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mais licença, menos creches

“É preciso uma aldeia para criar uma criança”

provérbio africano

Então a questão carreira x maternidade tem aparecido com força nas minhas relações novamente, seja nas mesas de bar, seja nos meus estudos/inquietações filosóficas, seja nas minhas avaliações sobre convicções pessoais, nos blogs que leio e nas redes sociais. Já abordei o tema várias vezes (aqui, por exemplo; mas também aqui e aqui) e entre ontem e hoje participei de um bate-papo virtual sobre o tema (e outras coisinhas) com algumas queridas no facebook.

Daí encontro esse vídeo, do pediatra José Martins Filho, sobre a importância do vínculo, dos cuidados e do afeto no início da vida da criança, principalmente no período que compreende a gestação e vai até os dois ou três anos.

E, entre muitos pontos essenciais, ele toca no assunto da licença maternidade de fato, não essa aí que temos hoje, que, cá entre nós, não serve para muita coisa. É precisamente a licença maternidade –e outros arranjos trabalhistas que possibilitem à mãe cuidar dos filhos e trabalhar ao mesmo tempo— o que precisa ser colocado em questão quando se fala em carreira (*) x maternidade.

Já contei que, para mim, não existe esse negócio de carreira versus maternidade. O versus entrou na equação apenas porque nossa sociedade (da qual fazemos parte, vale lembrar) não está nem aí para mulheres e crianças (assim como para muitos outros grupos), sejamos sinceros. As necessidades consideradas exclusivamente femininas e as necessidades consideradas exclusivamente infantis são ignoradas solenemente.

[Parêntese: estou falando em maternidade, necessidades femininas, mas não quero excluir a paternidade e os homens da equação. Uso esses termos por duas razões, basicamente: 1) as mulheres ainda são as que assumem a maior parte da responsabilidade na criação dos filhos; ainda é dela que se cobra deixar a carreira para ficar com os filhos ou vice-versa; ainda é a mulher que se coloca em questão em relação à carreira quando vira mãe. 2) algumas funções biológicas só mesmo a mãe pode cumprir (ou cumprir bem), como parir e amamentar. Mas acho os pais fundamentais, acho que há espaço para eles atuarem muito mais e volto a isso daqui a pouco.]

Então, na prática, expomos mulheres à situação dolorosa (torturante, eu diria) e absurda (sob todos os pontos de vista, mas especialmente sob o biológico, orgânico, natural) de ter de escolher entre se sustentar ou ficar com os filhos; de ter de deixar seus filhos muito pequenos com estranhos enquanto se remoem nas firmas para pagar as contas no fim do mês; de ter de se humilhar (como se tivesse pedindo favor) e aceitar pressões psicológicas e até financeiras (ganhar menos do que um colega homem, por exemplo) porque precisa ajustar alguns horários a necessidades do filho (amamentação, saídas para pediatras etc); de ter de abandonar qualquer possibilidade de trabalho remunerado e depender inteiramente de outra pessoa.

É um absurdo obrigar uma mãe a voltar ao trabalho com quatro meses de parida. Assim como é um absurdo obrigá-la a não voltar ao trabalho.

Isso sem falar do ponto de vista da criança, que o vídeo do José Martins aborda bem.

O que mais me incomoda nisso tudo é o pressuposto. Quando discutimos a questão social e publicamente, circulamos (como disco riscado) apenas em dois pontos: creche e maternidade. Partimos, portanto, da ideia de que o ideal é oferecer mais vagas em creches, afastar as crianças de casa, deixá-las mesmo com estranhos e “liberar” a mãe para o trabalho. Uma intervenção cada vez mais precoce do mundo considerado masculino (competição, conquista, poder, obejetivo, busca), socialmente valorizado, no mundo considerado feminino (da conexão, do cuidado, das relações, do encontro), socialmente desvalorizado.  Fica claro porque isso acontece, certo? Se valorizamos mais o trabalho que as relações, o “melhor” é ter creches para as mães deixarem as crianças e cuidarem do que “importa”.

Segundo ponto que me incomoda é que a discussão raramente inclua os homens, os pais. Se fala em creches para as mães, em licença de seis meses para as mães e em mães que largam o trabalho na firma e empreendem, em apoio à mãe empreendedora etc.

Como eu comentei na conversa lá no facebook, para mim o foco está invertido nos dois casos: o dinheiro que o governo e (algumas poucas) empresas gastam com creches seria muito melhor empregado em licenças maternidade e paternidade decentes, um ano no mínimo, dois no ideal (a OMS recomenda amamentação por pelo menos dois anos, lembra?).

Os pais (homens) poderiam ter licenças de fato e assumir parte das tarefas e da troca de afeto com os filhos no dia a dia, liberando a mãe para o trabalho nesse período. E as crianças –com pais e mães ou pais ou mães por perto– cresceriam num ambiente bem mais adequado que numa escolinha abarrotada de crianças sendo “cuidadas” por três ou quatro cuidadoras.

Para mim, os pontos centrais do debate sobre carreira versus maternidade são justamente as licenças para quem trabalha em regime de oito horas diárias e o estímulo ao aumento de participação masculina na vida familiar, coisas que o José Martins cita no vídeo, e que não é comum de serem mencionadas, daí eu ter vindo aqui compartilhar.

Isso não resolve o “problema”, que é precisamente uma sociedade que desvaloriza o que há de mais importante, que é a vida, manifestada na criança e na mãe que a pariu. Uma sociedade que desrespeita crianças está fazendo alguma coisa muito errada. Sair fora da caixa é o caminho, o meu caminho. Cada vez mais eu vejo e entendo que posso criar a vida que quiser e que tanto faz como as empresas lidam com a maternidade, porque eu sei como eu vou lidar com a minha e cada pessoa pode lidar com a sua da forma que achar melhor. Mas como nem todo mundo pode –materialmente–ou quer fazer isso por conta própria, acho que a licença materpaterna decente já seria um bom começo, um passo na humanização e no reconhecimento real dos direitos das mães e das crianças.

(*) carreira aqui é mais sinônimo de trabalho remunerado e razoavelmente estável do que de construção de uma jornada profissional “ascendente” e “bem sucedida” no mundo corporativo

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o post da Nine sobre mamíferas e o sustento da família

Sabe quando você tem um post muito importante, que você escreve mentalmente diversas vezes, mas que, por ser tão importante para você e condensar tantas ideias, nunca sai do papel?

Pois eu tenho um assim, que mistura no mesmo saco coisas complexas como maternidade, feminismo, instinto, trabalho, atribuições profissionais, feminino, capitalismo, patriarcado, papel do pai. Já fiz e refiz o texto tantas vezes e com um resultado tão aquém do que eu penso que acabei deixando parado, para marinar as ideias, sabe como?

Mas eis que a Nine publicou hoje está pérola aqui. Pronto, não preciso mais escrever o meu post. Como eu comentei lá, ela redigiu melhor e mais claramente tudo o que eu sempre quis dizer sobre esse assunto. Os pontos altíssimos do texto dela, para mim e segundo minha leitura do que ela escreveu:

-Cumprir nossas funções biológicas a contento (parir, amamentar, acalentar e acolher os filhotes muito pequenos) não pode nos impedir de ganhar nosso sustento. Isso não acontece com nenhum mamífero na natureza, só nessa nossa sociedade disfuncional.

-Papel biológico não tem nada a ver com os papéis de gênero que vivemos. Gênero é uma construção social. Não é porque você ovula e pari que precisa passar a roupa, lavar a louça e fazer o jantar todos os dias.

-Também não precisa ganhar menos que um homem em cargo igual, tampouco é responsabilidade sua apenas sair mais cedo pra levar filho no médico, fazer lição junto ou trabalhar em meio-período pra ficar mais tempo com as crias. Os homens têm responsabilidades domésticas e com suas famílias que não se limitam (quando muito) a pagar contas. Ser pai é muitíssimo mais complexo que isso. E exige um grau de comprometimento com o que é tido como “feminino”, exige doação e entrega.

-Igualdade não significa que tenhamos de ser iguais para ter os mesmos direitos. Falta à revolução feminista o mais importante: devolver a valorização perdida por milênios de patriarcado àquilo que é tido como feminino. É preciso que ser mãe e ser pai (cuidar, acolher, doar-se, valores considerados femininos) seja tão valorizado quanto ser doutora em física quântica ou presidente de multinacional, saca? Que um homem que abdica de um certo crescimento profissional para ficar com os filhos seja admirado, seja socialmente valorizado. Que fazer isso não seja menor, nem seja “trabalho de mulher”. É preciso que os meninos possam ser estimulados a desenvolver o feminino neles, e que nós, mulheres, não precisemos necessariamente almejar o sucesso-padrão (a conquista, a competição, a realização cartesiana, valores tidos como masculinos) para sermos respeitadas e admiradas. Mas que possamos fazer exatamente isso se quisermos.

Fato é que o post dela está muitíssimo melhor que esse meu resumo tosco. Corre, que vale muito a pena.

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dos limites e do ócio

Discordo bastante do senso comum sobre limites. Não acho que o principal problema das crianças seja falta de limites. Ao contrário, a vida delas já é bastante limitada, bem mais do que foi na minha geração. O que falta, na verdade, é tempo (com os pais, para o ócio, para não fazer nada, para fazer de tudo um pouco, para brincar, para errar…) e espaço (físico-literal, mas também figurado. Não há espaço para a infância, que é experimental e errante por natureza, numa sociedade em que, de repente, tudo é “orientado para resultados”).

Daí que venho pensando bastante nisso e, hoje, boa surpresa, encontro esse texto aqui no MMqD. Direto ao ponto, bota os pingos nos “is”. Estamos criando pessoas ou um exército de futuros yuppies que vão falar 15 línguas, ter experiências internacionais, MBAs, conhecimento sobre vinho e gastronomia nanomolecular e, paradoxalmente, não farão a mínima ideia de quem são?

Recomendo a leitura.

E, aproveitando, vale ver esse vídeo aqui, do sempre ótimo Carlos González. Com muito bom humor, tiradas irônicas e algum deboche, ele fala o que precisa ser dito sobre limites. Está em espanhol, infelizmente sem legendas. Mas, no geral, dá pra entender bem. E vale a pena.

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reflexões sobre educação e limites depois de uma manhã no “play”

E daí que ainda estou tentando entender alguns códigos de conduta, digamos assim, dos “plays”, pracinhas e afins. Eu não tinha a menor ideia de como as crianças são violentas umas com as outras, especialmente com as pequenas, mais indefesas. E de como isso é super tolerado por mães, pais, babás e similares. Nem imaginava que, para os pais, as “pracinhas” não são locais para CURTIR os filhos, mas para se LIVRAR deles.

Explico minha surpresa: o que mais tenho visto é o seguinte arranjo: pai ou mãe com filho um pouquinho maior (3 pra cima), que já brinca sozinho, deixa a cria lá no meio da molecada, arranja um local confortável para sentar (longe ou perto, tanto faz), liga o note, o tablet, abre um livro, o jornal e ESQUECE que pariu a criatura que, nesse momento, já está lá no parquinho fazendo uma das seguintes coisas (ou ambas ao mesmo tempo):

a) importunando os menores, seja tentando roubar-lhes os brinquedos, seja tentando impedir-lhes de brincar, seja ameaçando bater mesmo; b) subindo ou descendo perigosamente de algum equipamento, arremessando alguma coisa violentamente e gritando loucamente: “mamãããããe, papaaaaai, olha o que eu consigo fazer”. E sendo ignorado, claro.

