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renascimento do parto # 2 – a boa notícia

Depois de custear a produção do documentário “O Renascimento do Parto” com recursos próprios, o casal Érica de Paula e Eduardo Chauvet, co-autores do longa, finalizado em 2012, estavam sem grana para lançar a película em circuito nacional.

Decidiram passar o chapéu pelas redes sociais e, via crowdfunding, arrecadaram perto de R$ 100 mil em alguns dias.  Segundo li aqui, o valor é suficiente para lançar o filme tanto nos cinemas quanto em DVD.

Ainda não há data para o lançamento, mas agora já é certo que o filme será distribuído. O canal de croudfunding continua aberto, até porque quanto mais recursos arrecadados, mais ampla será a distribuição do longa. Quem quiser ajudar pode doar indo por aqui.

Recentemente, li duas entrevistas bem bacanas sobre o documentário, ambas com a Érica, que é psicóloga e ativista do parto humanizado. Uma do Mamatraca (veja aqui) e outra da TPM (nesse link). Valem a pena.

Deixo dois trechos, um de cada bate-papo:

Do Mamatraca:

“As mulheres precisam entender que, acima de qualquer escolha, está uma questão de saúde pública. O alto índice de cesarianas desnecessárias está colocando mulheres e bebês em riscos igualmente desnecessários, e os privando de benefícios importantes que irão repercutir em curto, médio e longo prazo.”

Da TPM:

“O documentário possui como objetivo conscientizar toda a população (não apenas as mulheres grávidas) da importância e do impacto da forma como nascemos em toda a nossa vida”

Dá para assistir ao vídeo promocional do documentário –bem bacana também– aqui. Agora é torcer para que o longa saia o mais rápido possível e que, de fato, entre em circuito nacional. Passou da hora desse debate envolver não apenas meia dúzia de “iniciadas”, mas a sociedade.

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dilema revisitado # 3: as reflexões sobre maternagem

Contei aqui e aqui que estou com muito trabalho, precisando arranjar ainda mais trabalho e com pouco tempo para dar conta das responsabilidades de jornalista e das tarefas de mãe. Daí que,  mesmo querendo que Enzo fique só comigo até ter pelo menos dois anos, acabamos cogitando, Dri e eu, colocá-lo numa escolinha. Estivemos em algumas, conversamos muito a respeito, ouvimos as nossas mães, assuntamos por aí com quem já tem babás (o que pode ser uma opção para o pequeno ficar comigo e, ao mesmo tempo, eu ter mais tempo), e a pesquisa toda, embora não tenha rendido uma decisão, deu frutos: muita reflexão e algumas auto-repreensões, que eu compartilho.

A primeira delas: Enzo cresceu, tem outras necessidades, não tolera mais ficar só dentro de casa e, por mais que eu tente oferecer a ele um ambiente estimulante, nada substitui o aprendizado que ele tem quando sai de casa, quando vai para a rua, anda por aí, se encontra com outras crianças, conhece novos ambientes.

Exemplo: o pequeno está no auge daquela fase em que eles querem subir e descer qualquer coisa. Moramos em apartamento, aqui não há degraus ou desníveis. Tento improvisar degrauzinhos com caixotes, por exemplo, mas Enzo só se diverte mesmo quando sobe e desce (ad infinitum, diga-se) escadarias reais. Ou seja, fora de casa.

Até aí, tudo bem. O problema -que justifica a repreensão de mim para mim mesma- é que demorei horrores para notar isso e, consequentemente, para começar a oferecer uma rotina de passeios e atividades extra-lar para o Enzo. Foi só quando visitamos a primeira escola, e eu pude ver como ele estava afoito por um contato maior e mais livre em outros ambientes, que comecei a levá-lo diariamente para brincar fora do apartamento.

A segunda repreensão explica a primeira: mesmo trabalhando em casa, ao lado do pequeno, fui ausente e me afastei do Enzo. Prova disso é que nem percebi que meu minimenininho estava crescendo, tendo outras necessidades. Na correria, na tentativa de dar conta de tudo, perdi a mão. E, sem desculpa nem autoindulgência, confesso que perdi a paciência também. É bem mais fácil trabalhar profissionalmente que cuidar (de) e educar filho. Daí que a saída mais agradável para o impasse trabalho x filho acabou sendo privilegiar um pouco mais o trabalho. Não na prática, que com o bebê acordado praticamente não dá para trabalhar. Mas na intenção, sabe como? Estava com Enzo querendo estar trabalhando. Claro que não era uma opção consciente, mas não deixava de ser um tipo de escolha. Resultado: nem trabalhava nem me dedicava a contento ao Enzo e ainda ficava irritadíssima e distante emocionalmente do pequeno.

De modo que, como resposta, meu filho, que era um doce de menino, foi ficando cada vez mais irritadiço, impaciente, exigente, mal criado. Ao meu afastamento emocional, ele reagiu da única forma que conhece.

E eu, que esperava enfrentar as “birras” (odeio essa palavra pela carga negativa em relação aos pequenos, mas na falta de outra melhor…) só quando Enzo tivesse chegado aos 2, tive de lidar com isso um ano antes.

E como eu lidei com isso? Pois é, essa é a repreensão número 3. Ao invés de me implicar na situação para entender o que efetivamente estava acontecendo para justificar tanta mudança -e tão repentina- no pequeno, passei um bom tempo perguntando: “o que está acontecendo com ELE?”.  A pergunta mais adequada, claro, teria sido: “O que está acontecendo COMIGO? E COM A GENTE?”. Cheguei a levar Enzo à pediatra, na tentativa de obter uma “luz” dela sobre razões que explicassem a inquietação tão grande num menino tão pequeno.

A resposta dela foi a mais desestimulante possível: brigue mais com ele.

Eu sabia que não tinha nada a ver com falta de limites. Conheço meu filho. Mas ainda não tinha percebido que minha atitude displicente e impaciente é que estava causando a reação irritadiça e a ansiedade no Enzo. Foi só a ida à escola e o tempo que levamos refletindo sobre essas alternativas que, por caminhos paralelos, me fizeram enxergar o quadro todo.

De prático, portanto, nada relativo a escolas e babás, mas ao meu comportamento e à minha dedicação ao meu filho.

1) Estamos saindo diariamente para passear, às vezes uma, às vezes duas vezes. Vamos a locais diferentes, alternados, e estou procurando relaxar quanto a antigas encucações para deixar Enzo brincar no chão, pegar folhinhas, mexer na terra…

2) No quesito trabalho, recorri à ajuda das mães (como já contei). Não é a solução ideal, mas como paliativo vem funcionando bem, até que Dri e eu decidamos a melhor alternativa. Mesmo nos dias em que as mães não podem vir, me policio muito para estar mesmo 100% com Enzo, relaxada. Isso tem me custado alguns atrasos, é verdade, mas não se pode ter tudo, e, conscientemente dessa vez, optei pelo meu filho.

3) Sempre que noto o pequeno mais nervoso ou impaciente, o que tem acontecido cada vez mais raramente, pergunto primeiro a mim mesma se EU estou nervosa ou impaciente, se EU estou agindo de modo diferente, se EU estou sendo menos carinhosa ou menos presente.

Tem dado muito certo, mesmo com as falhas todas a que todas nós estamos sujeitas, e tenho ganhado muitos sorrisos, abraços, beijinhos babados e gargalhadinhas, daquelas que valem o dia.

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a importância dos outros

Já fui mais favorável às datas comemorativas “comerciais”. Mesmo assim, e apesar de saber que elas têm como objetivo estimular o consumo e o consumismo, acho válido, sob certos aspectos, o fato de elas existirem. São um ritual, uma marcação, e essas coisas têm lá sua importância.

Por exemplo: sempre comemoramos o Dia dos Namorados aqui em casa, com presente e tudo o mais, ainda que seja um presente simbólico (uma barra de chocolate diferente, uma cerveja que o marido estava querendo, um café da manhã caprichado na cama…). Podemos nos dar esses mimos e fazer a comemoração em qualquer dia? Claro que sim. E fazemos. Mas como a rotina e a correria são uma ameaça constante a esses momentos, é bom saber que, se não der para ter esses momentos com a frequência ideal, pelo menos vamos contar com uma “forcinha” das datas comemorativas.

Evidente que não adianta nada comemorações mecânicas, homenagens frias e desdém no restante do ano. Mas estou falando de casos em que as datas só ajudam, uma vez que, claro, elas sozinhas não resolvem nada.

Tudo isso para dizer que -agora mais que nunca- o Dia das Mães é bacana demais para comemorar, juntar a família, socializar, ritualizar. E fizemos de tudo isso um pouco ontem: almoçamos com minha mãe, minha sogra, meu pai, meu irmão e a namorada e meu cunhado. Estivemos cercados de muito carinho, afeto e bom papo, e Enzo comemorou ainda mais, pois teve à disposição o colo das duas avós, do avô e dos tios ao mesmo tempo. Tanto que ele ficou tão excitado que só conseguiu dormir depois da meia-noite.

Além disso, a data foi também importante para refletir. Refleti muito -e sem culpas nem crises- não apenas sobre meu papel como mãe e o que eu significo para Enzo, mas também sobre o meu “não-papel”, ou seja, sobre o espaço que preciso deixar para os outros na vida do Enzo.

Por partes: sobre as mães, sua importância e seus limites, recomendo a leitura de alguns posts ótimos de colegas blogueiras que foram muito inspiradores.

1) Lígia, a Cientista que Virou Mãe, fez dois posts muito bons sobre a capa da Time americana dessa semana, que estampou uma mãe amamentando o filho de três anos ao lado da seguinte pergunta: “Você é mãe o suficiente?” A matéria -que eu ainda li- suscitou boas questões, que Lígia expôs muito bem. Veja o post 1 aqui e o 2 nesse outro link.

