Arquivo da tag: mimado

criança não é pública # 2 ou: o que é filho “mimado”?

yara

Nos comentários do post anterior –e também em rodas de conversas virtuais ou presenciais com amigos– surgiu uma questão interessante sobre como equilibrar o respeito à subjetividade da criança e a necessidade de educá-la. A dúvida, basicamente, é: se eu respeitar meu filho nesse nível proposto pelo post e pelos textos recomendados, não estarei criando uma criança mimada, sem limites, sem educação?

O que penso sobre isso é basicamente o seguinte. Antes de qualquer coisa: o corpo de alguém é inviolável. Obrigar quem quer se seja a aceitar contato físico que não deseja é uma violência inominável. E o fato de questionarmos isso quando se trata de crianças (ou de mulheres, muitas vezes) já mostra bastante o tipo de sociedade que ainda somos. Não posso tomar para mim o controle do corpo de outrem, seja com a justificativa que for (educar, ajudar, ensinar, dar carinho, dar afeto etc). Se a escolha fosse (e não é, mas vamos fingir que seja) entre ter um filho mimado ou um filho cujo corpo não fosse respeitado, eu certamente optaria pela primeira opção. É muitíssimo mais pernicioso um adulto sentir-se “dono” do corpo de uma criança e essa criança ser alvo constante da violência de não poder negar um beijo do que um pequeno dar piti à toa na fila do supermercado ou não ser simpático com qualquer desconhecido.

Mas o fato é que respeito não se contrapõe à educação e a limites. É uma falsa dicotomia. Pelo contrário. Você pode e deve educar uma criança de forma respeitosa, respeitando os interesses dela, as inclinações dela, as preferências dela, os limites dela, o ser que ela é. Aliás, essa é a ÚNICA forma de se educar uma criança. Qualquer outra coisa é imposição por força e coação. Pode funcionar até a página dois, mas jamais merece o nome de “educação”.

Um adulto desrespeitoso, um adolescente complacentemente considerado “mimado” (desses que acham que podem espancar prostitutas ou empregadas domésticas em ponto de ônibus ou dar trotes violentos, abjetos e sexistas) com toda a certeza não são assim por terem sido respeitados, amados e bem tratados. Ter acesso a bens de toda a sorte e ter pais eventualmente omissos (duas coisas bem comuns entre os “bem nascidos” de classe média alta que fazem esse tipo de coisa) não é sinônimo de ser amado ou bem tratado.

De que forma desobrigar uma criança de três, quatro anos de aceitar o beijo à força de um estranho (ou mesmo familiar) pode resultar em alguém que não respeita os limites alheios? Não vejo como.

Pelo contrário. O que ensino ao meu filho quando digo que ele não é obrigado a abraçar quem não quer? Que ele também não tem direito sobre o corpo e a vontade do outro. Inclusive esse tipo de argumento uso com ele várias vezes. Por exemplo, quando ele se chateia com algum amigo que não quis brincar com ele. Sempre digo: “lembra quando fulano quis brincar e você disse que não estava a fim? Você não foi obrigado a brincar, certo? Então, agora é a mesma coisa”. E ele entende. E me diz um “é mesmo, né, mamãe?” bem tranquilo, satisfeito, sem sentir-se rejeitado e, plus, a partir dessa constatação, disposto de coração a respeitar o amigo que preferiu brincar com outro colega.

Respeito se ensina respeitando. Não tem outra forma.

Por que tratar um adulto com respeito e educação é o mínimo que se espera de alguém civilizado, mas quando tentamos fazer o mesmo com uma criança vira um “erro” ou algo que pode resultar numa criança “mimada”? Adulto tratado com respeito é “mimado”? Por que criança seria? Por que quando uma criança manifesta sua subjetividade e inclusive suas discordâncias, tachamos logo como “mimada”? Adulto que fala “não” educadamente é “mimado”? Por que criança seria?

Isso significa que meu filho pode fazer qualquer coisa? Não. Ninguém pode fazer qualquer coisa. Eu não posso, você não pode, meu filho também não. Respeitar uma criança –e mesmo um adulto e/ou a si mesmo– é colocar limites. Como diz Rebeca Wild, “viver é estar limitado”.

Não dar limites é um problema do adulto, não da criança. E não tem nada a ver com respeitar a criança e não obrigá-la a beijar quem ela não quer. Se um pai desiste, por exemplo, de limitar o tempo de exposição do filho às telas porque o filho está se jogando no chão da sala e dando escândalo, o problema é com o pai, não com o filho, percebe? Uma criança ainda está desenvolvendo mecanismos neurológicos para lidar com a frustração de modo menos estridente que jogar-se no chão aos berros. Mas o adulto deveria ser maduro o suficiente para: 1) tomar uma decisão ponderada, coerente, que faça sentido para o bem das relações familiares, para a harmonia entre todos, levando as necessidades de todos em consideração, 2) manter essa decisão (se a única razão para questioná-la for o chilique do filho) e 3) aguentar o choro da criança, ampará-la, compreendê-la, ajudá-la, de forma empática e amorosa, a lidar com a dor da frustração.

Se o adulto não tem maturidade para tanto –e isso também é uma forma de desrespeito à criança– isso não tem nenhuma relação com respeitar a individualidade e a subjetividade da criança.

Por outro lado, colocar limite não é colocar qualquer limite, só para marcar território, manter hierarquia, “mostrar quem manda” ou não “passar vergonha” diante de parentes e amigos. Limite não pode ser uma forma de exercer poder –e desrespeitar, portanto, pois todo poder é uma forma de desrespeito à essência alheia– tampouco um modo de extravasar raiva e frustração ou– talvez pior– adequar o filho às expectativas próprias e dos outros.

Colocar limites nos filhos é limitar-se a si mesmo, porque é preciso refletir sobre as razões daquele limite que se quer colocar. É um limite porque estou despejando minha frustração no meu filho? É um limite porque quero que a família se orgulhe de mim e aprove meu filho? É um limite porque a vizinha vai pensar que não sei educar meu filho se não fizer isso? É um limite porque eu tenho medo? Ou é um limite que realmente faz sentido para o desenvolvimento do meu filho? Ou é um limite realmente necessário para que eu possa estar presente e relaxada e manter o ambiente relaxado e adequado?

De qualquer modo, simplesmente não colocar limite nenhum ou deixar que escola, babá, avó, tio etc o faça não é respeitar. Quando se fala em respeito à criança, se fala justamente também nesse tipo de limite que esta exposto aqui. Funciona como numa relação saudável com qualquer adulto. O que é respeitar seu colega de trabalho? Deixar ele fazer o que quiser com você? Ou educadamente se colocar de forma adulta e madura, mesmo que isso cause um conflito? Conflitos são ótimos e necessários. Com os filhos inclusive.

O que não é ótimo nem necessário é obrigar uma criança de três anos a beijar quem quiser beijá-la.

Criança pequena ainda está aprendendo os códigos de conduta sociais; a maioria deles ainda não faz o menor sentido, entre outras razões porque a criança ainda reage muito baseada em estruturas “mais antigas” do cérebro, as únicas que já estão formadas. Então a criança raciocina pela autoproteção. Quer estar junto da mãe e de quem mais confie. E ponto. O resto é resto mesmo e não faz sentido ser simpática. Até porque as emoções nas crianças são percebidas de formas diferentes das percebidas por adultos.

Uma criança pequena não tem a capacidade de certas sutilezas, de elaborar emoções fortes e contraditórias, de reagir de modo plácido, verbalizando ou dissimulando sensações (e isso nem é ruim). Crianças são autênticas (o que é ótimo!), dizem o que pensam, fazem o que pensam. Não é um defeito. É um estado até neurobiológico. Que vai sendo burilado conforme a criança observa os códigos sociais, conforme recebe respeito e tratamento respeitoso dos adultos que ama, conforme vai completando seu desenvolvimento cerebral e neuronal.

Aliás, nós perdemos muito quando negamos essa autenticidade infantil, em nós e nas crianças. O mundo ideal seria, conforme as áreas mais “novas” do cérebro fossem crescendo e se desenvolvendo, que elas apenas ajudassem a elaborar melhor as emoções. Jamais a dissimulá-las, como acaba acontecendo. Mas isso é outra (fascinante) conversa.

O que quero dizer com tudo isso é: educar uma criança é respeitá-la, colocar limites e não esperar dela mais do que pode dar. A sociedade nos cobra filhos sorridentes e submissos. Como lidar com o amigo que vai em casa e torce o nariz se o filho “mimado” não o cumprimenta? Como lidar com a avó que quer abraços e beijos negados pelo neto? Como lidar com parentes nas festas que ficam apertando bochechas à revelia do desejo das crianças? Como lidar com a cobrança social e interiorizada por nós de que nossos filhos não sejam “mimados” (entendendo aqui por “mimado” o senso comum: um pequeno que não se submeta a caprichos adultos adultistas)?

Veja, é uma questão de escolha. Eu sou mãe do meu filho e é com ele que tenho responsabilidades. Escolhi assumir essa responsabilidade, mesmo que todo mundo ache meu filho mimado, chato, não educado. Se ser respeitado e exigir respeito, para as pessoas, é sinônimo de “mimado”, que seja. Paciência.

Para os adultos que estranham o comportamento do meu filho quando foge de investidas pseudocarinhosas, digo, com toda a educação: “meu filho não gosta de beijos e abraços”. E, sabe?, a maioria das pessoas entende. Acho que muita gente se lembra como era horrível, na infância, ser submetido a beijos e abraços forçados. Quem nunca fugiu de parente sem noção? Eu já, meu marido já, meu irmão já, meus primos e amigos e até meus pais. Obrigar criança a ser bacaninha não dá certo para ninguém. Por que manter esse modelo? Será que o adulto, quando confrontado com a negativa respeitosa, não vai compreender e rever seus próprios conceitos?

E, de mais a mais, quem é “mimado” e sem educação mesmo? A criança que exerce seu direito sagrado ao próprio corpo ou o adulto que, maduro, não consegue lidar com a “frustração” de não poder impor um beijo a um ser pequeno e indefeso?

**********

Recomendo muito a leitura de Montessori sobre esse assunto. Montessori, como ninguém antes dela, compreendeu, pesquisou e expôs o fantástico universo infantil. Ninguém antes dela respeitou as crianças como seres humanos que de fato são. E, apesar de achar que resultado não é o que deveria mover nenhuma relação, entendo a cobrança sobre nós pais e por isso digo: Montessori conseguiu resultados incríveis a partir do respeito genuíno à criança e aos jovens com quem lidou. Não só em educação formal, mas na reabilitação de adolescentes infratores “desenganados” socialmente pelas “autoridades” italianas. Foi exatamente lidando com um grupo de jovens infratores numa comunidade paupérrima e marginalizada que a psiquiatra italiana desenvolveu o método que depois ficou conhecido como “montessoriano”.

Para quem quiser começar com Montessori, sugiro o blog Lar Montessori. Sobre respeito incondicional e educação sem violência, é só ir direto a esse link e a esse também.

**********

Muito grata a quem questionou! 🙂

Oportunidade incrível de refletir, repensar e escrever aqui um pouco mais do que me move como mãe e como ser humano. Meu filho me dá todos os dias a oportunidade de repensar e reafirmar meus próprios valores sociais e políticos, meus compromissos comigo mesma e com o mundo que me cerca, a pessoa que vou sendo e construindo nas pequenas e grandes coisas do dia a dia. Ser mãe é um modo de estar politicamente no mundo. Ser mãe é um ato político. E meu ato político é, entre outras coisas, reafirmar diariamente o respeito, a empatia, o acolhimento que todos merecemos.

Sou muito grata também ao meu filho por isso! 🙂

******

A ilustra é da Yara Kono e veio daqui ó.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões