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criança não é pública # 2 ou: o que é filho “mimado”?

yara

Nos comentários do post anterior –e também em rodas de conversas virtuais ou presenciais com amigos– surgiu uma questão interessante sobre como equilibrar o respeito à subjetividade da criança e a necessidade de educá-la. A dúvida, basicamente, é: se eu respeitar meu filho nesse nível proposto pelo post e pelos textos recomendados, não estarei criando uma criança mimada, sem limites, sem educação?

O que penso sobre isso é basicamente o seguinte. Antes de qualquer coisa: o corpo de alguém é inviolável. Obrigar quem quer se seja a aceitar contato físico que não deseja é uma violência inominável. E o fato de questionarmos isso quando se trata de crianças (ou de mulheres, muitas vezes) já mostra bastante o tipo de sociedade que ainda somos. Não posso tomar para mim o controle do corpo de outrem, seja com a justificativa que for (educar, ajudar, ensinar, dar carinho, dar afeto etc). Se a escolha fosse (e não é, mas vamos fingir que seja) entre ter um filho mimado ou um filho cujo corpo não fosse respeitado, eu certamente optaria pela primeira opção. É muitíssimo mais pernicioso um adulto sentir-se “dono” do corpo de uma criança e essa criança ser alvo constante da violência de não poder negar um beijo do que um pequeno dar piti à toa na fila do supermercado ou não ser simpático com qualquer desconhecido.

Mas o fato é que respeito não se contrapõe à educação e a limites. É uma falsa dicotomia. Pelo contrário. Você pode e deve educar uma criança de forma respeitosa, respeitando os interesses dela, as inclinações dela, as preferências dela, os limites dela, o ser que ela é. Aliás, essa é a ÚNICA forma de se educar uma criança. Qualquer outra coisa é imposição por força e coação. Pode funcionar até a página dois, mas jamais merece o nome de “educação”.

Um adulto desrespeitoso, um adolescente complacentemente considerado “mimado” (desses que acham que podem espancar prostitutas ou empregadas domésticas em ponto de ônibus ou dar trotes violentos, abjetos e sexistas) com toda a certeza não são assim por terem sido respeitados, amados e bem tratados. Ter acesso a bens de toda a sorte e ter pais eventualmente omissos (duas coisas bem comuns entre os “bem nascidos” de classe média alta que fazem esse tipo de coisa) não é sinônimo de ser amado ou bem tratado.

De que forma desobrigar uma criança de três, quatro anos de aceitar o beijo à força de um estranho (ou mesmo familiar) pode resultar em alguém que não respeita os limites alheios? Não vejo como.

Pelo contrário. O que ensino ao meu filho quando digo que ele não é obrigado a abraçar quem não quer? Que ele também não tem direito sobre o corpo e a vontade do outro. Inclusive esse tipo de argumento uso com ele várias vezes. Por exemplo, quando ele se chateia com algum amigo que não quis brincar com ele. Sempre digo: “lembra quando fulano quis brincar e você disse que não estava a fim? Você não foi obrigado a brincar, certo? Então, agora é a mesma coisa”. E ele entende. E me diz um “é mesmo, né, mamãe?” bem tranquilo, satisfeito, sem sentir-se rejeitado e, plus, a partir dessa constatação, disposto de coração a respeitar o amigo que preferiu brincar com outro colega.

Respeito se ensina respeitando. Não tem outra forma.

Por que tratar um adulto com respeito e educação é o mínimo que se espera de alguém civilizado, mas quando tentamos fazer o mesmo com uma criança vira um “erro” ou algo que pode resultar numa criança “mimada”? Adulto tratado com respeito é “mimado”? Por que criança seria? Por que quando uma criança manifesta sua subjetividade e inclusive suas discordâncias, tachamos logo como “mimada”? Adulto que fala “não” educadamente é “mimado”? Por que criança seria?

Isso significa que meu filho pode fazer qualquer coisa? Não. Ninguém pode fazer qualquer coisa. Eu não posso, você não pode, meu filho também não. Respeitar uma criança –e mesmo um adulto e/ou a si mesmo– é colocar limites. Como diz Rebeca Wild, “viver é estar limitado”.

Não dar limites é um problema do adulto, não da criança. E não tem nada a ver com respeitar a criança e não obrigá-la a beijar quem ela não quer. Se um pai desiste, por exemplo, de limitar o tempo de exposição do filho às telas porque o filho está se jogando no chão da sala e dando escândalo, o problema é com o pai, não com o filho, percebe? Uma criança ainda está desenvolvendo mecanismos neurológicos para lidar com a frustração de modo menos estridente que jogar-se no chão aos berros. Mas o adulto deveria ser maduro o suficiente para: 1) tomar uma decisão ponderada, coerente, que faça sentido para o bem das relações familiares, para a harmonia entre todos, levando as necessidades de todos em consideração, 2) manter essa decisão (se a única razão para questioná-la for o chilique do filho) e 3) aguentar o choro da criança, ampará-la, compreendê-la, ajudá-la, de forma empática e amorosa, a lidar com a dor da frustração.

