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o renascimento do parto

"Maternite" (1963), de ninguém menos que Picasso (*)

“Maternite” (1963), de ninguém menos que Picasso (*)

A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda que as cesáreas representem, no máximo, 15% dos partos. No Brasil, no entanto, já atingimos o alarmante número médio de 50% de cesáreas. Isso botando na conta a população parturiente como um todo. Quando se levanta os mesmos números computando apenas as mulheres atendidas por hospitais particulares, a quantidade de cesáreas passa dos 80%, chegando aos 90% em alguns casos. Ou seja, o contrário do que a OMS define como ideal para resguardar a saúde da mãe e do bebê.

O Brasil é, hoje, o país mais “cesarista” de que se tem conhecimento. Na Europa, para uma comparação rápida, as cesáreas somam 25% dos partos. Eu faço parte das estatísticas, fiz uma cesárea (relatos aqui e aqui). E, por tudo o que li sobre isso depois do parto, também me incluo no grupo das que sofreram uma cirurgia desse porte desnecessariamente. Somos maioria, infelizmente, como mostram os números.

Penso que tem muita coisa que explica porque, em questão de duas gerações, as mulheres simplesmente deixaram de parir. Mas duas delas me chamam mais a atenção.

1) O medo: é assustador (e muito) ter outra pessoa crescendo dentro da sua barriga. É muito assustador imaginar como essa pessoa vai sair de lá, especialmente quando você é mãe de primeira viagem e não tem muita ideia de como serão as coisas e do que esperar, de fato, na hora do parto. Por mais que outras pessoas compartilhem suas experiências, só no momento do seu bebê nascer é que você vai saber como um parto funciona para você.

E esse medo vem sendo usado habilmente pela indústria da cesárea para convencer as mães de que, no seu caso, cesárea é fundamental. Indiscutível que cesáreas bem recomendadas salvam e salvaram muitas vidas. Mas acho meio impossível que, de repente, quase todas as mulheres tenham gravidezes de risco ou partos de risco. Desculpe, mas a conta não fecha.

2) O mito: Nada melhor que um bom mito para assustar definitivamente quem já estava com medo. Pois hoje a gente, coletivamente, passou a acreditar que as mulheres não têm condições de parir, que é preciso todo um preparo e um investimento em ginástica, terapias variadas, natação etc etc etc (que nem todas podem pagar) para parir um bebê por vias naturais.

Ou, se você não for masoquista a ponto de fazer questão de sofrer, e tiver grana, pode pagar pelas “maravilhas” da ciência num hospital de ponta. Garantia de cesárea.

Esse é o discurso explícito ou implícito tanto nas rodinhas de mulheres quanto na mídia ou nos consultórios de obstetras por aí. Quem pode ou paga para se preparar para o parto (como se realmente fosse preciso) ou paga para não ter de fazê-lo. E não falo só de quem opta por uma eletiva de cara, não. Falo de quem, como eu, ficou morrendo de medo a gravidez inteira e não teve coragem de bancar, de fato, o próprio parto normal.

É por tudo isso que o documentário “O Renascimento do Parto” está chegando em boa hora. Era para ter sido lançado no ano passado, não foi. Há um mês, mais ou menos, houve uma sessão especial para convidados, e o trailer está rolando pelas redes sociais e madresfera. 

Não assisti à projeção para convidados, mas o promocional me fisgou. Tem Michel Odent, por exemplo, questionando o que vai ser de uma sociedade que não produz mais o “hormônio do amor”, a ocitocina. Nunca tinha pensado nisso. Que mudanças veremos no mundo quando mulher nenhuma parir seu próprio filho?

Pra refletir –e muito.

(*) A bela imagem do gênio espanhol eu peguei daqui ó.

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quem tem um olho é rei

[“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade” ]

Laura Gutman

Que nome você daria a uma situação em que uma pessoa usasse a força para submeter outras à vontade dela? E que nome você daria à mesma cena caso a primeira pessoa usasse não a força física, mas a manipulação psicológica? Eu chamaria de violência. Tanto quanto eu chamaria de violência um assalto, um sequestro, um tapa na cara, uma agressão qualquer.