No feriado, com Enzo num SESC, tive de –literalmente– fugir sala de brincadeiras afora porque um tal de João resolveu que meu filho –e outros pequenos que ousaram ir brincar também– não poderia tocar nada que ele visse. Vê só: estávamos agachados no tapete de atividades, no nosso canto, brincando com duas almofadas de encaixar. O tal João chegou, olhou a gente de longe, veio em nossa direção. Achei que quisesse brincar, ofereci uma das almofadas. A reação dele: pegou as duas e começou a gritar: “é meu, é meu, é meu”. Saiu correndo.

Ok, deixei para lá, crianças nessa fase (pela qual deduzi que o João está passando) são assim mesmo, tudo é deles. V’ambora com Enzo até o outro canto, onde ele achou outros brinquedos. Eis que o mocinho “é meu, é meu” nos vê e corre para o nosso lado novamente, tentando levar embora o brinquedo pela segunda vez. Não deixei. Gentilmente, disse que estávamos brincando agora, que ele se juntasse a nós. Desistiu por um tempo, foi para longe.

Aí eis que ele viu Enzo escorregando. Veio na nossa direção novamente e tentou impedi-lo. Simples assim, entrando na frente, dizendo “não”. Abri espaço para ele passar, sugeri que ele passasse antes e logo, pois estávamos usando aquele brinquedo, ele entrou na frente, parou, não subia nem saia de lá. Suspendi Enzo no colo, pulei a “subida” no escorrega e desci Enzo, normalmente.

E aí procurei, com os olhos, a mãe do guri. Pohan, não vou pro “play” para ficar cuidando de filho dos outros. Nem para voltar à quarta série e ficar me acotovelando com crianças no parquinho, como se tivesse a idade deles. Quando Enzo “atravessa” a diversão de outras crianças, tenta brincar com o que já tem “dono” ou participar de brincadeiras nas quais não é bem vindo, sou eu mesma que intervenho e mostro a ele que as outras crianças têm limites. É meu papel inseri-lo em certas normas de convivência pacífica com os demais.

Mas cadê a mãe do tal João? Procurei, procurei e então achei uma mulher sentada, láááá longe, lendo o Estadão, sem nem levantar os olhos ocasionalmente para ver onde o filho estava. “Rá, aí está a mãe do João”, pensei. E era mesmo.

Ela só se comunicou com o filho ou interveio na brincadeira dele quando ele levou para o tapete de atividades um brinquedo particular (*). Claro que as outras crianças se interessaram, e o João perdeu a compostura. Se já gritava “é meu, é meu” para o que era de todos, imagine para o que era, de fato, dele. Depois do décimo grito e de  muita choradeira, lá do alto do seu “tô-nem-aí”, a mãe  do João berrou de volta: “brigando de novo, João?”. Por que será, né? E a moça só foi até onde estava o filho longos minutos depois para recolher o tal brinquedo. Seca, quase pisando nas outras crianças, mandou: “Me dá isso que eu vou guardar!”. Pegou, saiu, batendo os pés, sem nem olhar para trás. Sentou, reabriu o jornal e esqueceu do João.

Não é um caso isolado. Já vi acontecer outras vezes coisas parecidas, com Enzo ou com outras crianças menores que o “brincalhão” metido a violento. Parece que o barato da brincadeira não é brincar em si, mas impedir os mais “fracos” de se divertirem, mostrar “força”, “poder”. E o denominador comum desses casos todos são os pais aparentemente ausentes. Não posso falar como é a relação dessas crianças com seus pais em casa, mas nos ambientes coletivos asseguro que é uma lástima.

Pais que dão de ombros pros próprios filhos em pleno fim de semana, normalmente o único momento em que adultos ocupados têm, em tese, tempo de conviver com as crias. Mas esses mesmos adultos (serão adultos mesmo?) estão sempre mais ocupados com seus próprios umbigos, e a insatisfação e raiva das crianças sem atenção acabam sobrando para outros pais e crianças que não têm nada a ver com isso.