Se o adulto não tem maturidade para tanto –e isso também é uma forma de desrespeito à criança– isso não tem nenhuma relação com respeitar a individualidade e a subjetividade da criança.

Por outro lado, colocar limite não é colocar qualquer limite, só para marcar território, manter hierarquia, “mostrar quem manda” ou não “passar vergonha” diante de parentes e amigos. Limite não pode ser uma forma de exercer poder –e desrespeitar, portanto, pois todo poder é uma forma de desrespeito à essência alheia– tampouco um modo de extravasar raiva e frustração ou– talvez pior– adequar o filho às expectativas próprias e dos outros.

Colocar limites nos filhos é limitar-se a si mesmo, porque é preciso refletir sobre as razões daquele limite que se quer colocar. É um limite porque estou despejando minha frustração no meu filho? É um limite porque quero que a família se orgulhe de mim e aprove meu filho? É um limite porque a vizinha vai pensar que não sei educar meu filho se não fizer isso? É um limite porque eu tenho medo? Ou é um limite que realmente faz sentido para o desenvolvimento do meu filho? Ou é um limite realmente necessário para que eu possa estar presente e relaxada e manter o ambiente relaxado e adequado?

De qualquer modo, simplesmente não colocar limite nenhum ou deixar que escola, babá, avó, tio etc o faça não é respeitar. Quando se fala em respeito à criança, se fala justamente também nesse tipo de limite que esta exposto aqui. Funciona como numa relação saudável com qualquer adulto. O que é respeitar seu colega de trabalho? Deixar ele fazer o que quiser com você? Ou educadamente se colocar de forma adulta e madura, mesmo que isso cause um conflito? Conflitos são ótimos e necessários. Com os filhos inclusive.

O que não é ótimo nem necessário é obrigar uma criança de três anos a beijar quem quiser beijá-la.

Criança pequena ainda está aprendendo os códigos de conduta sociais; a maioria deles ainda não faz o menor sentido, entre outras razões porque a criança ainda reage muito baseada em estruturas “mais antigas” do cérebro, as únicas que já estão formadas. Então a criança raciocina pela autoproteção. Quer estar junto da mãe e de quem mais confie. E ponto. O resto é resto mesmo e não faz sentido ser simpática. Até porque as emoções nas crianças são percebidas de formas diferentes das percebidas por adultos.

Uma criança pequena não tem a capacidade de certas sutilezas, de elaborar emoções fortes e contraditórias, de reagir de modo plácido, verbalizando ou dissimulando sensações (e isso nem é ruim). Crianças são autênticas (o que é ótimo!), dizem o que pensam, fazem o que pensam. Não é um defeito. É um estado até neurobiológico. Que vai sendo burilado conforme a criança observa os códigos sociais, conforme recebe respeito e tratamento respeitoso dos adultos que ama, conforme vai completando seu desenvolvimento cerebral e neuronal.

Aliás, nós perdemos muito quando negamos essa autenticidade infantil, em nós e nas crianças. O mundo ideal seria, conforme as áreas mais “novas” do cérebro fossem crescendo e se desenvolvendo, que elas apenas ajudassem a elaborar melhor as emoções. Jamais a dissimulá-las, como acaba acontecendo. Mas isso é outra (fascinante) conversa.

O que quero dizer com tudo isso é: educar uma criança é respeitá-la, colocar limites e não esperar dela mais do que pode dar. A sociedade nos cobra filhos sorridentes e submissos. Como lidar com o amigo que vai em casa e torce o nariz se o filho “mimado” não o cumprimenta? Como lidar com a avó que quer abraços e beijos negados pelo neto? Como lidar com parentes nas festas que ficam apertando bochechas à revelia do desejo das crianças? Como lidar com a cobrança social e interiorizada por nós de que nossos filhos não sejam “mimados” (entendendo aqui por “mimado” o senso comum: um pequeno que não se submeta a caprichos adultos adultistas)?

Veja, é uma questão de escolha. Eu sou mãe do meu filho e é com ele que tenho responsabilidades. Escolhi assumir essa responsabilidade, mesmo que todo mundo ache meu filho mimado, chato, não educado. Se ser respeitado e exigir respeito, para as pessoas, é sinônimo de “mimado”, que seja. Paciência.

Para os adultos que estranham o comportamento do meu filho quando foge de investidas pseudocarinhosas, digo, com toda a educação: “meu filho não gosta de beijos e abraços”. E, sabe?, a maioria das pessoas entende. Acho que muita gente se lembra como era horrível, na infância, ser submetido a beijos e abraços forçados. Quem nunca fugiu de parente sem noção? Eu já, meu marido já, meu irmão já, meus primos e amigos e até meus pais. Obrigar criança a ser bacaninha não dá certo para ninguém. Por que manter esse modelo? Será que o adulto, quando confrontado com a negativa respeitosa, não vai compreender e rever seus próprios conceitos?

E, de mais a mais, quem é “mimado” e sem educação mesmo? A criança que exerce seu direito sagrado ao próprio corpo ou o adulto que, maduro, não consegue lidar com a “frustração” de não poder impor um beijo a um ser pequeno e indefeso?

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Recomendo muito a leitura de Montessori sobre esse assunto. Montessori, como ninguém antes dela, compreendeu, pesquisou e expôs o fantástico universo infantil. Ninguém antes dela respeitou as crianças como seres humanos que de fato são. E, apesar de achar que resultado não é o que deveria mover nenhuma relação, entendo a cobrança sobre nós pais e por isso digo: Montessori conseguiu resultados incríveis a partir do respeito genuíno à criança e aos jovens com quem lidou. Não só em educação formal, mas na reabilitação de adolescentes infratores “desenganados” socialmente pelas “autoridades” italianas. Foi exatamente lidando com um grupo de jovens infratores numa comunidade paupérrima e marginalizada que a psiquiatra italiana desenvolveu o método que depois ficou conhecido como “montessoriano”.

Para quem quiser começar com Montessori, sugiro o blog Lar Montessori. Sobre respeito incondicional e educação sem violência, é só ir direto a esse link e a esse também.

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Muito grata a quem questionou! 🙂

Oportunidade incrível de refletir, repensar e escrever aqui um pouco mais do que me move como mãe e como ser humano. Meu filho me dá todos os dias a oportunidade de repensar e reafirmar meus próprios valores sociais e políticos, meus compromissos comigo mesma e com o mundo que me cerca, a pessoa que vou sendo e construindo nas pequenas e grandes coisas do dia a dia. Ser mãe é um modo de estar politicamente no mundo. Ser mãe é um ato político. E meu ato político é, entre outras coisas, reafirmar diariamente o respeito, a empatia, o acolhimento que todos merecemos.

Sou muito grata também ao meu filho por isso! 🙂

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A ilustra é da Yara Kono e veio daqui ó.

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criança não é pública

Adultos: afeto é o máximo, desde que eu queira também! #fik dik (*)

Adultos: afeto é o máximo, desde que eu queira também! #fik dik (*)

Filho e eu passeando rapidamente num shopping, à tarde, logo depois da escola. Não lembro bem da razão da visita, mas com certeza passamos por ali para comprar alguma coisa que usaríamos em seguida. Granola, arrisco. Tem uma loja de produtos naturais que vende pela metade do preço do praticado pelo supermercado mais próximo de casa.

Uma mulher, talvez uns 30 anos, pouco menos, trabalha numa loja de utilidades domésticas. É simpática e falante. Sempre tenta estabelecer um diálogo com o filho, que foge dela. Sempre foi assim. E suspeito que o interesse da moça pelo pequeno seja justificado exatamente por ele não gostar muito de papo com estranhos e, às vezes, reagir com rispidez à insistência alheia.

Bom, nesse dia, ao passarmos em frente à loja onde a mulher trabalha, Enzo foi pego de surpresa. Ela não estava lá dentro, mas perto dele no corredor, provavelmente voltando de algum lugar. A moça agarrou, ligeira, meu filho por trás e tascou-lhe um beijo na testa, à força, enquanto ele se debatia e eu protestava.

Satisfeita pela conquista, a moça ensaiou dizer alguma coisa, diante da minha surpresa-silêncio, mas foi interrompida antes mesmo de começar. Foi interrompida por uma criança indignada –com toda a razão– que, mesmo mais frágil em muitos sentidos, aumentou a voz e se fez ouvir até o final do que tinha para dizer:

–Eu nunca mais vou deixar você me beijar! Você nunca mais vai fazer isso! Nunca mais!

–Mas eu só queria fazer um carinho em você…

–Não, não queria nada! Você queria me obrigar! Carinho é diferente! Carinho é o que minha mãe faz em mim, e ela só me beija quando eu quero!

A moça desconcertou. E eu também. Por não ter sido eu a expor à mulher o adultismo e o desrespeito do que acabara de fazer. Pois a criança e seus sentimentos nomearam com clareza o que tinha acontecido. “Você queria me obrigar a te satisfazer, não queria me dar carinho, porque carinho pressupõe que eu consinta e também queira”. Voilà.

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Criança não é pública. Se você não tocaria ou beijaria, à força, um estranho na rua, por que acha que pode fazer isso com uma criança? Criança é tão sujeito quanto eu ou você. Para conversar, receber ou dar afeto, precisa consentir. Assim como eu ou você. Criança não veio ao mundo para satisfazer carência de adulto adultista.

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Sobre esse tema, recomendo a leitura desse e desse posts. O primeiro é do ótimo site Paizinho Vírgula!, do Thiago Queiroz, pai de dois queridos, sobre o absurdo naturalizado de se obrigar bebês e crianças a beijar, abraçar e se relacionar com todo mundo (como se nós, adultos, fizéssemos isso também…). O segundo é da roteirista Renata Corrêa, mãe, feminista, que pondera sobre riscos de, mais velhas, as crianças não conseguirem identificar com clareza seus desejos e limites em relação a afetos e sexualidade se, na infância, as ensinarmos a conceder e aceitar a aproximação sempre que um adulto quiser.

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(*) Imagem da genial ilustradora italiana Beatrice Alemagna. Veio daqui, projeto recomendadíssimo de entrevistas com ilustradores infantis bacanas. Vale a visita nem que seja pra babar nas ilustras. 😉

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o tapinha não só dói como se reproduz

decur

Algumas considerações minhas sobre a aprovação da “Lei da Palmada”:

1) Não há interferência indevida do Estado na vida familiar, privada, particular. O Estado tem o dever de proteger a vida das pessoas e é precisamente isso que está fazendo agora. O corpo do outro é do outro, não pertence a ninguém além do outro. Não é porque o outro calhou de ser seu filho que o corpo dele virou “privado”. O corpo de uma pessoa é inviolável; ninguém pode bater em ninguém. Ninguém pode bater em criança; criança também é alguém, seu corpo também é inviolável. Óbvio. Seja um “tapinha”, um soco, um chute, um tacape na cabeça.

2) O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) já previa proteção para casos mais graves de agressão física. Mas não dizia nada sobre o famigerado “tapinha educativo”. A mudança que a “Lei da Palmada” realiza é justamente nesse ponto. Dá nome certo à violência do tapa na cara, do beliscão, do grito, da humilhação: violência e ponto. Mas, ao contrário do que muita gente tem dito, uma mãe que deu uma “palmada” no filho não será presa. A ideia da lei não é mandar pais e mães pra cadeia, minha gente (apesar do raciocínio binário de muitos pais violentos não dar conta de uma ação educativa que não seja punitiva). Nomeando a violência e a inscrevendo no ECA, na lei, o objetivo é conscientizar os pais que ainda não entenderam que há formas não-violentas de educar e que são essas as que melhor criam condições para uma sociedade mais justa e menos violenta (que, em tese, todos queremos). Melhor dizendo:

3)  há formas não-violentas de educar. “Tapinha educativo” não ensina absolutamente nada, exceto se o cuidador em questão quiser ensinar violência (praticar ou submeter-se a). Um exemplo bem basiquinho: imagine que tem lá uma criança fazendo qualquer coisa que o cuidador considere errada. Daí o cuidador dá uns gritos, lá de longe, mandando a criança parar. Como o poder é impotente, e a criança é potência pura, a criança OBVIAMENTE não para. Aí o cuidador vai lá e dá um tapa na criança. Vamos considerar que se pretendesse evitar que a criança se machucasse. Com o tapa, será que a criança aprendeu que o comportamento mais seguro seria não mexer naquele determinado objeto? Não, né? Porque tudo o que o adulto fez para ajudar a criança a compreender o perigo ou os limites seguros para se agir foi… nada!

4) Ainda que “tapinha” fosse mesmo educativo, que “funcionasse” instrumentalmente em algum nível, há coisas que não se faz por princípio, sabe? Porque a gente se pretende civilizados, inteligentes. A gente se pretende de alguma forma uma sociedade que usa razão, empatia, que convive e que abre mão conscientemente do uso da violência em função de uma convivência baseada em sentimentos mais “elevados” ou, dito de outra forma, com menos potencial lesivo. É como a tortura, entende?; ainda que “funcione” (e nem estou dizendo que funciona), não dá pra apoiar, aceitar, legitimar. Bater em criança está fora de questão.

5) Violência é SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE a perda de controle de quem violenta. Não é nada além disso. Não é educação, não é amor, não é nada. É só perda de controle. É só o uso de vantagens física e emocional, relativas ao poder, para controlar o comportamento de alguém pelo medo e pela dor ao invés de o indivíduo que violenta sentir ele próprio a dor que lhe compete. O comportamento do outro gera no sujeito agressivo uma sensação que ele não suporta. Não suportando, ele vai lá e agride. Perda de controle sobre si mesmo.

6) A responsabilidade pelo que se sente é sempre de quem sente. O que significa dizer que se a mãe se encoleriza com um comportamento do filho, a responsabilidade pela cólera é absolutamente da mãe. JAMAIS do filho. A mãe tem de olhar pra si mesma e entender as razões pelas quais sente-se dessa forma. Educar, colocar limites, enfrentar conflitos e lidar com as diversas demandas dos filhos não deveria causar raiva. Se causa, tem alguma coisa erra aí –com o cuidador– que precisa ser investigada –pelo cuidador. Bater no filho pra passar a raiva não vai resolver nada (além de ser uma covardia em muitos aspectos).

7) Violência gera violência. A absoluta falta de destreza para lidar com as próprias emoções a ponto de agredir alguém é algo que se aprende. Se aprende ao levar um tabefe. Se aprende ao ser humilhado. Se aprende ao ter a autoestima destroçada por pais violentos.

8) Adultos que defendem a palmada porque “apanharam e estão bem/sobreviveram/são educados etc (fill the blanks)”, poderiam refletir sobre a Síndrome de Estocolmo e sobre a adolescência, também conhecida como aquela fase da vida em que a gente começa a descobrir os próprios valores, interiorizar-se e aceitar que os pais não são perfeitos. É quando a gente amadurece o suficiente para aceitar que, mesmo amando os pais, mesmo valorizando tudo o que fizeram pela gente, eles erraram feio, erram feio e a gente não precisa fazer a mesma coisa, se essa coisa não serve mais. É preciso uma boa dose de maturidade para cortar esse cordão umbilical sutil com os pais e seguir a vida autônoma, sem dependências e sem demonização.

9) Adultos bacanas que apanharam não são bacanas porque apanharam, mas APESAR de terem apanhado.

10) Para aqueles que ainda não conhecem formas de realmente educar seus filhos sem o que o senso comum oferece como alternativa (agressões, ameaças, supernanny e castigos), mas se interessam por uma relação mais autêntica e respeitosa com os filhos, recomendo algumas leituras, começando por:

a) essa seleção aí abaixo de textos das cientistas Lígia Moreiras Sena e Andréia C. K. Mortensen (uma das administradoras da ótima comunidade Crescer sem violência):

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/02/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/11/postagem-coletiva-19-de-novembro-dia.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/04/como-o-mau-jornalismo-incentiva.html

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2014/03/dos-direitos-radicais-das-criancas.html

O blog da Lígia, o “Cientista que virou mãe“, aliás, é todo ele altamente recomendável. Lígia e Andréia acabaram de lançar um livro justamente sobre como –e por que– educar sem palmadas.

b) o blog “Conexão Pais e Filhos“, do Marcelo Michelsohn, é basicamente um amontoado de exemplos de educação ativa e da educação pela conexão, ambas correntes absolutamente não-violentas. E absolutamente eficazes (sou testemunha, sou aluna do Michelsohn, sou leitora de Rebeca Wild, da educação ativa, e de Patty Wipfler, da educação pela conexão). Aqui um post dele essencial sobre o tema. Mas todos são ótimos, pois ajudam a entender a educação sob outro prisma, que não o da dominação-poder-controle. Michelsohn dá aulas sobre conexão entre pais e filhos. Haverá novas turmas, basta dar uma olhada no blog dele.

c) falando em Patty Wipfler, ela coordena uma instituição nos EUA, a Hand in Hand Parenting, que dissemina muita informação sobre educação pela conexão, educação respeitosa e não violenta. Os cursos e livros são, naturalmente, pagos. Mas há conteúdo grátis para se ter uma ideia do tipo de perspectiva educativa.

d) outro ótimo blog para se entender a natureza das crianças e das relações saudáveis que podemos estabelecer com elas –e que também dá muitas ideias e subsídio para quem assume uma educação não-violenta– é este aqui, o “Lar Montessori”, escrito por Gabriel Salomão, professor montessoriano e ex-aluno de colégio que aplicava o método desenvolvido pela médica italiana Maria Montessori. Aqui também a “palmada” é cientificamente rechaçada. Montessori, há quase 100 anos, já sabia que, além de eticamente questionável, bater é ineficaz.

e) há também a criação por apego, que prega respeito na relação com o filho, inclusive na hora de se colocar limites. Aqui um blog ótimo, do Thiago Queiroz, o Paizinho, Vírgula!, sobre o tema.

f) além dos blogs, há os livros. Sim, educar dá trabalho e exige empenho, aprendizado, entrega, como tudo o que realmente vale a pena nessa vida. Eu começaria (como de fato comecei) pelo “Besame Mucho“, do Carlos González. Tem o “Unconditional Parenting“, do Alfie Kohn. E “Etapas del Desarrollo“, da Rebeca Wild. Recomendo “A maternidade e o encontro com a própria sombra” e “O poder do discurso materno“, ambos da Laura Gutman. E ainda “Mente Absorvente” e “A Criança“, da Montessori, além do já citado “Educar sem violência“, da Lígia e da Andréia.

g) finalmente, mas não menos importante: vídeos da Ana Thomaz acho essenciais nessa jornada. Já cansei de recomendá-los aqui. Mas valem cada segundo. Começaria por esse aqui, depois iria pra esse e pra esse outro aqui.

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PS: leia também a “Lei da Palmada”. Aqui ó.

PS2:  Para quem diz que “quem cuida do meu filho sou eu”, seguinte: ok, cuidar você pode. Melhor: cuidar você deve. O que não pode é bater. Entendeu?

Se violência é educação, posso bater em você também? Porque, segundo meus parâmetros, pai que bate em criança precisa aprender muita coisa.

PS3: a imagem lindíssima que ilustra/complementa o post é do artista e ilustrador argentino Guillermo Decurgez, o Decur. Ele tem um perfil artístico no feissy, este blog e uma loja bacana no Etsy.

 

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os castigos são inúteis

Carlos Gonzalez é daqueles que quanto mais leio (e leio tudo dele que me cai em mãos), mais admiro. É uma gratidão profunda o que sinto por esse homem. Ele –ao lado de hoje amigas queridas da blogosfera, como Mari Sá— é dos grandes responsáveis pela mudança de perspectiva em relação à maternidade e educação que vivi nos primeiros meses de filho extra-útero. Tudo o que penso hoje sobre educação e maternagem diverge radicalmente do senso comum de antes; graças a Gonzalez e sua turma, me permiti pensar e refletir sobre meu papel como mãe, ao invés de apenas ressoar e repetir o que todo mundo diz que se tem que.

Hoje circulou no feissy mais uma entrevista do Gonzalez. É uma entrevista que nem explora tanto assim as (boas) ideias do pediatra catalão. Mas, apesar disso,  vale muito a pena. Tanto que compartilhei por lá e resolvi fazer o mesmo por aqui.

Antes de ir lá no jornal português “Observador” ler a entrevista na íntegra, dá cá só uma olhada nesses trechos: 

Sobre castigos:
Os castigos são inúteis, tanto para as crianças como para os adultos. É claro que é preciso impor limites aos mais novos. Todos os pais o fazem. O que digo é que os limites lógicos e razoáveis são impostos pelos pais sem que ninguém diga nada. Não deixamos os nossos filhos brincar com o fogo ou com facas. Rejeito os limites que não considero lógicos ou razoáveis, que não se colocam por necessidade ou para evitar quaisquer danos, mas que apenas servem para demonstrar “aqui sou eu que mando”.

Sobre crianças “desobedientes” e “manipuladoras”:
O que fazemos com os maridos ou esposas que são desobedientes ou manipuladores? Com os namorados, amigos, parentes ou empregados? Será que os adultos nunca fazem nada de mal? Claro que sim, mas não os punimos (a não ser que cometam um delito que apenas os juízes podem punir). Eu não castigo a minha esposa ou os meus amigos, vizinhos, taxistas… Como médico não castigo os meus pacientes nem a minha enfermeira. Porquê castigar apenas os meus filhos? Que terão feito eles de tão terrível para merecerem um castigo? É absurdo. É curioso que se fale de crianças “manipuladoras” quando estamos precisamente a falar de colocar regras e limites a crianças. Isto é, para manipular. Nós manipulamos as nossas crianças, compramos livros que explicam como fazê-lo… e os “manipuladores” são eles?

Sobre autocontrole e disciplina
Autocontrolo ensina-se com o exemplo. Eu não bato nos meus filhos porque tenho disciplina, autocontrolo. Não digo ao meu filho para se calar porque não me deixa ouvir televisão, ao invés desligo o televisor para ouvi-lo melhor. Isso é a disciplina.

Sobre respeito e palmadas
As crianças não são adultas, mas são parecidas. E, em todo o caso, precisam de mais respeito do que os adultos, porque são mais frágeis. Precisam de ser mais toleradas porque são inexperientes e ignorantes, podem cometer erros. Muitas vezes castigamos ou repreendemos as crianças por coisas que nunca puniríamos num adulto. Se vejo a minha esposa ou um amigo a chorar, pergunto o que se passa e tento consolá-los. Para os meus filhos é igual. Se estou a comer com um amigo e vejo que este deixa metade da comida no prato, não o obrigo a acabar tudo. Com os meus filhos também não faço isso. Jamais bateria na minha mulher, no meu pai ou em companheiros de trabalho. Muito menos nos meus filhos.

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Muito o que refletir, não?

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estreia no mamatraca

Hoje estou lá no Mamatraca, da querida Anne Rammi, estreando uma coluna quinzenal de bate-papo sobre o universo materno/paterno fora da caixa. O primeiro entrevistado é Marcelo Michelsohn, consultor independente e fundador do Conexão Pais e Filhos, além de editor do blog homônimo. Ele falou lindamente sobre educação ativa, conexão, respeito, emoções e confiança –nos filhos, na vida.

Nossa sociedade escolheu um caminho que exige seres humanos dóceis, que sejam bom trabalhadores por um lado, e insatisfeitos e consumistas por outro. Crianças que crescem sem ressentimento, com as emoções fluindo e experimentando a vida como algo perfeito, sem faltas, não são boas matérias primas para essa sociedade”

Bóra ?

 

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a vergonha alheia e o respeito pelos sentimentos dos bebês

Sabe o que de mais importante eu tenho aprendido com meu filho? Que “nós”, os adultos, e “eles”, os bebês e crianças, não somos assim tão diferentes quanto o metro e meio de altura a mais (no nosso caso) nos faz crer.

"Mother and Child", obra da Susan Stockdale (*)

“Mother and Child”, obra da Susan Stockdale (*)

A “descoberta” começou num inocente passeio de domingo, há umas três semanas. Enzo estava correndo numa arquibancada, segurando minha mão. Mesmo assim, tropeçou e levou um tombinho bem leve. Reagiu super mal, chorou horrores, gritou, saiu correndo, não aceitou conforto, afago, palavras amigáveis, nada, nada, nada. Qualquer tentativa de aproximação, preocupação ou acolhimento era recebida com gritos, choros e palavras de ordem: “Não! Não! Não! Não!”

No meio dos protestos, ele começou a dizer que estava “bavo”, “bavo”, “bavo” e, sem querer-querendo, deu a deixa de que eu precisava para tentar um diálogo. “Bravo por que, filho?” O pequeno começou a apontar em direção às pessoas que estavam na quadra. Olhava para as crianças –com as quais estivera brincando até pouco antes do tombinho–, apontava para elas, gesticulava com a testa franzida, olhos cheios de lágrima e, em seguida, mostrava o local onde tinha caído. E recomeçava a chorar. “Bavo, bavo, bavo”.

Fiquei confusa com aquela gesticulação toda, os balbucios, o choro, a “baveza”. Demorou um pouco, confesso, mas a ficha caiu. E quando caiu, não tive dúvidas, mas perguntei: “Você ficou com vergonha, filho?”.

-Aaaaah! Gonha, gonha, gonha!

Pronto, o filho voltou a sorrir. Eu tinha entendido, finalmente, o que ele estava tentando me dizer. E aí se acalmou imediatamente, veio se sentar no meu colo e conversamos longamente sobre o tombo, a raiva (que ele traduziu como “bavo”), a vergonha. Perguntei se ele tinha ficado envergonhado por cair simplesmente ou por cair na frente das pessoas. E descobri que a frustração foi por ambas as coisas, mas mais por ser num local público, cheio de gente.

Descobri que Enzo, apesar da pouca idade, é muito exigente consigo, não gosta de errar. Pior ainda se o erro for cometido com testemunhas. Expliquei que todo mundo cai, que todo mundo já caiu. Dri e eu mostramos a ele algumas cicatrizes e sinais, contamos como e quando nos machucamos daquele jeito. E isso tranquilizou o pequeno, pelo menos em relação àquele tombo.

E –mais importante– descobri que, embora ainda um bebê, meu filho já tem noção de si mesmo, sentimentos complexos  e uma vida emocional que, em geral, gostamos de atribuir apenas aos adultos. Quando uma criança cai e chora, na maioria das vezes, nos esforçamos ao máximo para sufocar o choro, minimizar os sentimentos dela, diminuir a importância do que essa criança está sentindo. A resposta padrão é sempre “não foi nada”, ou “logo passa” ou ainda o infame “antes de casar, sara” (eu detestava ouvir isso!).

Costumamos menosprezar os sentimentos das crianças. Dizemos que, se choram “demais” porque caíram, são “manhosas”, “birrentas”, “carentes”, “querem chamar a atenção”. Não somos empáticos com elas, não nos colocamos em seus lugares, não procurarmos enxergar o mundo pelos olhos delas e aí perdemos a oportunidade de perceber que elas somos nós. Que elas sentem como nós, só que com mais intensidade (ainda não têm o arcabouço racional, fisicamente falando inclusive, que nos permite organizar emoções e lidar melhor com as questões emocionais).

Carlos González (de novo ele, eu sei, mas fazer o que se o cara é bom?) foi o primeiro que me alertou, em seu ótimo “Besame Mucho“, para esse, digamos, fenômeno. Ele sustenta, e eu concordo, que tratamos as crianças como quase-pessoas, não como pessoas propriamente. Não respeitamos –e sequer admitimos– os sentimentos delas, não imaginamos que também se envergonham, que também se irritam, que se assustam, que se frustram e que todo esse emaranhado de emoções precisa ser expressado.

Quando um filho expressa o que sente, tratamos logo de dizer que “passa” ou que aquilo é “manha” e, portanto, o melhor a fazer é ignorar.

Por que fazemos isso? “Sei lá” seria a resposta mais honesta. Mas vou chutar outras alternativas. Uma delas é que somos ignorantes mesmo. Ponto. Sabemos pouquíssimo sobre a psicologia e o desenvolvimento emocional dos bebês e das crianças muito pequenas, dito por uma das mais reputadas especialistas no assunto, a britânica Sue Gerhardt.

(((Ela é psicoterapeuta e estudiosa da neurologia de bebês e crianças ainda na primeira infância. Escreveu o altamente recomendável “Why Love Matters” (infelizmente ainda sem edição em português), que evidencia como o amor e o tratamento carinhoso e respeitoso nos primeiros três anos de vida modificam para melhor a estrutura física do cérebro.)))

Nós não sabemos porque os bebês agem como agem e tendemos, então, a avaliar suas ações pelo conhecimento que temos do mundo emocional adulto. Logo, um bebê que ignora um “não” está “testando limites” ou simplesmente testando a paciência dos pais, desafiando. Se chora por alguma coisa que não compreendemos ou que, para nós, não tem importância, então são “manhosos”, “choram para chamar a atenção”. Se ficam irritadiços “à toa”, são “mimados” ou “não tem limites”.

São poucas as vozes discordantes. Duas delas já citadas. Tanto Gonzalez quanto Gerhardt defendem que, assim como os adultos, crianças têm mau humor, dias ruins, se impacientam e estressam com coisas aparentemente banais, mas que podem ser, na verdade, “gotas d’água” em processos emocionais desgastantes que ficam alheios aos adultos. Afinal, bebês não falam ou não falam bem e –plus– entendem muito pouco do que acontece consigo mesmos para expressar com exatidão o que sentem e porque sentem.

Também dizem claramente o seguinte: suportamos adultos “dando chiliques”, sendo grosseiros, se comportando mal. Ninguém vê um adulto nervoso e diz: “ah, seu manhoso, está bravo por quê? Quer um motivo real para ficar bravo? Vem cá!”. Nosso esforço, ao contrário, é sempre no sentido de tentar: a) entender o motivo da explosão e 2) acalmar o dito cujo. Por que não fazer o mesmo com nossos filhos, tão mais frágeis, inconstantes e realmente necessitados desse tipo de apoio?

Até os especialistas mais “mainstream”, que reproduzem o senso comum e esta postura desconfiada em relação às boas intenções das crianças, como o pediatra norteamericano Harvey Karp (autor, entre outros, de “O bebê mais feliz do pedaço” e “A criança mais feliz do pedaço“), reconhecem que é preciso muito mais de empatia que de desconfiança na hora de educar filhos. Karp diz em várias passagens de seus livros que acredita que os bebês sintam de forma muito parecida com a nossa, com o agravante de que entendem ainda menos do que “a gente grande”  sobre o que estão sentindo, o que, claro, aumenta a reação.

Alguns estudiosos levantam boas hipóteses sobre o funcionamento, por assim dizer, dos bebês (lá vamos nós falar de novo do González, da Gerhardt, do Winicott). Parte deles chegou a provar teorias interessantes (caso dos citados e também de Melanie Klein, John Bowlby), mas essas teorias não repercutiram entre a maioria dos pediatras, profissionais de saúde (física e mental)  e das mães da nossa geração  (ou da geração das nossas mães).

Arrisco dizer que não repercutiram porque eram –e são– francamente contrárias (sob um ponto de vista bem limitado) ao “espírito do tempo” das nossas gerações. Quem ia querer saber de colo em tempo integral se o “bacana”, o “moderno” é mãe que tem carreira? Quem ia querer saber do prazer da amamentação se prazer mesmo a gente encontra é no shopping?

Estou exagerando na descrição só pra mostrar as contradições. Não acho que mulher não deva ter carreira (eu tenho uma e amo!), ou que não possa gastar com o que bem entender ou que seja culpada disso ou daquilo. Só usei esses exemplos pra dizer que a sociedade do consumo, que ganhou força incrível depois das duas guerras do século passado, nos fez crer em um monte de coisas, infantilizou toda uma geração, só pra vender mais. Nesse contexto, olhar o outro de frente, com maturidade e respeito, não faz sentido. Se for uma criança então, piorou. Soma-se a isso o fato de que a infância já não era mesmo muito respeitada mundo afora (a “invenção” da infância é bem recente) e pronto. O pouco de conhecimento que temos sobre a vida psíquica das crianças pequenas vem sendo ignorado de propósito há tempos.

Daí, voltando pro meu exemplo prosaico e singelo, meu filho, tão pequeno, me dá um bela de uma lição e traduz, em atos, o que esses caras todos aí de cima levaram anos estudando. Ele sente sim. “Tombinho”, pra mim, é coisa séria pra ele. E, sim, mamãe, é preciso respeitar e acolher, ajudar o pequeno a processar a vergonha, o medo, a frustração e a raiva, que são sentimentos humanos, tanto dos “grandes” quanto dos “pequenos”.

Dizem o próprio Karp e, com muito mais propriedade, a Laura Gutman (**) que somos nós, pais/mães e adultos, que precisamos nomear os sentimentos dos filhos para ajudá-los a entender o que se passa com eles e, dessa forma, aprender a lidar (um pouco melhor) com as emoções. E foi precisamente na medida em que eu nomeei a vergonha de Enzo que o sentimento passou a fazer sentido e o choro perdeu sua função primordial, a comunicação.

De lá pra cá Enzo fala muito, muito mesmo sobre sentimentos. Virou um “bavinho”, pois qualquer pequena frustração que tem, corre me contar anunciando que está “bavo”. Até faz graça com isso, é preciso dizer, e às vezes fica “bavo” de mentirinha. De todo o modo, também é preciso dizer, praticamente não faz “birra” no sentido clássico do termo e simplesmente não chora mais para expressar qualquer sentimento que tenha. Sempre fala o que está sentindo e isso resolve ou alivia o conflito, seja dele com ele mesmo seja dele com a gente (quando negamos alguma coisa, por exemplo).

Além do mais, as crises de frustração, que duravam bem mais, agora são rápidas e levam, em geral, o tempo de uma conversa. Também sinto que a ligação e a confiança mútuas aumentaram. Sei que essa confiança vai fazer a diferença no nosso relacionamento –e no relacionamento dele com outras pessoas– quando for maior e isso, por si só, já será muito.

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(*) Susan Stockdale é uma artista norteamericana, ilustradora de livros infantis, que eu conheci fuçando no Etsy (loja virtual de arte, design e quinquilharias bonitinhas diversas). A imagem, aliás, é de lá mesmo, vá por aqui se quiser mais detalhes.

(**) Recomendo muito uma série de vídeos de uma palestra da Gutman sobre seu livro “El poder del discurso materno“. Aqui embaixo, o primeiro trecho de 7, que valem a pena.

Dá pra ir assistindo às outras partes pelo próprio navegador do You Tube (por aqui). Altamente recomendável.

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