E me espanto muito quando poucas pessoas acham violentos os nascimentos hoje em dia. Vou explicar. Li esse post da Anne Rammi e, coincidentemente, uma pessoa muito querida passou por situação semelhante a uma das narradas no texto dela: informações pela metade e omissão de informações que culminaram numa cesárea desnecessária (como são a imensa maioria das cesáreas).

Fico aqui pensando com meus botões: o corpo que vai parir é da parturiente; a carne que vai ser cortada é dela também; a cirurgia vai agredir o útero da grávida; é o filho dela que vai retirado do ventre à força, com violência (sim, sim, nascer sem TP é, em geral, uma violência para o bebê); é o filho dela que não vai poder usufruir do cordão umbilical até que pare de pulsar; é esse recém-nascido que não vai poder ser afagado pela mãe nas primeiras horas, que não vai começar a mamar quando seu impulso de sucção é maior, que poderá ter sua amamentação prejudicada…

Essa mulher não tem o direito de decidir o que quer fazer de seu corpo e que tipo de parto deseja dar ao filho? Ser cortada, manipulada, exposta a uma cirurgia não deveria ser uma decisão de quem vai sofrer esse procedimento? Minha vontade sobre meu próprio corpo não deveria ser soberana?

Como fazer tudo isso se sonegam informações? Se alguém mente e diz que a única saída é uma cesárea, e aí a parturiente consente com a cesárea, esse consentimento é válido? Ela consentiu mesmo? Ou foi manipulada  e enganada para consentir?

Como decidir sofrendo uma pressão psicológica desde antes de engravidar? Como optar por um parto normal com a segurança necessária se médicos, mídia e senso comum fazem de conta o tempo todo (com má fé ou não) que PN é mais inseguro que uma cesárea, que parto em casa é mais arriscado que parto hospitalar? Como não ter medo de parir e acabar, por isso, recorrendo a uma cirurgia, aceitando a cirurgia e naturalizando a cirurgia como se ela fosse a via usual, adequada, própria para o nascimento?

O que fazer se os médicos partem do pressuposto de que um bebê precisa nascer antes da 40ª semana quando, na própria literatura médica, nada comprova esse “procedimento padrão”, dito pelos próprios médicos? Na teoria, todo mundo sabe –e ouve dos GOs– que a gestação normal numa humana vai de 38 a 42 semanas. Quem espera chegar à 42ª? Por que não? Quem foi que convencionou um limite de 40 semanas? E mais importante: por quê?

Colo fechado, quadril estreito, pouca dilatação, bebê grande demais, bebê “velho” demais, placenta “velha”, cordão enrolado no pescoço… Quantos argumentos curtos e grossos são dados às pressas para convencer mães a evitarem o PN sem que ao menos os médicos se deem ao trabalho de explicar o que esse monte de coisa quer dizer? Não podem explicar o inexplicável? Não podem dizer que, salvo raríssimas exceções, todas as mulheres dilatam, por exemplo? Não podem dizer que, na verdade, o problema com a sua dilatação é que ela não está acontecendo no tempo que o médico quer e que é mais lucrativo pro hospital?

Eu sigo tendo certeza de que manipular alguém para submeter o corpo desse alguém à vontade de outrem é nada mais que violência. E é uma violência dissimulada, travestida de “milagre da medicina”. Se as cesáreas –muito válidas e necessárias para salvar vidas quando prescritas adequadamente– fossem mesmo necessárias na proporção que são usadas hoje nos hospitais particulares, então estaríamos admitindo que mais de 80% das grávidas estariam mortas não fosse a cirurgia, que mais de 80% das parturientes chegaram à maternidade correndo risco, a despeito de terem acesso ao pré-natal mais eficiente ever. Estranho, não?

Não quero dizer que quem pariu de PN é melhor que quem pariu via cesárea. Pelamor, mulherada, vamos superar essa coisa de mais e menos; melhor ou pior, ok? Quero dizer só o que disse: estamos sofrendo violência e nem nos damos conta. Sequestraram um dos últimos bastiões da liberdade e da sexualidade livre da mulher, que era o parto; um dos poucos espaços onde a patrulha machista (feminina ou masculina) não se metia. Lá ninguém julgava, não dava palpites, não dizia que era “feio”, “pecado”, “proibido”. Não era preciso refrear emoções, era permitido gritar feito bicho, bater, ficar de cócoras, sangrar, gemer, uivar. E tudo era permitido.

