, o blog da Flavia Fiorillo –o Mamãe sabe tudo–, descobri essa história incrível aqui.

Daí que a filha de uma fotógrafa fez cinco anos. Daí que a mãe resolveu botar a cabeça para pensar em como poderia homenagear a filha aniversariante. Daí que ela se deparou com uma infinidade de meninas vestidas de barbie ou de princesas disney. Daí que ela resolveu ir pelo caminho inverso.

Escolheu cinco mulheres reais e admiráveis e fotografou a pequena caracterizada de cada uma delas. O resultado: sensacional, lindo e delicado, que você pode conferir aqui. As entrelinhas, nem tão entrelinhas assim: “deixe de lado as barbies e as princesas disney só por um momento e vamos mostrar às nossas garotas mulheres reais que elas podem ser”.

E quer saber? As mulheres reais, que todas as nossas garotas podem ser, são bem (mas bem mesmo) mais interessantes que qualquer princesa disney. Isso fica bem evidente dando só uma olhadinha nas mulheres que Jamie C. Moore, a fotógrafa-mãe, escolheu para a homenagem da filha Emma:

Susan Anthony, feminista que conquistou o direito de voto às americanas

(*)

(*)

Coco Chanel, estilista, empresária, inventou o tailler e a calça feminina

(*)

(*)

Amelia Earhart, aviadora e primeira mulher a atravessar o Atlântico num voo solo

(*)

(*)

Helen Keller, romancista, pensadora e ativista; cega e surda desde criança

(*)

(*)

Jane Goodall, primatóloga e antropóloga britânica que estuda a vida dos chimpanzés na Tanzânia há 40 anos; foi o primeiro pesquisador a descobrir que esses animais fabricam e usam ferramentas rudimentares

(*)

(*)

Não acho que todas as escolhidas são os melhores modelos femininos ever (eu tiraria algumas, botaria outras), mas tenho certeza de que qualquer uma delas é um exemplo mais saudável para meninas e para meninos do que a princesa Aurora, a “bela adormecida”.

Oferecer esses modelos à filha pequena e, mais que isso, estimulá-la se enxergar na figura dessas mulheres admiráveis é, desculpe o clichê, o melhor presente que a menina poderia ter recebido da mãe. A ação da fotógrafa é também uma proposta de reflexão dupla para nós, mães e pais:

1) temos de nos perguntar constantemente quais são os modelos de mulheres e homens que queremos mostrar a nossos filhos.

2) é possível “pensar fora da caixa” e, mesmo em meio à superexposição de princesas e afins, transmitir outros valores aos pequenos.

O post da Flavia Fiorillo e o trabalho da Jamie C. Moore estão aí pra dar o chacoalhão inicial.

(*) As fotos são daqui, daqui, daqui, dali e dali, respectivamente.

4 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

quem tem um olho é rei

[“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade” ]

Laura Gutman

Que nome você daria a uma situação em que uma pessoa usasse a força para submeter outras à vontade dela? E que nome você daria à mesma cena caso a primeira pessoa usasse não a força física, mas a manipulação psicológica? Eu chamaria de violência. Tanto quanto eu chamaria de violência um assalto, um sequestro, um tapa na cara, uma agressão qualquer.

E me espanto muito quando poucas pessoas acham violentos os nascimentos hoje em dia. Vou explicar. Li esse post da Anne Rammi e, coincidentemente, uma pessoa muito querida passou por situação semelhante a uma das narradas no texto dela: informações pela metade e omissão de informações que culminaram numa cesárea desnecessária (como são a imensa maioria das cesáreas).

Fico aqui pensando com meus botões: o corpo que vai parir é da parturiente; a carne que vai ser cortada é dela também; a cirurgia vai agredir o útero da grávida; é o filho dela que vai retirado do ventre à força, com violência (sim, sim, nascer sem TP é, em geral, uma violência para o bebê); é o filho dela que não vai poder usufruir do cordão umbilical até que pare de pulsar; é esse recém-nascido que não vai poder ser afagado pela mãe nas primeiras horas, que não vai começar a mamar quando seu impulso de sucção é maior, que poderá ter sua amamentação prejudicada…

Essa mulher não tem o direito de decidir o que quer fazer de seu corpo e que tipo de parto deseja dar ao filho? Ser cortada, manipulada, exposta a uma cirurgia não deveria ser uma decisão de quem vai sofrer esse procedimento? Minha vontade sobre meu próprio corpo não deveria ser soberana?

