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o renascimento do parto

"Maternite" (1963), de ninguém menos que Picasso (*)

“Maternite” (1963), de ninguém menos que Picasso (*)

A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda que as cesáreas representem, no máximo, 15% dos partos. No Brasil, no entanto, já atingimos o alarmante número médio de 50% de cesáreas. Isso botando na conta a população parturiente como um todo. Quando se levanta os mesmos números computando apenas as mulheres atendidas por hospitais particulares, a quantidade de cesáreas passa dos 80%, chegando aos 90% em alguns casos. Ou seja, o contrário do que a OMS define como ideal para resguardar a saúde da mãe e do bebê.

O Brasil é, hoje, o país mais “cesarista” de que se tem conhecimento. Na Europa, para uma comparação rápida, as cesáreas somam 25% dos partos. Eu faço parte das estatísticas, fiz uma cesárea (relatos aqui e aqui). E, por tudo o que li sobre isso depois do parto, também me incluo no grupo das que sofreram uma cirurgia desse porte desnecessariamente. Somos maioria, infelizmente, como mostram os números.

Penso que tem muita coisa que explica porque, em questão de duas gerações, as mulheres simplesmente deixaram de parir. Mas duas delas me chamam mais a atenção.

1) O medo: é assustador (e muito) ter outra pessoa crescendo dentro da sua barriga. É muito assustador imaginar como essa pessoa vai sair de lá, especialmente quando você é mãe de primeira viagem e não tem muita ideia de como serão as coisas e do que esperar, de fato, na hora do parto. Por mais que outras pessoas compartilhem suas experiências, só no momento do seu bebê nascer é que você vai saber como um parto funciona para você.

E esse medo vem sendo usado habilmente pela indústria da cesárea para convencer as mães de que, no seu caso, cesárea é fundamental. Indiscutível que cesáreas bem recomendadas salvam e salvaram muitas vidas. Mas acho meio impossível que, de repente, quase todas as mulheres tenham gravidezes de risco ou partos de risco. Desculpe, mas a conta não fecha.

2) O mito: Nada melhor que um bom mito para assustar definitivamente quem já estava com medo. Pois hoje a gente, coletivamente, passou a acreditar que as mulheres não têm condições de parir, que é preciso todo um preparo e um investimento em ginástica, terapias variadas, natação etc etc etc (que nem todas podem pagar) para parir um bebê por vias naturais.

Ou, se você não for masoquista a ponto de fazer questão de sofrer, e tiver grana, pode pagar pelas “maravilhas” da ciência num hospital de ponta. Garantia de cesárea.

Esse é o discurso explícito ou implícito tanto nas rodinhas de mulheres quanto na mídia ou nos consultórios de obstetras por aí. Quem pode ou paga para se preparar para o parto (como se realmente fosse preciso) ou paga para não ter de fazê-lo. E não falo só de quem opta por uma eletiva de cara, não. Falo de quem, como eu, ficou morrendo de medo a gravidez inteira e não teve coragem de bancar, de fato, o próprio parto normal.

É por tudo isso que o documentário “O Renascimento do Parto” está chegando em boa hora. Era para ter sido lançado no ano passado, não foi. Há um mês, mais ou menos, houve uma sessão especial para convidados, e o trailer está rolando pelas redes sociais e madresfera. 

Não assisti à projeção para convidados, mas o promocional me fisgou. Tem Michel Odent, por exemplo, questionando o que vai ser de uma sociedade que não produz mais o “hormônio do amor”, a ocitocina. Nunca tinha pensado nisso. Que mudanças veremos no mundo quando mulher nenhuma parir seu próprio filho?

Pra refletir –e muito.

(*) A bela imagem do gênio espanhol eu peguei daqui ó.

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da preocupação materna e do (quase) sobrepeso

Veja só como são as coisas: a mamãe preocupada que o filho come pouco, que deveria comer mais, que a papinha que ela faz não é boa/gostosa/comível, que ela está fazendo alguma coisa errada, que etc etc etc.

Daí tem a consulta mensal com a dra. Pediatra. E Enzo cresceu super bem, percentil 50. Só que engordou “melhor” ainda, percentil 85, o que faz do minimenininho um bebê com… risco de sobrepeso. Conclusão da médica: Enzo come “pouco”, pois tem, literalmente, gordura para queimar. E, no fim das contas, não deve estar comendo tão pouco assim.

O IMC da cria está em 19,9, o que significa quase chegar ao sobrepeso, segundo a tabela da OMS. E o índice veio subindo consistentemente. Aos 3 meses, por exemplo, era só 16,8, ou seja, estava na normalidade. Não sou especialista, mas arrisco algumas razões para isso:

1) Mamadeira 1. O LA é calórico, geralmente mais calórico que o LM. Cada mamadeira com 90 ml tem, em média, 475 calorias. E a cria mama mesmo, sem medo de ser feliz. São 4 ou 5 por dia, de 120 ml a 180 ml cada. Mais um ponto super contra o aleitamento artificial. Se ainda mamasse no peito, certeza que não teria engordado tanto. Não à toa, quando ele ainda mamava mais no peito que na mamadeira, seu IMC era considerado normal. Só ultrapassou a normalidade na medição dos 6 meses, quando Enzo já estava praticamente desmamado.

2) Mamadeira 2. Enzo acostumou a dormir chupetando o peito. Como não mama mais, transferiu o aconchego para o bico da mamadeira, de modo que prefere dormir mamando. Sei que preciso desacostumá-lo disso. Se ainda fosse o seio, ok. Mas a mamadeira nem gera vínculo nem nada, só atrapalha, pois o bebê acaba mamando mais do que precisaria, só pelo hábito. E, aos 8 meses, ele já come outras 5 refeições por dia (2 papinhas e 3 frutas). Tantas mamadeiras dispensáveis, portanto. Faz um tempo que tento dissociar soninhos do dia das mamadas; vou ter que me empenhar mais nisso.

3) Chorou, mamou. Tenho o péssimo hábito (blame on meus ancestrais italianos) de achar que Enzo sempre quer comer. Ele dá uma choradinha mais aguda ou insistente e já saco logo a mamadeira ou a papinha ou uma fruta. Claro que testo outras hipóteses antes de dar de comer, mas tendo a achar que ele sempre está com fome. Não sabia -ainda- que isso estava sendo prejudicial, até porque estava ligeiramente encanada com o suposto pouco apetite da cria. Bom, hora de começar a desvincular comida de choro, pois. Talvez Enzo até esteja mesmo acostumado a se acalmar com a comida. Mas isso não é legal nem do ponto de vista emocional.

4) Excesso de legumes. A dra. Ped acha que estou colocando legumes demais na comida dele. Na papinha de hoje, por exemplo, tem batata, beterraba, abóbora, além do espinafre e da leguminosa (no caso, lentilha). Segundo ela, não são necessários três tipos de legumes por refeição, nem legumes tão calóricos, com tanto carboidrato (da batata eu já conhecia a fama, mas, sinceramente, não tinha ideia de que os outros dois também eram do grupo dos “engordativos”).

Sempre coloco diversos tipos para variar na cor (e nas vitaminas, consequentemente). Prato colorido é mais saudável, sabe como? Acontece que isso é válido do ponto de vista de oferecer vitamina, mas não funciona para evitar calorias. A recomendação da dra. é dar um legume calórico combinado com um de baixíssima caloria (tipo chuchu ou abobrinha) na mesma refeição (mais o cereal, a leguminosa e o vegetal folhoso). No dia seguinte, substituir esse legume calórico por outro de mesmo teor de caloria, mas de cor (vitamina) diferente.

Fez sentido pra mim. E acho que pode ajudar inclusive Enzo a experimentar os alimentos individualmente. Porque eu já estava querendo parar de fazer “papinha” propriamente e começar a dar os alimentos amassados, mas separados. A médica liberou e, com menos legumes na lista, isso será mais fácil. Também estou engrossando a comida aos poucos, seguindo recomendações da Mari (nos coments daqui ó) e da Ped.

O quase sobrepeso não é nada sério, claro.  Quando Enzo começar a gastar mais calorias, engatinhar, andar, vai emagrecer naturalmente. Nem vou encanar com coisa de “regime” pelamor, que não se faz isso com bebês. Mas acho bacana prestar atenção para oferecer alimentação cada vez mais equilibrada e evitar excessos, ainda mais frutos de hábitos ruins.

E nunca é cedo demais para uma dieta que favoreça saúde, bem estar e que vá, desde agora, ensinando Enzo a comer bem. Uma coisa com a qual nós, mães dessa geração, temos de lidar sempre é com um certo “fantasma” da obesidade infantil, infelizmente uma quase epidemia: 15% das crianças são obesas no mundo. No Brasil, índice um pouco menor, 10%. *

* Dados e mais infos daqui, daqui e daqui.

PS: Vou organizar melhor a alimentação do Enzo criando um cardápio semanal, até para dar conta de intercalar esses legumes todos sem que o pequeno perca em variedade. Isso também vai ajudar a variar mais os pratos, que Enzo enjoa facilmente. Pra isso, vou ter de dar uma boa pesquisada nas propriedades (calóricas e vitamínicas) dos alimentos. Quando tiver sistematizado tudo, posto aqui, junto com algumas receitas prometidas.

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Arquivado em livro de receitas do minimenininho, Maternidade