Era.

Porque agora podemos ser “higiênicas”, “limpas”, “rápidas”, “quietinhas”, “passivas”. A passividade, tão valorizada como “característica” feminina, chegou ao parto. Basta tomarmos uma anestesia, alguém nos amarra as mãos e participamos tão ativamente do nosso parto quanto querem que participemos: nada.

Vamos ficar quietas até quando? 

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De onde saiu isso? Daqui, daqui, daqui e daqui. E, claro, daqui e daqui. Recomenda as leituras. A mulherada da madresfera finalmente está tirando as garras pra fora, no ótimo sentido. Rumo ao maternismo.

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mais uma sobre partos

Essa blogagem coletiva sobre violência obstétrica me deu muito o que refletir. Nesses dias, li coisas interessantíssimas na madresfera (posso emprestar o termo, Mari?) e dois textos em particular me chamaram mais atenção, pois falaram mais claramente coisas que eu andava matutando, mas que não tinha ainda conseguido colocar em palavras, elaborar racionalmente.

Vou pela ordem de leitura, então. Esse aqui, da Mari, do Viciados em Colo, foi de uma clareza e de uma sobriedade arrebatadoras. E foi doído também, uma vez que botou em evidência sentimentos com os quais a maioria de nós lida ou tem lidado. Ela mostra todos as etapas pelas quais passamos quando descobrimos que sofremos uma cesárea desnecessária, quando entramos em contato, ainda que virtual, com a possibilidade de outros partos. Vale muito a pena ser lido.

Comentei com ela, lá no Viciados, algumas coisas que acho que complementam bem o post que fiz sobre violência obstétrica. Para começar, a responsabilidade por ter feito uma cesárea foi, em larga medida, minha mesmo. Queria um normal, mas não me preparei para ele nem física nem psicologicamente.

Fisicamente faltou um monte de coisas: atividades físicas adequadas -e recomendadas- para gestantes, atenção com a pressão, diminuição efetiva do sal nos alimentos, uma dieta mais equilibrada e uma longa lista de etc.

Psicologicamente faltou calma, tranquilidade e, portanto, atenção ao que realmente importava. Faltou também confiança em mim e no meu corpo, faltou entrega à gestação, entrega à natureza, ao ancestral, ao feminino ancestral em nós, ao arquétipo de mãe, aos antigos mitos fundadores da maternidade. Faltou encarar o parto com a naturalidade necessária para deixar de temê-lo e, assim, passar por ele.

Reconheço também que toda a informação de que disponho hoje já estava por aí, na madresfera. Fui em quem não busquei ou não busquei adequadamente, nos lugares certos. Ignorância pode até ser justificativa, mas não desculpa.

De modo que, respondendo à pergunta que a Mari fez no final do post dela, não, eu ainda não me perdoei. Estou no caminho, pois compreendo que fiz o que pude, que o que dei de mim era o que eu tinha pro momento, mas sigo culpada, sigo doída, especialmente pelo que privei Enzo de viver (um parto propriamente, no qual ele participasse, fosse ativo, não fosse surpreendido por mãos apressadas “nascendo-o” à força) e pelo que obriguei Enzo a viver (meu filho bebezico e confuso saiu de mim e foi direto ser mexido e remexido por braços estranhos, num universo estranho, frio. E foi sozinho, sem nem carinho, sem nem conhecer a voz que o acompanhou na estadia do útero. Foi prum berço aquecido, mas sem toque, sem colo, sem vozes ou sons conhecidos, sem referências, sem cheiro familiar, sem afago, sem carinho, sem aconchego, sem ninguém que lhe dissesse “está tudo bem, não se assuste”.

Eu só toquei meu filho, só pude colocar meu filho no colo, sentir seu cheiro, falar com ele, olhar pra ele 4 horas depois do parto. Entre uma coisa e outra, ficamos, eu e ele, separados pela frieza institucional das regras da maternidade, da equipe médica, do staff de enfermeiros, de sei-lá-mais-quem que, por sei-lá-que-motivo inventou normas que atendem a sei-lá-quais-interesses (mas não aos do meu filho, nem aos meus).