Como fazer tudo isso se sonegam informações? Se alguém mente e diz que a única saída é uma cesárea, e aí a parturiente consente com a cesárea, esse consentimento é válido? Ela consentiu mesmo? Ou foi manipulada  e enganada para consentir?

Como decidir sofrendo uma pressão psicológica desde antes de engravidar? Como optar por um parto normal com a segurança necessária se médicos, mídia e senso comum fazem de conta o tempo todo (com má fé ou não) que PN é mais inseguro que uma cesárea, que parto em casa é mais arriscado que parto hospitalar? Como não ter medo de parir e acabar, por isso, recorrendo a uma cirurgia, aceitando a cirurgia e naturalizando a cirurgia como se ela fosse a via usual, adequada, própria para o nascimento?

O que fazer se os médicos partem do pressuposto de que um bebê precisa nascer antes da 40ª semana quando, na própria literatura médica, nada comprova esse “procedimento padrão”, dito pelos próprios médicos? Na teoria, todo mundo sabe –e ouve dos GOs– que a gestação normal numa humana vai de 38 a 42 semanas. Quem espera chegar à 42ª? Por que não? Quem foi que convencionou um limite de 40 semanas? E mais importante: por quê?

Colo fechado, quadril estreito, pouca dilatação, bebê grande demais, bebê “velho” demais, placenta “velha”, cordão enrolado no pescoço… Quantos argumentos curtos e grossos são dados às pressas para convencer mães a evitarem o PN sem que ao menos os médicos se deem ao trabalho de explicar o que esse monte de coisa quer dizer? Não podem explicar o inexplicável? Não podem dizer que, salvo raríssimas exceções, todas as mulheres dilatam, por exemplo? Não podem dizer que, na verdade, o problema com a sua dilatação é que ela não está acontecendo no tempo que o médico quer e que é mais lucrativo pro hospital?

Eu sigo tendo certeza de que manipular alguém para submeter o corpo desse alguém à vontade de outrem é nada mais que violência. E é uma violência dissimulada, travestida de “milagre da medicina”. Se as cesáreas –muito válidas e necessárias para salvar vidas quando prescritas adequadamente– fossem mesmo necessárias na proporção que são usadas hoje nos hospitais particulares, então estaríamos admitindo que mais de 80% das grávidas estariam mortas não fosse a cirurgia, que mais de 80% das parturientes chegaram à maternidade correndo risco, a despeito de terem acesso ao pré-natal mais eficiente ever. Estranho, não?

Não quero dizer que quem pariu de PN é melhor que quem pariu via cesárea. Pelamor, mulherada, vamos superar essa coisa de mais e menos; melhor ou pior, ok? Quero dizer só o que disse: estamos sofrendo violência e nem nos damos conta. Sequestraram um dos últimos bastiões da liberdade e da sexualidade livre da mulher, que era o parto; um dos poucos espaços onde a patrulha machista (feminina ou masculina) não se metia. Lá ninguém julgava, não dava palpites, não dizia que era “feio”, “pecado”, “proibido”. Não era preciso refrear emoções, era permitido gritar feito bicho, bater, ficar de cócoras, sangrar, gemer, uivar. E tudo era permitido.

Era.

Porque agora podemos ser “higiênicas”, “limpas”, “rápidas”, “quietinhas”, “passivas”. A passividade, tão valorizada como “característica” feminina, chegou ao parto. Basta tomarmos uma anestesia, alguém nos amarra as mãos e participamos tão ativamente do nosso parto quanto querem que participemos: nada.

Vamos ficar quietas até quando? 

**********

De onde saiu isso? Daqui, daqui, daqui e daqui. E, claro, daqui e daqui. Recomenda as leituras. A mulherada da madresfera finalmente está tirando as garras pra fora, no ótimo sentido. Rumo ao maternismo.

2 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

laura gutman: só lendo

Comecei a ler a Laura Gutman. Quem é mãe blogueira e frequentadora assídua da madresfera sabe bem de quem estou falando.Para quem ainda não sabe, Laura Gutman é uma psicóloga argentina, especializada em amamentação e no atendimento a crianças e casais. “Militante” da criação por apego, é fundadora da Escola Capacitação Crianza, onde atende mães e bebês e promove cursos para profissionais da saúde e doulas.

Laura escreveu o que acho que seja o mais importante livro sobre maternidade da nossa geração,  “A maternidade e o encontro com a própria sombra“,  justamente o que estou lendo agora, numa “sentada” só (impossível parar de ler!). Entre (muitas) outras coisas, ela mostra de que forma emoções que consideramos “ruins” e que pretendemos não reconhecer (a nossa “sombra”) se refletem nos nossos filhos.

