Arquivo da tag: publicidade infantil

pitacando no Mamatraca

Hoje estou lá no Mamatraca, pitacando sobre a regulamentação da publicidade infantil. Sou favorável à criação de uma legislação específica que regule a publicidade voltada para crianças (já contei aqui os meus motivos) e estou, portanto, acompanhando com muito interesse o desenrolar da tramitação do PL 5921, que pode ser um primeiro passo nesse sentido.

Também faço parte do coletivo de mães e pais Infância Livre de Consumismo e, como integrante desse grupo aguerrido e cheio de disposição para defender os interesses dos nossos filhos, dei o depoimento que virou este vídeo aqui no portal das queridas Anne Rammi, Priscilla Perlatti, Carol Passuello e Roberta Lippi.

Bóra lá dar uma olhada? Depois volte aqui e me diga o que achou. Publicidade para crianças deve ser melhor regulada? Ou você está satisfeita (o) com as coisas como são hoje em dia?

Deixe um comentário

Arquivado em Maternidade, reflexões

a primeira vez que nos ouviram

Terça, dia 3/7, foi um dia histórico. Ok, é meio clichê dizer isso, mas o fato é que foi mesmo. Pela primeira vez um coletivo de pais, um grupo de pais e mães que é só isso mesmo (um grupo e não uma ONG ou uma associação ou qualquer coisa com personalidade jurídica) foi ouvido em uma audiência pública na Câmara Federal.

Para além do fato de eu estar envolvida pessoalmente nisso por participar do Infância Livre de Consumismo (ILC), o coletivo de mães pró-regulamentação publicitária, comemoro essa audiência como mãe e como cidadã. Ir à Brasília é uma prova de força dos cidadãos, daqueles que se organizam e se mobilizam para defender interesses coletivos. É uma mostra inconteste também de que nossa democracia amadureceu, se consolidou, está pronta para ouvir nossas reivindicações diretamente das nossas bocas.

Representantes políticos e organizações são importantes, mas acho que é um passo à frente o cidadão ser ouvido não por que votou nesse ou naquele (muitos dos quais nem representam mesmo seu eleitorado, infelizmente) nem porque faz parte dessa ou daquela ONG. Mas porque é diretamente interessado em algo e tem algo a dizer. Ponto. Isso deve bastar para ser ouvido. E, nesse caso, bastou.

A colega blogueira Tais Vinha (Ombudsmãe) foi quem participou da audiência e falou a deputados, a representantes de instituições, de empresas, de publicitários; a gente que pensa como nós e a gente que pensa diferente. Falou como mãe, não como especialista. Defendeu a regulamentação da publicidade dirigida às crianças, principalmente porque são hipervulneráveis.

“Somos a geração dos superassediados. Da hora que acordam até o momento de dormir, as crianças são bombardeadas pela publicidade do consumo. E cada vez mais as crianças viram alvo de campanhas adultas, pois a publicidade sabe da influência da criança nas decisões de uma casa”, disse em entrevista ao jornal “Estado de Minas”.

Defendeu politicamente os argumentos que nós, mães e pais, debatemos há anos virtual e presencialmente: Taís -e os outros convidados pró-infância, pró-regulamentação, como a representante do Conselho Federal de Psicologia, Roseli Goffman e o representante da Procuradoria dos Direitos do Cidadão do MPF, Domingos Savio Dresch da Silveira- argumentaram, principalmente, que:

1) Criança é hipervulnerável, não diferencia o que é real e o que é manipulação no discurso publicitário;

2) Criança não deveria ser alvo de publicidade, pois nem comprar pode, segundo do Código de Defesa do Consumidor;

3) Regulamentar a propaganda infantil não tem nada a ver com censura, tendo em vista que se trata de um discurso comercial, que pode e deve ser regulamentado. A Constituição Federal protege a liberdade de expressão da imprensa e dos cidadãos, que não estão sendo ameaçadas pelo projeto de regulamentação da publicidade para crianças. Até nos EUA, meca do capitalismo, o discurso comercial não é protegido pela Primeira Emenda, que protege a liberdade de expressão;

4) Em relações comerciais, há sempre um lado vulnerável que deve ser protegido: o consumidor. Se as relações comercias já não são equânimes quando envolvem apenas adultos, que dirá com crianças no meio;

5) A responsabilidade da proteção à infância e da educação é dos pais, sim. Mas é também do Estado (poder público) e da sociedade, o que legitima, sem dúvidas, uma regulamentação;

6) Regulamentar a publicidade não significa que o Estado vai interferir na vida privada das famílias. Se a propaganda à criança for proibida ou limitada, as empresas poderão continuar anunciando seus produtos aos pais, que, com capacidade para isso, irão decidir se compram ao não determinado produto para os filhos.