Então dói ainda, dói muito. E, talvez por essa razão, terminei de ler o texto da Mari com os olhos rasos d’água.

O que me leva ao segundo texto que li (por indicação da Mari lá no post dela) e que ficou martelando aqui na cabeça. A Anne, do Super Duper, diferenciou muito bem as vias de nascimento. Uma coisa é parto, outra é nascimento. Quem teve uma cesárea, como eu, na verdade não teve um parto. Clic! Isso nunca tinha ficado tão claro antes.

Eu não participei do nascimento do Enzo, fui mera coadjuvante. Sabe como descobri que meu filho já tinha nascido? Ouvindo a obstetra dizer “bem vindo”. Ela falou isso uma vez, falou duas, achei estranho e, meio grogue, perguntei: “Já nasceu?”. Sim, tinha sido nascido. Nem me dei conta. Nem me dei conta do momento mais importante das nossas vidas -minha e do Enzo. Aconteceu e eu mal estava lá. Qualquer pessoa que esteve naquela sala de cirurgia vai saber contar melhor como foi o nascimento do meu filho que eu.

Sinto por mim e por Enzo, mas pelas pessoas de um modo geral. As histórias, os marcos fundamentais da vida, estão perdendo valor para uma supervalorização de uma pseudo-ciência vendida a preço de ouro. Adorava ouvir a história de como eu nasci. Isso é essencial, faz parte da nossa identidade, toda criança quer saber. E quanto mais emoção, melhor.

Minha mãe sempre contava com detalhes como foram as contrações, que ela achou que não era nada, que quase nem vai para o hospital, e que -veja só- chegando lá eu já estava quase nascendo. Lembrava dos detalhes, do médico que não chegava, da enfermeira que a tranquilizava, de não ter sentido muita dor (“é uma cólica menstrual um tanto mais forte”, me dizia, pra eu não ficar com medo), de eu ter nascido rápido, da emoção de me ver pela primeira vez, do primeiro choro (meu e dela, como mãe), do primeiro colo, da primeira mamada. E eu ouvia, satisfeita com minha origem.

Isso faz de nós menos mães? Claro que não, nem acredito que exista isso. Mas não posso deixar de lamentar que, ao invés de um relato de parto, a origem das nossas crias -e a narrativa fundadora da vida dos nossos filhos- será algo como: “Mamãe marcou na agenda, fomos lá, tomei uma injeção e você nasceu”.

Sei que o post está enorme, mas ainda preciso dizer que o convencimento da indústria da cesárea foi tão potente, tão manipulador e tão certeiro que tem (muita) gente que associa PN à pobreza, à gente desassistida, à gente que não tem acesso às “maravilhas” da ciência. Muita mocinha classe média por aí que adora elogiar as maravilhas da vida “civilizada” fora do Brasil, esquece que lá fora, entre os civilizados, a regra é PN. Pra todo mundo.

Aqui, virou “privilégio” ter sua barriga cortada desnecessariamente, passar por um procedimento cirúrgico arriscado desnecessariamente, ser privada de um momento de comunhão maravilhoso desnecessariamente.

Uma mistura de preconceito de classes com violência disfarçada de ciência.

Sou pela livre escolha da mulher, da parturiente, mas que livre escolha há, que livre escolha é possível, sem informação verdadeira e adequada? Como já disse no post anterior, manipulação é, com certeza, uma forma de violência.

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teste de violência obstétrica – dia internacional da mulher – blogagem coletiva

Será que blogagem coletiva com um dia de atraso vale? Tomara que sim, pois ontem não deu tempo de terminar o post, e é um tema sobre o qual venho querendo escrever faz tempo. Quem chamou a blogagem foram os blogs Cientista Que Virou Mãe, Parto do Princípio e Mamíferas e, entre os objetivos, a ideia é debater o assunto e divulgar o teste de violência obstétrica, que pode ser respondido anonimamente aqui.

Vou começar contando minha experiência. Acho que o que eu vivi pode jogar luz sobre um aspecto da violência obstétrica que fica, por vezes, esquecido, que é a violência sofrida não no parto em si, mas ao longo do pré-natal e da gestação. Em geral, é também uma violência mais difícil de combater, pois mais sutil, concretizada por palavras, conceitos e manipulação.