Ela fala de gravidez, de parto, de amamentação, de comportamentos e doenças infantis, do papel dos homens, do prazer das crianças (e da nossa reação a ele), de limites e comunicação, de sono, de violência. E escreve sobre tudo isso com uma profundidade que eu não tinha encontrado antes em nenhum  “especialista”  que ousei ler.

A leitura de  “Maternidade”  é, ao mesmo tempo, prazerosa e dolorida. Gutman afaga e acolhe na medida em que nos ajuda a reconhecer que muitas das nossas falhas são “explicáveis”por um sistema de coisas que é alheio à nossa vontade; mostra que a maioria das nossas inclinações maternas –aquilo que a gente tem vontade genuína de fazer de bom pros filhos, mas que a sociedade recrimina–são heranças femininas que carregamos conosco há milênios e que, em última análise (como já disse Carlos González), permitiram a sobrevivência da espécie humana por essas bandas.

Mas também é soco no estômago porque nos força a reconhecer que a parte de nós que nos esforçamos tanto para esconder nossos filhos trazem à luz. É difícil engolir que, de repente, aquela atitude que tanto irrita na criança é apenas RESPONSABILIDADE sua ou a manifestação externa, no bebê, de um conflito SEU.

Também pode ser complicado para algumas mães refletir sobre a maternidade que praticam. Gutman, assim como González, adota o ponto de vista do bebê. Ou seja, não se preocupa muito em passar a mão na cabeça das mães. Ao contrário, aponta como funciona a psiquê dos pequenos, a “fusão” com a mãe nos dois primeiros anos de vida, a “exterogestação”, que dura os primeiros nove meses, e a consequente importância que a figura materna tem na formação da personalidade das crianças. Sem medo de cutucar as mães, ela mostra o IDEAL de maternidade para a CRIANÇA (não para a mãe, nem para o marido, tampouco para o mercado de trabalho).

Enfim, muito mais do que um manual do tipo “faça isso, não faça aquilo”, o livro é uma espécie de “reflexão guiada” sobre si mesma e sobre o universo da formação da personalidade dos bebês. É profundo e libertador.

Mesmo ainda na metade, recomendo. Ainda ruminando o que tenho lido, separei algumas frases para compartilhar por aqui:

“O selvagem torna todas as mulheres saudáveis. Sem o lado selvagem, a psicologia feminina fica desprovida de sentido”.

“O mundo seria outro se as salas de parto fossem menos silenciosas, se no início da relação entre os seres humanos houvesse espaço para as emoções, se a desumanização não abrangesse as áreas da boa vinda ao mundo”.

“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade”.

“Talvez este [o parto] seja o espaço mais sutil encontrado por toda a sociedade para se permitir exercer o controle, os maus-tratos e o ódio sobre o poder infinito das mulheres que estão parindo”.

“Quando [o bebê] mama com mais frequência, isso não acontece, necessariamente, pelo fato de o leite não ser suficiente. Pelo contrário, é porque é um bebê ativo, conectado e feliz”.

“Um bebê se constitui um ser humano na medida em que está em total comunicação com o outro, de preferência a mãe. (…) o tempo todo de colo, calor, abrigo, movimento, ritmo”.

“A possibilidade de sugar, ingerir e satisfazer a fome deveria estar disponível cada vez que o bebê pedisse”.

“Deveríamos refletir sobre o poder que exercemos sobre elas [as crianças], na posição de adultos, dizendo arbitrariamente quando é justo oferecer alimento e quando isso não é adequado ou merecido”.

“A alma não registra o tempo”.

“Somos uma sociedade extremamente violenta com nossas crias. Insistimos em não atender as queixas dos bebês, que dependem exclusivamente do cuidado dos adultos”.

Esse são só alguns exemplos, o livro é repleto de ideias complexas, que precisamos “marinar”  com calma. Para quem se interessou, também recomendo um vídeo que as meninas do Mamatraca fizeram para registrar a palestra da Gutman no Brasil. Elas editaram as melhores partes do seminário, que podem ser conferidas aqui ó.