Já tive de ler histórias para uma menino cujo nome nem sei, mesmo seus pais estando a menos de dez passos de onde eu estava com Enzo. Eu lia para o meu filho, e o pequeno desconhecido ficava trazendo livrinhos para mim, não para os próprios pais, que viam tudo e continuavam sentados, impassíveis, diante do evidente interesse do filho. Depois de várias historinhas compartilhadas, o menino começou a implicar com Enzo, queria subir no meu colo (!!!), onde Enzo estava, claro, e aí a coisa toda ficou tão estranha que agradeci horrores quando vi que estava na hora de ir almoçar.

Confesso que não sei o que fazer nessas situações. Fico preocupada com a criança largada, que busca chamar a atenção importunando os demais. Mas fico mais preocupada é com o meu filho e com os outros bebês importunados. E também confesso que não consigo sentir muita empatia pelas mães/pais que largam seus filhos como se o parquinho, o play ou o que quer que seja fosse passe livre para se verem livres das responsabilidades maternas/paternas.

Sabe? Desinteresse é uma violência, né? Especialmente quando os desinteressados são os pais justamente pelos filhos, que precisam tanto da atenção deles para crescer e se desenvolver emocionalmente. Natural que os pequenos reproduzam a violência que sofrem (ainda que de outras formas) com os menores que eles.

Daí que todo mundo fala o tempo todo em limites. “As crianças precisam de limites”. “Eles são malcriados porque não têm limites”. “Falta castigos, falta pulso”. Blá blá blá whiskas sachet, o que falta mesmo, pelo menos aos “valentões” mirins que ando encontrando por aí, é um pouco mais de amor, de presença, de carinho, de interesse GENUÍNO. Só isso já ajudaria muito.

(*) Também continuo tentado entender porque uma mãe ou pai leva a um local coletivo brinquedos que o filho não quer compartilhar com outras crianças. Se seu rebento está naquela fase do “é tudo meu”, melhor manter os brinquedos dele em casa, não? Porque se ele aparecer com as coisas no “play”, é lógico que as outras crianças vão querer brincar também. Ou é difícil demais imaginar isso?

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laura gutman: só lendo

Comecei a ler a Laura Gutman. Quem é mãe blogueira e frequentadora assídua da madresfera sabe bem de quem estou falando.Para quem ainda não sabe, Laura Gutman é uma psicóloga argentina, especializada em amamentação e no atendimento a crianças e casais. “Militante” da criação por apego, é fundadora da Escola Capacitação Crianza, onde atende mães e bebês e promove cursos para profissionais da saúde e doulas.

Laura escreveu o que acho que seja o mais importante livro sobre maternidade da nossa geração,  “A maternidade e o encontro com a própria sombra“,  justamente o que estou lendo agora, numa “sentada” só (impossível parar de ler!). Entre (muitas) outras coisas, ela mostra de que forma emoções que consideramos “ruins” e que pretendemos não reconhecer (a nossa “sombra”) se refletem nos nossos filhos.

Ela fala de gravidez, de parto, de amamentação, de comportamentos e doenças infantis, do papel dos homens, do prazer das crianças (e da nossa reação a ele), de limites e comunicação, de sono, de violência. E escreve sobre tudo isso com uma profundidade que eu não tinha encontrado antes em nenhum  “especialista”  que ousei ler.

A leitura de  “Maternidade”  é, ao mesmo tempo, prazerosa e dolorida. Gutman afaga e acolhe na medida em que nos ajuda a reconhecer que muitas das nossas falhas são “explicáveis”por um sistema de coisas que é alheio à nossa vontade; mostra que a maioria das nossas inclinações maternas –aquilo que a gente tem vontade genuína de fazer de bom pros filhos, mas que a sociedade recrimina–são heranças femininas que carregamos conosco há milênios e que, em última análise (como já disse Carlos González), permitiram a sobrevivência da espécie humana por essas bandas.

Mas também é soco no estômago porque nos força a reconhecer que a parte de nós que nos esforçamos tanto para esconder nossos filhos trazem à luz. É difícil engolir que, de repente, aquela atitude que tanto irrita na criança é apenas RESPONSABILIDADE sua ou a manifestação externa, no bebê, de um conflito SEU.