Minha GO é cesarista. Ponto. Notei isso mais ou menos na metade da gestação, conforme ia lendo e aprendendo coisas -aqui na blogosfera, principalmente. As informações que eu encontrava, inclusive em sites da OMS e da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) não batiam com “diagnósticos” feitos pela GO. Tive a confirmação da preferência dela pela cesárea quando li isso aqui, ótimo texto do Parto do Princípio mostrando mitos e fatos sobre PN.

E o que faz um GO cesarista, além de tentar forçar uma cesárea na “hora H”? Passa toda a gestação da paciente tentando convencê-la de que a cesárea é melhor, muito melhor, que um parto normal, especialmente se for uma cesárea eletiva.

ABRE PARÊNTESE: Não sou melhor do que ninguém, nem estou aqui para vomitar minhas verdades. Cada um é dono de si e sabe o que faz. Portanto, sem julgamentos -mesmo- e com todo o respeito a quem faz eletiva, digo que cesárea marcada sempre esteve completamente fora de cogitação para mim. Acho um desrespeito profundo ao bebê “nascê-lo” com data e hora marcada, quando ele obviamente ainda não está pronto para isso. Se estivesse, teria nascido. Ponto. De todas as ideias relativas a parto e maternidade que “viraram moda” nos últimos anos, acho que essa é a mais nociva e fútil de todas. É uma violência fazer um bebê nascer à força, é começar a vida nesse mundo de meodeos sendo desrespeitado em seu direito mais básico. FECHA PARÊNTESE.

Voltando às tentativas de convencimento, foi exatamente o que minha GO fez comigo, ao longo das 36 semanas de gestação (sim, Enzo nasceu pré-termo). Desde o começo, deixei claro que queria PN. Nunca duvidei da minha capacidade de parir meu filho, minha mãe teve PN, minha avó teve PN, cresci ouvindo relatos de PN e sempre achei PN a coisa mais natural do mundo quando se pensa em parir um bebê (e acontece que é, né?, a coisa mais natural do mundo…). E as cesáreas que presenciei de perto sempre me pareceram dolorosas, recuperação difícil, aquela coisa de cirurgia. De modo que disse à GO na primeira consulta que queria PN, sem discussão.

Acontece que, na 14ª semana, o ultrassom indicou que minha placenta estava “baixa”. A ultrassonografista, médica, não se preocupou, explicou que até a 20ª semana ainda tinha tempo para “subir”, que não era nada preocupante. Mas a GO cesarista já me “diagnosticou” com placenta prévia (que só é diagnosticada assim depois de 20 ou 25 semanas) e tascou um “ó, não vai dar pra ser normal, porque você TEM placenta prévia”.

Para azar dela -e sorte minha-, no ultrassom seguinte, com 18 para 19 semanas, a placenta já estava normal. Só que ela continuou tratando a coisa como se eu fosse ter cesárea. Tive de lembrá-la de que meu parto seria normal algumas vezes durante a consulta.

Pensa que ela desistiu? Nada! Passado um tempo, ela “encontrou” outro “problema”: Enzo ainda não teria virado, nem se encaixado na posição de nascer. Que que ela me sugere, com calendário na mão? “Vamos marcar a cesárea, já que não vai rolar normal”? Agora me pergunta quantas semanas de gravidez: 22, 23. Que bebê PRECISA ter virado e estar encaixado para nascer com 22 semanas?? Devolvi essa pergunta para ela e reforcei: será normal, nada de marcar coisa nenhuma.

A terceira tentativa veio quando, às 30 semanas, eu me autodiagnostiquei com colestase gestacional. Sim, porque por ela eu estava só com alergia por ter comido três rodelas de abacaxi uns 15 dias antes dos sintomas (coceiras pelo corpo) começarem. A colestase é uma doença que pode surgir na gravidez, ninguém sabe ao certo porque, e consiste numa deficiência do fígado de excretar corretamente a bile, que se acumula no sangue gerando uma coceira dos infernos pelo corpo inteiro. Eu simplesmente não conseguia dormir e, mesmo no inverno, tomava banho frio na madrugada.