4 Comentários

Arquivado em Maternidade, parentagem por apego, reflexões

dilema revisitado # 1: o dilema

Sabe o dilema por excelência de quem é mãe, a dúvida “carreira x maternidade”? Pois é, não passei por ele. Quando engravidei, já estava trabalhando em casa, frilando em home office, e decidi que manteria esse arranjo depois que Enzo nascesse. O objetivo, óbvio, era ficar perto do meu filho, suprir suas necessidades (de afeto e colim-di-mamãe inclusive), acompanhar seu desenvolvimento e evitar que ele fosse, bebezico, parar numa dessas escolinhas tipo “estacionamento” de bebê, sabe como?

Outra razão pela qual passei ao largo dessa dúvida é que nunca tive propriamente uma dúvida, uma opção. Não considero como hipótese viável parar de trabalhar. Primeiro porque não quero. Amo o que faço, ser jornalista é parte do que me define como pessoa, escolhi essa carreira aos 13 anos e, antes disso, aos 6, por mais precoce que pareça e guardadas as devidas proporções,  já sabia que trabalharia escrevendo. Ganhei uma máquina de escrever dos meus pais com 7 anos e, dias depois, já tinha escrito um “livro” e tentado vendê-lo ao jornaleiro da esquina.

Acho importante dar atenção integral ao Enzo, sei que ele precisa disso e que, especialmente nos dois primeiros anos de vida, o contato com os pais, a proximidade, a disponibilidade irrestrita e o afeto são essenciais para o desenvolvimento emocional sadio dos pequenos. Mas também sei que eu preciso estar emocionalmente saudável para criar um filho emocionalmente saudável. E é claro para mim que eu jamais conseguiria isso abdicando de algo que é essencial.

Segundo motivo pelo qual não é viável deixar de trabalhar: a grana, óbvio. 1) O equilíbrio do nosso orçamento doméstico depende do que eu recebo frilando; 2) Não acho justo com o Dri que pese apenas sobre as costas dele o ônus de botar dinheiro em casa. É pressão demais, responsa demais. Aqui em casa, somamos forças, não dividimos; 3) Não gosto da ideia de depender financeiramente de ninguém, nem por algum tempo nem como opção para a vida toda. Já vivenciei histórias demais de mulheres que, por uma ou outra razão, acabaram abdicando do seu meio de sobrevivência e depois, anos mais tarde, ficaram literalmente sem nada, dependendo de “favores” de ex-maridos, filhos e quetais. Sei que há legislação, que essas mulheres tinham direitos, mas não foi bem assim que os parentes enxergaram a situação. Vi mulheres que trabalharam a vida inteira para dar a melhor assistência aos filhos serem chamadas de “preguiçosas” porque nunca “trabalharam”.

Não quero isso pra mim. Quero a liberdade de pagar minhas contas, de decidir meu destino, de pagar pelas minhas escolhas literalmente. E isso, feliz ou infelizmente, nesse mundo capitalista de meodeos, só quem tem verbas na conta bancária- ainda que minguadinhas como as minhas.

Tudo isso pra chegar ao ponto: se me safei do dilema lá no comecinho, estou vivendo o dilema hoje, com outra roupagem, disfarçadinho. Explico: meu arranjo home office deu certo por todo esse tempo porque Enzo era um bebezico. Conforme ele foi crescendo, a coisa foi complicando em termos de tempo livre para trabalhar. Contei em vários posts perrengues pelos quais passei recentemente para conseguir entregar matérias em dia. Uma coisa era trabalhar quando Enzo tinha semanas, meses, um semestre. Nessa fase, meu minimenininho praticamente dormia o dia todo -ou quase isso. Lembro que, aos 6 ou 7 meses, ele dava três cochiladas longas durante o dia, o que, na soma geral, me garantia aí quase seis horas livres para trabalhar.

Depois disso, como é natural, esperado e mega comemorado, as sonecas diurnas diminuíram, diminuíram até a configuração atual: cerca de duas horinhas de sono (um pouco mais às vezes, mas eu tenho tentado limitar para garantir um sono bacana e de qualidade durante a madrugada), o que significa que mamãe aqui consegue fazer pouco, muito pouco durante o dia.

Daí que rola: 1) mais trabalhos na madrugada; 2) mais estresse e correria; 3) impossibilidade de assumir mais frilas (necessários para manter minhas contas em dia).

Temos queimado as pestanas aqui em busca de soluções realmente viáveis e que nos deixem satisfeitos. Algumas alternativas, antes completamente descartadas, foram recolocadas na mesa. Uma delas seria contratar uma babá que ficasse com Enzo ao menos por meio período, especialmente na parte da tarde, que é quando eu tenho mais volume de trabalho, mais chance de fazer entrevistas etc. A outra seria colocar Enzo numa escolinha pelo menos em período semi-integral, o que me renderia aí cerca de cinco horas de trabalho diárias.