Para quem quiser saber mais sobre a audiência e sobre o PL que regulamenta a publicidade, vá por aqui e assista / ouça à reunião (só funciona se aberto em Internet Explorer; não rola em outro navegador). Ou entre aqui e conheça mais um pouco o ILC, formado por mães como eu e você, cheias de tarefas, atividades, compromissos, mas que se uniram informalmente para defender a infância dos filhos.

Ah, Tais Vinha conta está contando, lá no MMqD, a experiência ímpar de nós, pais e mães, termos sido ouvidos pela primeira vez pela Câmara; clique nesse link aqui.

1 comentário

Arquivado em Maternidade, paternidade, reflexões

a alma do negócio

Na semana passada, no blog do MMqD, a Pérola Boudakian escreveu um post ótimo sobre a publicidade para crianças. Entre outras coisas, ela fez uma entrevista super bacana com duas das blogueiras mais ativas nesse campo: a Mari Sá, do Viciados em Colo, e a Tais Vinha, do Ombudsmãe. Recomendo uma boa lida.

Muitos dos argumentos de ambas já foram expostos por aqui, mas ressalto duas coisas. 1) Tais lembra -muito bem- que as crianças ainda não conseguem diferenciar muito bem o que é fantasia do que é imaginário. Para elas, é ainda mais nociva a mensagem -largamente difundida pela publicidade- de que é preciso consumir para ser alguém. E, pior, essa mensagem vem sendo direcionada aos nossos filhos por intermédio de concessões públicas de comunicação que, em tese, deveriam nos ajudar a formar uma sociedade de cidadãos, não uma legião de consumidores.

2) Já a Mari dá exemplos muito tristes de crianças assumindo comportamentos que já seriam nocivos em adultos, que dirá em crianças: uma amiga da filha cuspiu um chocolate porque não queria engordar; outras deixam de brincar pois estão vestidas como gente grande (salto, cabelo “feito”). Esse comentário também me deu a impressão de que, para as meninas, assim como para as mulheres, no mundo machista em que vivemos, o fardo é mais pesado. Parece que delas se exige mais. Mais uma razão para regulamentarmos a publicidade infantil: igualdade de gêneros.

E acabei voltando a esse assunto também porque a leitora Patrícia, que comentou lá no post do MMqD, sugeriu um documentário sobre o tema, disponível no YouTube. Já tinha ouvido falar, mas assisti a ele apenas ontem. Recomendo muito. Trata-se do “Criança: A Alma do Negócio”, da Estela Renner (diretora do “Amores Expressos“, uma vídeo série que registrou os bastidores da criação de romances para uma série de literatura com o mesmo nome).

O documentário mostra, por exemplo, crianças dando seus depoimentos sobre como a publicidade direciona seus hábitos, gostos e opções. E, claro, ouve pais e especialistas, que apontam os estragos que a propaganda podem fazer na autoestima e na autoimagem dos pequenos.

Vale a pena dar uma boa olhada.

Já disse que ainda não sei bem qual seria o modelo ideal de regulamentação e regulação de publicidade infantil. Mas o marido -que é favorável à proibição total- saiu-se com um argumento que acho válido compartilhar. Nossa legislação proíbe menores de 18 anos de assinarem qualquer contrato de compra, venda, prestação de serviço etc. Isso porque entende que quem tem menos de 18 ainda não tem elementos suficientes para decidir autonomamente por adquirir ou se desfazer de algo, nem para entrar de igual para igual numa negociação. Então, se já partimos desse pressuposto, é um contra-senso imaginar que os pequenos -que não podem comprar- podem ser alvos de propagandas, certo?

 

5 Comentários

Arquivado em gênero, Maternidade, reflexões, Uncategorized

por que sou contra propaganda para crianças

Sou leiga. Não tenho argumentos acadêmicos nem conhecimento para fazer um debate em profundidade. Mesmo assim, como mãe e como cidadã, sou contra a publicidade dirigida ao público infantil, pelo menos da forma como é hoje. Tenho lido manifestações sobre isso aqui, ali e acolá, muitas mães, ONGs e interessados estão debatendo o assunto há pelo menos uma década e, recentemente, a ABAP, que é a associação dos publicitários, resolveu defender os interesses da categoria jogando toda a responsabilidade nas costas dos pais e das escolas (vou falar sobre isso mais pra frente), o que esquentou a discussão e os ânimos. Senti, pois, que era hora de me manifestar também.

Como leiga, mãe e alvo de publicidades a vida inteira, sou contra a propaganda para crianças especialmente pelo seguinte:

1) Desrespeito à infância: o consumismo é contrário à inocência da infância. Trata-se de um grupo de valores essencialmente do mundo adulto e que promove “valores” como o ter pra ser, o que já é questionável entre adultos, que dirá para crianças. Quando falo em inocência, não me refiro à sexualidade. Para mim, a inocência infantil é olhar o mundo sem cinismo, sem competições, sem cisão. Criança é gregária. Nós, adultos, é que “ensinamos” a eles como repelir o diferente. E a publicidade e a mídia, disseminando o consumismo, estimulam as crianças a abrirem mão da infância, a apegarem-se a valores adultos para “sentirem-se alguém”, já que, reza a cartilha do consumo desenfreado, ser alguém virou sinônimo de ter alguma coisa. Às favas, portanto, com o respeito próprio pelo que se é, ao respeito ao outro pelo que ele é.

A publicidade e o consumismo disseminam, além do mais, valores estereotipados sobre sexualidade, classe social, comportamento de gênero, raça, religião. Outro desrespeito à infância e à liberdade de pensamento, experimentação e ao lúdico, característicos dessa fase. Hoje é muito comum -movimento que penso que começou quando eu era criança, nos anos 80- os pequenos preocupados com salário dos pais, com os carros dos pais, com a posição social dos pais e com outros indicadores de status familiar na sociedade.

Também vejo com frequência crianças culpando os pais por não terem dinheiro para lhes dar esse ou aquele modelo de celular, roupas da marca X ou acesso a salões de cabeleireiros com a mesma frequência que os pais das amigas oferecem às filhas. Vejo com tristeza meninas de 10 anos ou menos alisando seus cabelos, pintando os cabelos, pintando as unhas. Eu também fiz isso e é natural que as meninas copiem as mães e mulheres mais velhas, mas quando acontece ocasionalmente e quando é lúdico. Tornar esses comportamentos como padrão é encurtar a infância, coisa estimulada pela mídia em geral, incluindo aí as propagandas para crianças.

2) Convencimento: publicidade é, basicamente, tentar convencer você a comprar algo de que não precisa. Se precisasse, você mesmo já teria comprado, sem “ajuda” de ninguém. E esse convencimento não é feito na base do argumento racional. Até tem informações realmente importantes em comerciais de TV, revistas, jornais. Mas o principal conteúdo publicitário é aquele que fala aos desejos e aspirações e dá uma banana à  alegada racionalidade.

Uma coisa é fazer isso com adultos, teoricamente mais capacitados para separar o joio (apelo às emoções) do trigo (as informações que realmente valem a pena e ajudam a tomar uma decisão racional de compra), teoricamente mais seguros de si e menos vulneráveis às imagens publicitárias sobre o que é “bom”, o que é “belo”, o que é ser “legal”, o que é ser “bem sucedido”.

Outra bem diferente é usar as crianças para obter lucros. O mesmo jogo manipulatório que se instala com os adultos (inflamar desejos latentes e fazer crer que o produto “y” vai proporcionar determinada coisa -que não é bem o produto em si) é reproduzido com os pequenos. Só que os pequenos são…pequenos, estão em formação, são mais vulneráveis, pois.

Acho moralmente questionável usar esses métodos com crianças, para dizer o mínimo. Acho moralmente questionável, para dizer o mínimo, que as empresas falem diretamente às crianças e usem os pequenos para ganhar dinheiro. Por quê?

3) Tratar desiguais como iguais é violência: Por isso. Porque tratar crianças como se fossem iguais aos adultos, ali no limite entre a malandragem e a falta completa de ética, é uma violência. É manipulação pura e simples em busca de lucros. É saber que as crianças não estão prontas para “dialogar” com os conteúdos publicitários e aproveitar isso em benefício próprio para vender mais.

Dito isso, não sei qual seria o modelo ideal, se proibir totalmente ou regular-se limites, por exemplo, por faixa etária (crianças de 2 anos são diferentes de crianças de 8 que são diferentes de pré-adolescentes de 12). Mas é fato, pra mim, que como está não pode ficar. Acho um desrespeito à infância. E se isso tudo já não fosse motivo suficiente, tem mais:

O modelo atual é falho, na minha opinião, também por causa da tal autorregulamentação. Não acredito nela. Não quando há tantos interesses e tanto dinheiro em jogo. O mercado publicitário no Brasil (no mundo?) é bilionário. É só dar uma olhada aqui e aqui para comprovar. Faturou R$ 28,45 bilhões em 2011, segundo dados do Projeto Inter-Meios, do jornal Meio & Mensagem. Acha mesmo que eles vão contrariar os próprios interesses e arriscar ganhar menos?

Daí quando todo mundo achava que, de repente, fosse possível estabelecer algum diálogo civilizado com a turma da publicidade e com as empresas que eles representam, eles me aparecem com essa campanha aqui, que diz que “somos todos responsáveis” querendo dizer “vocês, pais, mães e educadores, que se virem com os seus filhos”.

Eles defendem, por exemplo, na página que criaram para a tal campanha, que pedir brinquedos é saudável, pois isso ensina as crianças a almejar coisas. Que argumento mais ridículo, com todo o respeito. Querer coisas é inerente ao ser humano. Nós já queríamos coisas bem antes de inventarmos as fábricas de brinquedos. A evolução do homem não começou quando as fábricas de brinquedos nasceram. E há coisas e coisas a serem almejadas -uma boa discussão, aliás. Há quem queira ensinar aos filhos que é possível desejar SER alguma coisa. Os publicitários querem que os nossos filhos só desejem TER alguma coisa.

É mesmo diálogo que os publicitários querem quando tentam empurrar goela abaixo argumentos desses? Dá mesmo para confiar no bom senso de quem argumenta uma bobagem dessas para decidir os limites da propaganda infantil? Eu acho que não.

E penso que é sim papel nosso -de pais e mães- orientar nossos filhos em relação ao mundo em que vivem, o que inclui publicidade, consumismo, desejos, modelos de vida, estereótipos etc. Mas não podemos ser os únicos responsáveis por isso, como se não houvesse responsabilidade nenhuma no ato deliberado de se tentar manipular um desejo infantil para lucrar mais com ele…

Também precisamos ser realistas e perceber que, com a publicidade como está, o embate entre pais x mídia é desigual, com larga vantagem para o conteúdo da propaganda, baseado em pesquisas sofisticadas, psicologia, manipulação de desejos inconscientes e por aí vai. Por mais que sejamos presentes, que nosso maternar/paternar seja ativo, vamos sempre usar a racionalidade para mostrar aos nossos filhos o mundo que nos cerca. Os publicitários, não.

Para os publicitários, eu digo o seguinte: se é para vender -e as empresas têm todo o direito de tentar comercializar seus produtos- como bem lembrou a Mari, que vendam para mim. Aí sim o jogo será mais equilibrado. E, claro, aceitem a responsabilidade integral quando forçarem a barra, aceitem que sermos “todos” responsáveis inclui vocês aí, das agências, das indústrias, do marketing, do desenvolvimento de produtos para crianças. Aí sim a gente pode começar a achar que vocês querem dialogar de verdade, pensando no interesse coletivo. Aí sim quem sabe eu acredite no CONAR.

Porque é fácil encher a cabecinha dos pequenos de informações manipuladas e dizer que responsáveis somos os pais, né? Então os publicitários se responsabilizam pelo quê mesmo?

Quanto à regulamentação, penso que o Estado que, em tese, somos todos nós representados, esteja aí para isso também, mesmo sendo o Brasil um país capitalista. O Estado deve regular as relações comerciais e as relações entre desiguais. Do contrário, vira um “quem pode mais, chora menos”. A Constituição Federal e o ECA deixam bem claro, falando especificamente de infância, que é dever do Estado proteger as crianças. Não vejo nenhum problema em regulamentar, portanto, a publicidade infantil que, bem ao contrário do que pode parecer, não é uma simples disseminação de conteúdo. É tentativa de arrancar uns trocos a mais de crianças inocentes colocando em risco a infância delas, sua visão de mundo e seu respeito próprio.

Recomendo a leitura, para quem quer saber mais, de alguns posts bacanas, que fazem refletir:

http://www.viciadosemcolo.blogspot.com.br/2012/03/infancia-livre-de-consumismo.html

http://www.viciadosemcolo.blogspot.com.br/2012/03/neide-teve-e-propaganda.html

http://www.whatmommyneeds.net/2012/03/por-que-eu-nao-sou-favor-da-proibicao.html

http://blogdodesabafodemae.blogspot.com/2012/03/somos-todos-responsaveis-mesmo.html

http://publicidadeinfantilnao.org.br/

4 Comentários

Arquivado em Maternidade, paternidade, reflexões