Também pode ser complicado para algumas mães refletir sobre a maternidade que praticam. Gutman, assim como González, adota o ponto de vista do bebê. Ou seja, não se preocupa muito em passar a mão na cabeça das mães. Ao contrário, aponta como funciona a psiquê dos pequenos, a “fusão” com a mãe nos dois primeiros anos de vida, a “exterogestação”, que dura os primeiros nove meses, e a consequente importância que a figura materna tem na formação da personalidade das crianças. Sem medo de cutucar as mães, ela mostra o IDEAL de maternidade para a CRIANÇA (não para a mãe, nem para o marido, tampouco para o mercado de trabalho).

Enfim, muito mais do que um manual do tipo “faça isso, não faça aquilo”, o livro é uma espécie de “reflexão guiada” sobre si mesma e sobre o universo da formação da personalidade dos bebês. É profundo e libertador.

Mesmo ainda na metade, recomendo. Ainda ruminando o que tenho lido, separei algumas frases para compartilhar por aqui:

“O selvagem torna todas as mulheres saudáveis. Sem o lado selvagem, a psicologia feminina fica desprovida de sentido”.

“O mundo seria outro se as salas de parto fossem menos silenciosas, se no início da relação entre os seres humanos houvesse espaço para as emoções, se a desumanização não abrangesse as áreas da boa vinda ao mundo”.

“Quando as situações injustas são correntes, perdemos a noção de liberdade”.

“Talvez este [o parto] seja o espaço mais sutil encontrado por toda a sociedade para se permitir exercer o controle, os maus-tratos e o ódio sobre o poder infinito das mulheres que estão parindo”.

“Quando [o bebê] mama com mais frequência, isso não acontece, necessariamente, pelo fato de o leite não ser suficiente. Pelo contrário, é porque é um bebê ativo, conectado e feliz”.

“Um bebê se constitui um ser humano na medida em que está em total comunicação com o outro, de preferência a mãe. (…) o tempo todo de colo, calor, abrigo, movimento, ritmo”.

“A possibilidade de sugar, ingerir e satisfazer a fome deveria estar disponível cada vez que o bebê pedisse”.

“Deveríamos refletir sobre o poder que exercemos sobre elas [as crianças], na posição de adultos, dizendo arbitrariamente quando é justo oferecer alimento e quando isso não é adequado ou merecido”.

“A alma não registra o tempo”.

“Somos uma sociedade extremamente violenta com nossas crias. Insistimos em não atender as queixas dos bebês, que dependem exclusivamente do cuidado dos adultos”.

Esse são só alguns exemplos, o livro é repleto de ideias complexas, que precisamos “marinar”  com calma. Para quem se interessou, também recomendo um vídeo que as meninas do Mamatraca fizeram para registrar a palestra da Gutman no Brasil. Elas editaram as melhores partes do seminário, que podem ser conferidas aqui ó.

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pitacando no Mamatraca

Hoje estou lá no Mamatraca, pitacando sobre a regulamentação da publicidade infantil. Sou favorável à criação de uma legislação específica que regule a publicidade voltada para crianças (já contei aqui os meus motivos) e estou, portanto, acompanhando com muito interesse o desenrolar da tramitação do PL 5921, que pode ser um primeiro passo nesse sentido.

Também faço parte do coletivo de mães e pais Infância Livre de Consumismo e, como integrante desse grupo aguerrido e cheio de disposição para defender os interesses dos nossos filhos, dei o depoimento que virou este vídeo aqui no portal das queridas Anne Rammi, Priscilla Perlatti, Carol Passuello e Roberta Lippi.

Bóra lá dar uma olhada? Depois volte aqui e me diga o que achou. Publicidade para crianças deve ser melhor regulada? Ou você está satisfeita (o) com as coisas como são hoje em dia?

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a primeira vez que nos ouviram

Terça, dia 3/7, foi um dia histórico. Ok, é meio clichê dizer isso, mas o fato é que foi mesmo. Pela primeira vez um coletivo de pais, um grupo de pais e mães que é só isso mesmo (um grupo e não uma ONG ou uma associação ou qualquer coisa com personalidade jurídica) foi ouvido em uma audiência pública na Câmara Federal.

Para além do fato de eu estar envolvida pessoalmente nisso por participar do Infância Livre de Consumismo (ILC), o coletivo de mães pró-regulamentação publicitária, comemoro essa audiência como mãe e como cidadã. Ir à Brasília é uma prova de força dos cidadãos, daqueles que se organizam e se mobilizam para defender interesses coletivos. É uma mostra inconteste também de que nossa democracia amadureceu, se consolidou, está pronta para ouvir nossas reivindicações diretamente das nossas bocas.

Representantes políticos e organizações são importantes, mas acho que é um passo à frente o cidadão ser ouvido não por que votou nesse ou naquele (muitos dos quais nem representam mesmo seu eleitorado, infelizmente) nem porque faz parte dessa ou daquela ONG. Mas porque é diretamente interessado em algo e tem algo a dizer. Ponto. Isso deve bastar para ser ouvido. E, nesse caso, bastou.

A colega blogueira Tais Vinha (Ombudsmãe) foi quem participou da audiência e falou a deputados, a representantes de instituições, de empresas, de publicitários; a gente que pensa como nós e a gente que pensa diferente. Falou como mãe, não como especialista. Defendeu a regulamentação da publicidade dirigida às crianças, principalmente porque são hipervulneráveis.

“Somos a geração dos superassediados. Da hora que acordam até o momento de dormir, as crianças são bombardeadas pela publicidade do consumo. E cada vez mais as crianças viram alvo de campanhas adultas, pois a publicidade sabe da influência da criança nas decisões de uma casa”, disse em entrevista ao jornal “Estado de Minas”.

Defendeu politicamente os argumentos que nós, mães e pais, debatemos há anos virtual e presencialmente: Taís -e os outros convidados pró-infância, pró-regulamentação, como a representante do Conselho Federal de Psicologia, Roseli Goffman e o representante da Procuradoria dos Direitos do Cidadão do MPF, Domingos Savio Dresch da Silveira- argumentaram, principalmente, que:

1) Criança é hipervulnerável, não diferencia o que é real e o que é manipulação no discurso publicitário;

2) Criança não deveria ser alvo de publicidade, pois nem comprar pode, segundo do Código de Defesa do Consumidor;

3) Regulamentar a propaganda infantil não tem nada a ver com censura, tendo em vista que se trata de um discurso comercial, que pode e deve ser regulamentado. A Constituição Federal protege a liberdade de expressão da imprensa e dos cidadãos, que não estão sendo ameaçadas pelo projeto de regulamentação da publicidade para crianças. Até nos EUA, meca do capitalismo, o discurso comercial não é protegido pela Primeira Emenda, que protege a liberdade de expressão;

4) Em relações comerciais, há sempre um lado vulnerável que deve ser protegido: o consumidor. Se as relações comercias já não são equânimes quando envolvem apenas adultos, que dirá com crianças no meio;

5) A responsabilidade da proteção à infância e da educação é dos pais, sim. Mas é também do Estado (poder público) e da sociedade, o que legitima, sem dúvidas, uma regulamentação;

6) Regulamentar a publicidade não significa que o Estado vai interferir na vida privada das famílias. Se a propaganda à criança for proibida ou limitada, as empresas poderão continuar anunciando seus produtos aos pais, que, com capacidade para isso, irão decidir se compram ao não determinado produto para os filhos.

Para quem quiser saber mais sobre a audiência e sobre o PL que regulamenta a publicidade, vá por aqui e assista / ouça à reunião (só funciona se aberto em Internet Explorer; não rola em outro navegador). Ou entre aqui e conheça mais um pouco o ILC, formado por mães como eu e você, cheias de tarefas, atividades, compromissos, mas que se uniram informalmente para defender a infância dos filhos.

Ah, Tais Vinha conta está contando, lá no MMqD, a experiência ímpar de nós, pais e mães, termos sido ouvidos pela primeira vez pela Câmara; clique nesse link aqui.

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