A babá me agrada porque, por essa solução, Enzo continua ficando o dia inteiro comigo, em casa, sob meus olhares e cuidados, à vontade, mantendo sua rotina de sempre e ganhando colinho de mãe quando quiser. Já a escolinha tem o ponto positivo de colocá-lo em contato com outras crianças (o que ele adora e do que sei que sente muita falta) e estimulá-lo mais. Enzo é curioso, inteligente, desbravador. Ficar em casa tem sido entediante para ele (tem post no forno sobre isso, mas não tenho dado conta de escrever tudo o que rascunho) e noto que qualquer novo ambiente e desafio o deixa absurdamente feliz (vou contar a experiência dele numa escolinha que visitamos no próximo post, prova disso que escrevi agora).

Por outros lados, confesso, não gosto da ideia de ter uma babá cuidando do Enzo. Acho que ele vai ficar com todo o lado negativo de não estar comigo o dia todo sem ganhar nada em troca (como ganharia na escolinha), pois, na prática, vai passar as tardes com uma estranha mas sem o lado bom de conviver com outras crianças e aprender, ser estimulado.

Mas tudo o que li sobre as escolas, e especialmente as opiniões de especialistas que respeito muito, como a do Dr. José Martins, que responde perguntas de leitoras no blog da Paloma Varón, sugere que se espere pelo menos até a criança completar 2 anos. Há quem recomende aguardar um pouquinho mais, até os 3. Ou, ainda, caso as crianças convivam com outras crianças em casa, colocar na escola só dos 4 em diante. E eu concordo com isso, acho que faz muito sentido e, mesmo que tenha gostado do que vi nas escolas que visitamos até agora (relatos no próximo post), acho cedo demais para colocar meu filho nelas.

E aí, como faz?

Por enquanto, como medida paliativa, Dri e eu sentamos com as nossas respectivas mães e pedimos, literalmente, socorro. Elas sempre ajudaram na medida do possível, e essa ajuda sempre foi muito bem vinda. Mas estamos precisando de mais. Minha sogra acha que não é mesmo hora de Enzo ir para a escolinha, de modo que está disposta a ajudar no que precisarmos.

Minha mãe compreende que, além de tudo, ainda temos o problema da grana: não sei como é em outras cidades, estado e países, mas por aqui as escolas são caras. Mesmo. Então, também topou vir duas vezes por semana, às tardes, ficar com Enzo.

Não é o ideal nem para mim nem para elas, que têm suas próprias vidas, outros compromissos e já criaram os próprios filhos. Mas é o que temos para o momento enquanto não decido se vamos de babá, de escolinha, se esperamos mais um pouco, como nos arranjaremos nesse caso etc.

Alguma sugestão?

7 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

amo muito isso tudo

Não não, não estou falando daquela rede de hambúrgueres que tem como símbolo o palhaço R. O “amo muito isso tudo” é, claro, uma referência ao atual slogan da tal empresa de fast-trash-food, mas só está aqui porque resume muito bem o que quero dizer sobre outra coisa e…bem…me permiti essa licença -digamos- poética. Blame on the adman que bolou a frase, ué.

Daí, então, que tive de ficar uns dias longe da madresfera (amey essa palavra, dona Mari viciada em colo). Muito trabalho, mas muito mesmo, mal conseguia responder e-mails profissionais urgentes, mal e porcamente respondia familiares e deixei sem respostas a pessoa fofa, querida e talentosa que está cuidando do bolo de aniversário do Enzo (ah, vou deixar details pra depois, mas estou organizando a festa do meu minimenininho e, lógico, tenho zentas coisas para contar, minhazamiga).

Plus: deu algum tilt no meu gmail, de modo que fiquei sem acesso a alguns arquivos remotos e descobri, 15 dias depois, que um monte de e-mails que eu mandei/recebi não chegou aos respectivos destinatários.