2) A Mari Zanotto, do Pequeno Guia Prático, escreveu O POST do Dia das Mães, publicado no portal MMqD, sobre as muitas culpas maternas e o inevitável choque entre as nossas necessidades pessoais o que é “melhor” para nossos filhos. Corajosamente, ela conta que, cinco anos depois de ter parido a Alice, primogênita, está se permitindo reservar mais tempo para si mesma, ainda que isso signifique menos tempo com os pequenos. Com seu humor delicioso, o post fica ainda mais redondo, apesar do tema-pedrada que ela escolheu. Me identifiquei muito e acho que quase todas nós vamos nos identificar também, tanto em relação às necessidades que temos quanto sobre a culpa que atendê-las nos causa. Para ler (recomendadíssimo se você ainda não leu), vá por aqui.

3) Para rir, vá até aqui, no Mãe de Duas, e dê uma olhadinha na homenagem cheia de humor e -por que não?- ironia que a Priscilla Perlatti fez para nossa “categoria” (devíamos fundar um sindicato…).

4) Por fim, ainda sugiro uma passadinha no Potencial Gestante, da Luíza Diener: nesse post aqui, ela definiu -de certa forma poeticamente- o que é ser mãe. Identificação instantânea, especialmente em relação a comer escondida (tenho feito muito isso nesses dias em que Enzo decidiu que tudo o que eu como ele PRECISA comer também, rá!).

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Agora chegamos noutro ponto importante das reflexões: o meu “não-papel”. Sabe o que de mais importante eu descobri nesse Dia das Mães? Que Enzo adora conviver com outras pessoas. Por conta própria, ele já expandiu seu próprio universo, já busca outras referências, outro tipo de atenção, outros colos, outros carinhos e outras brincadeiras. Nosso mundo Enzo-Mamãe-Papai-gata é, claro, essencial, mas (já) não basta.

É impressionante como ele fica mais tranquilo (apesar de excitadíssimo), mais feliz, mais atento/focado, mais risonho, menos chorão e menos irritadiço quando há outras pessoas em casa. Com as avós, por exemplo, tem uma relação de carinho e cumplicidade que é deliciosa de ver. Mas não é só com elas. Basta ter alguém diferente por aqui que meu minimeninho deixa vir à tona com ainda mais força seu lado “mr. simpatia”.

E ele não faz isso só para chamar a atenção, não. É genuíno. Enzo fica genuinamente mais feliz quando em contato com um universo de gente mais amplo que apenas nós quatro (contando com a Joh, a gata que AMA).

Sabe? Pensando bem -que foi o que eu fiz ontem- é fácil de entender. Os outros, com suas outras referências, outros pontos de vista, outras infâncias e outras histórias de vida, enriquecem muito as experiências do Enzo, seja lidando com ele diretamente seja mostrando a mim e ao Dri coisas que podemos fazer com e para o Enzo que antes não fazíamos.

Exemplos? Meu primo (que fazia anos que eu não via) foi a primeira pessoa a colocar Enzo em pé no chão, há cerca de três meses, quando veio conhecer o pequeno. Meu filho já ficava mais ou menos em pé sobre o sofá, mas nunca tinha botado os pezinhos no chão simplesmente porque isso ainda não tinha passado nem pela minha cabeça nem pela do marido. Resultado é que, desde então, começamos a botar Enzo no chão com frequência e isso representou um salto no desenvolvimento motoro dele. Hoje, ele praticamente já anda e, a seu jeito, engatinha super bem.

No sábado à noite, outro exemplo, um amigo muito querido veio nos visitar. Enzo também adora esse “tio”, a ponto de, só de ele estar por perto, o mocinho ficar quietinho e comportado em situações em que, normalmente, estaria dando um escândalo (como tirar do banho, secar o cabelo, trocar a fralda).

Pois o tio, brincando com Enzo, fez uma coisa que fascinou meu bebê. E foi uma coisa simples, que eu mesma poderia ter feito, mas não fiz porque nunca pensei nisso: ele ficou escondendo e mostrando uma tampinha de garrafa ao Enzo que, às gargalhadas, tentava descobrir onde o objeto estava escondido. Pronto: Enzo agora quer brincar disso com a gente a toda hora, o que evidencia a importância da brincadeirinha e o prazer que gerou. E não partiu de nós, mas de alguém de “fora” do nosso círculo familiar imediato.

Nós, pais, somos limitados, apesar de todo o esforço que fazemos para satisfazer as necessidades dos pequenos, apesar de todo o conhecimento e crescimento que perseguimos. Abrir espaço para os outros na nossa vida e na vida dos nossos filhos é parte do nosso papel. Assumir esse “não-papel”, aceitar que esse espaço não nos pertence, é essencial. E não apenas para ensinar os pequenos a se socializarem, mas para enriquecer mesmo a vida deles e a nossa. E para, aos pouco, ir dando às crianças a liberdade que, um dia, vão reivindicar.

De resto, e meio atrasada, feliz Dia das Mães! 😉

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