Em geral, a colestase é benigna, mas pode diminuir a concentração de vitamina K no sangue, que ajuda na coagulação. Grávidas com essa doença precisam acompanhar direitinho a evolução dela, pois, a partir de um determinado ponto, pode levar à hemorragia no parto. Para as que chegam nesse estágio, antes de parir é preciso tomar injeções de vitamina K, que serão reforçadas logo após o nascimento do bebê.

Enfim, achei estranho o diagnóstico de alergia, pesquise e encontrei essa doença no google. Sintomas batiam com os meus e por minha conta procurei um gastro; por minha conta pedi a ele os exames que medem as taxas de bile no sangue e por minha conta levei a ela, que DESCONHECIA a tal colestase (ok, é rara. Zero vírgula zero nada de mulheres têm, mas se eu achei…). Daí que quando ela soube do diagnóstico, tascou um “vai ter que ser cesárea”. Mas até dois segundos antes, ela NEM SABIA que isso existia, deosdoceu! Como é que no segundo seguinte já sabia que impediria o PN? Claro que não impede, só para registrar.

E, dali em diante, em toda consulta, ela fazia questão de tentar me convencer a agendar a data da cesárea, mesmo eu dizendo que queria normal. E ela: “mas escolhe, só pro caso”. Só pro caso de quê? A verdade é que ela ficou morrendo de medo da “doença desconhecida” e queria adiantar o parto do Enzo, numa cesárea eletiva, claro. A pressão era tamanha que eu cheguei a procurar outras GOs, já quase parindo. O problema é que não achei nenhuma em quem confiasse para trocar naquela altura dos acontecimentos. E por pior que fosse o jeito da minha GO de conduzir a situação, eu confiava nela tecnicamente, ela é minha gineco desde os 14 anos, enfim… Fiquei com medo de mudar e me arrepender.

Eu já estava suficientemente estressada por estar lidando com uma doença raríssima, que eu desconhecia, que me dava um incômodo horrível e ainda atrapalhava meu sono (só coça à noite, a porcaria da colestase). Tive medo, claro, de evoluir a ponto de prejudicar minha absorção de vitamina K, tive muito medo do parto. E a GO, para me “tranquilizar”, depois que leu sobre a doença, toda hora fazia questão de dizer que o fígado é órgão mais importante do corpo segundo a medicina chinesa, que eu tomasse cuidado, que era sério o que eu tinha, que era melhor fazer o parto logo e blá blá blá.

Claro que a responsabilidade não é só da GO e de sua pressão dos infernos, mas não tenho dúvidas de que ela contribuiu e muito para o resultado: minha pressão arterial começou a subir consistentemente a partir da 32ª semana. Eu, que sempre tive pressão 11 x 8, 10 x 7, não conseguia mais abaixar de 14 x 10.  No dia em que pari, minha pressão estava a 22 x 18, não tinha mais nada de líquido amniótico, havia risco de sofrimento fetal e risco de eclâmpsia (para mim). Eu entrei em trabalho de parto, o que foi ótimo, tive até dilatação de 8 centímetros, mas não pudemos esperar a natureza agir por causa das condições gerais apontadas acima. A cesárea, afinal, foi necessária. E é ótimo que exista a cesárea quando há necessidade dela. Não sou contra cesáreas a priori, elas salvam vidas. Mas só quando são NECESSÁRIAS.

Mas me pergunto: a minha teria mesmo sido necessária se a GO não pressionasse tanto desde o começo? Se não me assustasse tanto quando soube da colestase? Se não fosse cesarista? Se fosse entusiasta do parto normal? Porque risco por risco, há bem menos no normal, inclusive de hemorragias. Ali, na hora, foi necessária, mas teríamos chegado a esse estado de coisas se a condução do pré-natal tivesse sido diferente?

Claro que o que aconteceu comigo é um nada perto da violência obstétrica pela qual passam diversas mulheres, é nada perto de relatos sofridos de maus tratos, de abandono, de imperícia e de cesáreas totalmente desnece(s)áres, feitas totalmente contra a vontade das mães. Mas achei que valia relatar, pois sei que isso acontece em diversos consultórios por aí, sei que muitas mães são manipuladas para “escolher” cesáreas ao invés de PNs, são estimuladas a agendar cesáreas, sob o argumento (que eu ouvi várias vezes) de que depois das 38 semanas “tudo bem nascer a qualquer hora”.

No curso de pais que Dri e eu fizemos, só eu e mais umas três ou quatro mães -de uma sala lotada- queriam parto normal. Por que será? A que tipo de informações erradas as gestantes são submetidas para temerem o PN e acharem a cesárea melhor? Mentir, manipular, submeter não são formas de violência? Acho que sim, e são sutis, difíceis de serem percebidas. E é a esse tipo de violência que várias mães da nossa geração são submetidas antes e durante a gravidez, culminando nesses números ridículos de cesáreas no Brasil.

Minha GO dizia que cesárea era mais segura. Uma ova. Cesárea é uma cirurgia abdominal de alta complexidade, 7 camadas são laceradas, há mais risco de hemorragia e a recuperação é um outro parto, de tão chatinha, arriscada e complicada. O grande “barato” da cesárea é que o médico leva 20 minutos numa, ao passo que levaria até 12 horas num parto normal. Faz as contas de quanto ele ganha (em dinheiro) e economiza (em tempo) fazendo a cirurgia ao invés do procedimento natural.

Meia hora depois da minha cesárea, a GO estava flanando por aí, ou atendendo alguém, ou fazendo outra cesárea. E Enzo estava num bercinho aquecido, chorando sozinho. Por quê? Porque eu estava sem meu filho, imóvel, dopada, cheia de coceiras, com a pressão a 17 x alguma coisa, largada numa sala sozinha esperando passar o efeito da analgesia. Quatro horas depois da minha cesárea, a GO já poderia ter feito, sei lá, outras 4 cirurgias. Mas eu continuava dopada, pressão alta, coceira, largada sozinha. E pior,  sem nem ter conhecido meu filho, que continuava chorando sozinho num bercinho aquecido, vendido pelas maternidades como luxo tecnológico.

Só que eles esquecem que levaram 5 mil anos de civilização para fazer uma droga dum bercinho aquecido para “regular” a temperatura do RN aqui fora. Mas o colo, que faz as mesmas funções e ainda é amor, afago, acalento, sossego, segurança, faz isso desde sempre. Foram 5 mil anos pra imitar mal e porcamente o colo humano, do qual Enzo foi privado nas suas primeiras horas. E foi privado de mamar logo de cara, foi privado da mãe. E  por quê? Por causa da porcaria da cesárea, por causa da porcaria da pressão (arterial, da GO, da doença).

Enfim, tudo pra dizer que considero a pressão por cesárea e essa epidemia de cesáreas uma violência -contra a mãe e contra o bebê-, especialmente cesáreas agendadas, que são ainda mais violentas com os bebês. E tudo pra dizer que ainda há muito o que conquistar para as mulheres, incluindo o direito de parir direito.

Sou feminista, de modo que tudo o que tenho pra dizer sobre direitos e mulheres rende vários posts (farei um dia), mas só desejo que as moças parem de lamentar que o feminismo “acabou” com a “feminilidade” (já ouvi de várias), ou que acabou com as “gentilezas” (tipo um sujeito abrir a porta pra você) e abram os olhos para quanta violência ainda existe. Obstétrica, doméstica, sexual. Violência física e psicológica. Violência da submissão física ao macho (como o estupro), mas também violência da submissão psicológica, intelectual, financeira que muitas vezes é imposta. Violência do controle do corpo da mulher por outrem (vide valorização da virgindade, valorização de um certo padrão de beleza, como se fôssemos todas um bando de bonecas infláveis), violência do controle de nossas escolhas. E tem gente que ainda acha que gentileza é abrir porta de carro. Não, obrigada, a porta eu mesma abro, sou capaz disso também. A gentileza que quero é respeito e igualdade de direitos e de deveres.

Para quem quiser, acho bem bacana o teste de violência obstétrica. Eu deveria ter pedido informações para a Ligia Sena, do Cientista Que Virou Mãe, para inserir o formulário por aqui, mas não fiz por absoluta falta de tempo, de modo que sugiro que o teste seja feito lá na página da Ligia por enquanto. Pois, de qualquer maneira, vou pedir pra ela e depois insiro aqui.

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