Daí que rolou, por força maior, um jejum de blogagem, de leitura de blogs, de acesso às redes sociais etc. Dessa experiência de abstinência severa, especificamente em relação à madresfera (meu post mais recente publicado, excetuando-se os de ontem e esse, data de 12 de abril), tenho alguns comentários e uma conclusão. Comentários:

1) Blogar vicia. Não sei se é um processo químico, psíquico, social, motoro, físico, quântico, alquimístico, místico, matemático ou gramático. Mas a coisa impregna, minha gente. E quando você precisa passar um tempo longe da blogagem, seu corpo todo reage. Não vou mentir dizendo que tive tremedeiras, que gritei, que precisei ser amarrada na cama para não abrir o wordpress. Mas confesso que foi fisicamente ruim deixar de blogar. Tive até dores de estômago. E foi emocionalmente ruim deixar de blogar. Senti uma falta louca de escrever, de dividir, de compartilhar, de organizar as ideias, de registrar as coisas. Foi punk. E foi chato.

2) Ficar sem blogar alucina. Como ex-fumante (dos 17 aos 20, 1 maço por dia), sei bem que é a coisa mais fácil do mundo a gente divagar loucamente quando está com muita vontade de fazer uma coisa, mas não pode. Logo que parei de fumar, costumava me imaginar fumando, dava algumas “desligadas” eventuais, ao longo do dia mesmo, e, quando percebia, estava divagando, fumando de mentirinha. Fiz a mesma coisa com o blog. Digamos que esse período de abstinência foi um dos mais produtivos ever. Escrevi uns centos posts mentais.

A gente sempre faz isso, né? Vai tomar banho? Escreve um post mental. Vai à feira? Outro. Esperando para entrevistar uma fonte? Post de novo. Na hora de dormir? Ah, aí são uns dois ou três. Mas dessa vez, tendo em vista que eu sabia que não iria conseguir abrir o blog e escrever no dia seguinte, parece que as ideias fervilhavam mais, numa velocidade maior ainda. Sonhei com posts até, o que nunca tinha acontecido antes. Foram tantas ideias novas, mas tantas ideias novas que, mesmo na correria, anotei algumas para ver se viram posts de fato em breve.

3) A falta que azamiga faz. Senti muita saudade. Mesmo. Não só de blogar, mas, principalmente, das mães da madresfera e dos respectivos rebentos. Saudade de gente que eu nunca vi ao vivo, mas que é tão presente, mas tão presente, que parece amigo de infância, sabe como? Senti falta de trocar ideias, de debater nos comentários, de deixar comentários, de receber comentários, daquele sorriso gostoso e sincero que a gente dá quando lê um relato bacana, quando uma mãe e um filho comemoram alguma conquista ou quando uma mãe confessa dessas coisas inconfessáveis da maternidade, e a gente pensa: “putz, igual que nem eu”.

Senti falta, na verdade, do convívio, de conviver (mesmo que virtualmente) com essas moças, mocinhas e mocinhos que foram se tornando tão importantes para mim nessa nossa pracinha. Fiquei imaginando como estariam as Alices, o Arthur, os Lucas, a Leah, o xará do Enzo, a Nina, o João, a Laura… Queria saber as novidades, queria tricotar!

Impressionante como eu gosto das meninas dessa madresfera! Claro que a gente sabe que os vínculos são vínculos, não importa que a origem seja no mundo “real” ou no mundo “virtual” (cada vez mais real). Mas, lógico, a experiência é a forma mais completa de conhecimento: uma coisa é saber na teoria, outra é saber na prática; e eu soube na prática que meus vínculos virtuais na madresfera são bem fortes.

4) Subestimei a importância da blogagem. Que eu gosto de blogar não era novidade para ninguém. Nem para mim. Mas, confesso, não sabia que gostava tanto assim. Confesso, novamente, que subestimei a importância da blogagem na minha vida. Já deveria ter caído a ficha, mas, às vezes, sou meio lerda: blogar não é acessório, é essencial. É terapêutico. É contato com o mundo, ainda mais quando, como eu, se trabalha em casa. É aprendizado. É maternar de maneiras diferentes. É crescer e melhorar como mãe. É aperfeiçoar. É dizer e é ouvir, tudo ao mesmo tempo. É vivenciar a maternidade em outros níveis. É escrever. É refletir.

E, nesse sentido, foi um aprendizado e tanto passar esse período afastada. Daí que concluí, então, o óbvio: amo muito isso tudo!

4 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

maternidade é competição?

Pulga atrás da orelha: quando foi que a maternidade/paternidade virou competição? Ser mãe/pai é competir? O “desempenho” dos filhos é o que mede a qualidade da maternagem/paternagem (ok, essa palavra não existe, mas vou me permitir a licença poética)? É justo cobrar dos (ou esperar que os) filhos sejam os primeiros em sei-lá-o-que para que mães/pais ganhem sei-lá-o-que na comparação com outras/os mães/pais? Ou nós estamos tão acostumados à competição que nem percebemos a doideira que é tratar os filhos como se fossem competidores e/ou troféus?

Não tenho as respostas. Não tenho nenhuma delas, na verdade. Mas tenho pensado muito nisso, especialmente depois de encontros casuais que tenho tido com outras mães. Parece que há certos marcos de “desempenho” esperados para os filhos que servem, na verdade, para as mães medirem o “sucesso” delas e das crias.

Por exemplo: engatinhar é um desses marcos. Rola uma comparação deliberada para se saber qual bebê já engatinha ou começou a engatinhar primeiro, como se isso realmente significasse alguma coisa. O que se ganha quando um neném é “precoce” nessa área? Eu não sei, mas as mães parecem saber. Um google despretensioso vai mostrar que a idade “ideal” para começar a engatinhar é entre seis meses e um ano. Qualquer pediatra com dois neurônios funcionando vai dizer que, nesse período, o que vale mesmo é respeitar o tempo de cada criança. Mas experimenta dizer isso para as mães.

Dia desses ouvi de uma delas, cujo filho com 5 meses “quase engatinha”, que o “segredo” para a precocidade (que ela deve achar uma qualidade a ser copiada) do rebento é que ela nunca o pega no colo. Deixando o filho sozinho, sem colo, ela conseguiu que ele desenvolvesse habilidades motoras mais cedo. E ela critica as mães que fazem o contrário.

Pergunto: 1) Que vantagem o filho leva com isso? 2) Não seria melhor ter colo de mãe enquanto isso é fundamental –até para estimular o desenvolvimento neurológico e as sinapses– e deixar para estimular a evolução motora quando for a hora (ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo)? 3) Essa mãe já refletiu sobre a importância da autoestima na vida do filho? Será que já pensou que “se virar sozinha”, nessa idade, não é algo desejável para uma criança?

Filosofia de botequim (que eu A-DO-RO! Pena que não esteja tomando cerveja por esses dias. Do contrário, confesso, já estaria com uma bem gelada a me fazer companhia): vivemos em uma sociedade altamente competitiva, que estimula ainda mais competição como se isso fosse o único caminho para uma prometida prosperidade. Nós pais, perdidinhos da silva, achamos que o melhor para os filhos é que já nasçam competindo, que já nasçam na frente, chegando antes dos outros bebês em qualquer lugar que seja.

É uma síndrome de maternagem desenvolvimentista, sabe como? A preocupação principal deixa de ser o bem estar, a felicidade, o crescimento saudável e no tempo de cada criança, o respeito às etapas e ao ritmo do filho. O objetivo torna-se desenvolver -o quanto antes, de forma “otimizada”- tudo o que tiver que ser desenvolvido no menor espaço de tempo possível.

E daí a competição: se meu filho engatinha antes, ponto para mim, que consegui estimulá-lo e desenvolvê-lo mais rápido. Se ele anda primeiro, ótimo. Se fala primeiro, então, nossa, eu poderia ganhar um Nobel da maternagem.

O natural sequer é considerado. E o tempo, que nos submete a todos, é solenemente ignorado na busca ansiosa por alcançar, via filhos, a ponta, o pódio, o primeiro lugar de qualquer coisa que seja. Os filhos são superestimulados e, paradoxalmente, recebem menos atenção do que mereciam, já que “aprender a se virar sozinho” virou mantra. Na maternagem desenvolvimentista hegemônica,  quanto antes os bebês ficarem independentes, melhor. Mesmo que isso custe (se é que alguém ainda se preocupa com isso) boa parte da formação afetiva e emocional desse neném.

E essa “nova” forma de maternar -não por acaso- cai como uma luva numa sociedade consumista e individualista que parece que desaprendeu a ter filhos. Enquanto não consome, filho não se insere nesse contexto. Para mim, parece fato que, ao passo que a ciência evolui e permite que casais que jamais teriam filhos concebam, coletivamente, perdemos a capacidade de nos reproduzir a contento, pois perdemos -e nos orgulhamos disso- habilidades fundamentais para maternar/paternar:

-Não temos mais tempo: não esperamos nossos filhos crescerem e se desenvolverem; queremos acelerar os processos todos. Não temos tempo, nem nossos filhos tem, para esperar as etapas normais e apropriadas.

– Não temos mais disponibilidade: prioridade é o que vem em primeiro lugar. Não dá para ter vários primeiros lugares na nossa lista. E, em geral, mesmo querendo priorizar nossos filhos, na prática, priorizamos o que paga as contas. Porque, afinal, as contas precisam ser pagas, e vivemos numa sociedade esquizofrênica que nos faz escolher entre filhos e ganha-pão.

-Não temos mais paciência: sou tecnológica, adoro os avanços todos da ciência, mas acho que o mundo super conectado, que nos leva a trabalhar como loucos (ao invés de nos poupar tempo, como seria de se supor) também nos faz acostumar com um ritmo irreal e não-natural de vida. Queremos adiantar tudo, queremos tudo para ontem, levamos o imediatismo a um outro nível. Não queremos para já, queremos que já esteja pronto quando começarmos a desejar o que quer que seja.

-Não respeitamos o que é natural: bacana mesmo é o artificial, é o que acelera processos, “facilita” processos, substitui o que seria natural por algo mais adequado à nossa vida corrida, cosmopolita, sem qualquer ligação com instintos, ancestralidade, com as heranças que gerações anteriores levaram milênios para aperfeiçoar e nos legar.

E, veja, não estou apontando o dedo para ninguém. Também me incluo nisso tudo aí, também sou fruto disso tudo aí, também reproduzo isso tudo aí, também já me flagrei cobrando a mim mesma sobre o desenvolvimento do Enzo e planejando quais as habilidades dele eu vou querer “acelerar”.

Não aponto dedos não apenas porque teria de começar por mim mesma e porque não estou aqui para isso, mas, principalmente, porque não há exatamente responsáveis. A sociedade caminhou para onde estamos, nos trouxe até aqui, nos estimula. Somos consequência do mundo em que vivemos, dos valores do nosso tempo, da ciência e das informações de que dispomos, daquilo que nós e que os outros consideramos importante, ainda que discordemos um pouco (não vivemos numa ilha). Somos filhos do tal zeitgeist, o “espírito do tempo”.

E o espírito do nosso tempo é extremamente competitivo, individualista, frenético,workaholic (vida pessoal, esse palavrão, não gera lucro para as empresas capitalistas, afinal), artificial, contraditório, caótico, precoce, imediatista, consumista e eternamente insatisfeito. Por que as mães ficariam de fora?

O que nos resta, então? Refletir, refletir, refletir. Debater, debater, debater. Transformar, transformar, transformar. E olhar para os nosso filhos, acima de tudo, com os olhos livres desses óculos todos que nos fazem ver os pequenos sob o prisma do que o mundo quer deles, não do que eles querem do mundo e podem dar a ele.

Fácil não é. Mas também não é impossível. Minha segunda resolução -já colocada em prática- é respeitar as inclinações do Enzo e o tempo dele. Quando ele quer brincar no chão, tentar engatinhar, tentar andar, ajudo, estimulo, fico do lado. Quando ele quer colo, sombra e água fresca, é isso que dou. Quando me cobram largar meu filho, não dar colo, deixá-lo “independente”, não estou mais me calando. Digo que optei por uma maternagem na contra-mão mesmo, sinto muito, mas não vou na sua casa dar pitaco, né? Plis, não faça isso na minha. Faço isso por mim, mas também pelas outras mães. Circular conhecimento. Esse é o nome do jogo.

Também decidi -faz tempo, o que faz dela minha primeira resolução- priorizar mesmo Enzo. Meu tempo é dele. Ponto. Isso me custa correrias extras no trabalho, mas vale muitíssimo a pena. Qualidade também é quantidade nesse caso. E como eu posso (tem mãe com bem menos sorte), não vejo razão para não fazer isso.

E -terceira resolução, que na verdade é consequência de uma resolução maior (fugir dos modismos consumistas)- optei por mudar um pouco as coisas com a festa de um ano do Enzo. Estava planejando contratar especialistas e buffet para fazerem o aniversário dele. Mas mudei de ideia e vou fazer tudo (com exceção dos salgados). Não quero inserir Enzo desde sempre nessa coisa capitalista de competição pela festinha de aniversário mais “bacana” (leia-se mais cara e cheia de coisas supérfluas). Quero uma festa linda, claro, mas feita por nós, cumprindo todas as etapas, participando de todos os processos, com as nossas possibilidades reais, sem disfarces dados por especialistas.

Meu bolo não vai ter três andares e pasta americana. Mas vai ser delicioso, feito com muito amor, bem bonito, saudável, orgânico e sem porcarias. Enzo vai poder comer o próprio bolo!

Enfim, estou refletindo. E saindo da caverna.

8 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões