Arquivo da tag: tempo

dos limites e do ócio

Discordo bastante do senso comum sobre limites. Não acho que o principal problema das crianças seja falta de limites. Ao contrário, a vida delas já é bastante limitada, bem mais do que foi na minha geração. O que falta, na verdade, é tempo (com os pais, para o ócio, para não fazer nada, para fazer de tudo um pouco, para brincar, para errar…) e espaço (físico-literal, mas também figurado. Não há espaço para a infância, que é experimental e errante por natureza, numa sociedade em que, de repente, tudo é “orientado para resultados”).

Daí que venho pensando bastante nisso e, hoje, boa surpresa, encontro esse texto aqui no MMqD. Direto ao ponto, bota os pingos nos “is”. Estamos criando pessoas ou um exército de futuros yuppies que vão falar 15 línguas, ter experiências internacionais, MBAs, conhecimento sobre vinho e gastronomia nanomolecular e, paradoxalmente, não farão a mínima ideia de quem são?

Recomendo a leitura.

E, aproveitando, vale ver esse vídeo aqui, do sempre ótimo Carlos González. Com muito bom humor, tiradas irônicas e algum deboche, ele fala o que precisa ser dito sobre limites. Está em espanhol, infelizmente sem legendas. Mas, no geral, dá pra entender bem. E vale a pena.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em reflexões

confissões hedonistas

Eu tenho que:

-Mandar e-mail de trabalho;

-Passar pano no chão;

-Colocar roupas na máquina de lavar;

-Almoçar;

-Fazer xixi;

-Dormir (passei a noite acordada terminando uma matéria que precisava entregar hoje).

**********************

Eu quero:

-Blogar (tenho 14 ideias rascunhadas para tirar do papel, mais um monte de coisas que passam diariamente na minha cabeça);

-Ler um pouco mais do livro começado em dezembro e, vergonhosamente, ainda não terminado;

-Começar a ler/reler a bibliografia recomendada para a prova do mestrado (vou prestar quando abrir o próximo edital, provavelmente em outubro);

-Avançar na leitura desta biografia do John Lennon;

-Assistir aos outros episódios do documentário em série “Amores Expressos“, da Estela Renner e do Tadeu Jungle.

********************

Eu disponho de:

-Pouco mais de uma hora e meia, duas horas, tempo médio que dura o soninho da tarde de Enzo. #comofaz? Alguma dica? Alguma sugestão? Alguém? Alguém?

********************

Bom, como você está lendo esse texto, acho que fica óbvia minha opção mais ou menos hedonista, né?

Eu fiz:

-Passei pano na casa rapidinho, caprichando só onde o Enzo fica;

-Botei o que sobrou da massa de ontem no micro-ondas com um pouco de molho pronto e comi, em menos de cinco minutos, com um resto de salada de rúcula;

-Fiz o xixi mais rápido da história;

-Mandei o e-mail mais objetivo ever;

-Mantive o espírito dormir é para os fracos;

-Corri para o blog;

-E daqui vou para um dos artigos da bibliografia do mestrado.

********************

Deixar pra lavar a roupa só amanhã pode, Arnaldo?

(PS: esse post foi escrito na segunda, dia 21/5)

4 Comentários

Arquivado em lado B, Maternidade

maternidade é competição?

Pulga atrás da orelha: quando foi que a maternidade/paternidade virou competição? Ser mãe/pai é competir? O “desempenho” dos filhos é o que mede a qualidade da maternagem/paternagem (ok, essa palavra não existe, mas vou me permitir a licença poética)? É justo cobrar dos (ou esperar que os) filhos sejam os primeiros em sei-lá-o-que para que mães/pais ganhem sei-lá-o-que na comparação com outras/os mães/pais? Ou nós estamos tão acostumados à competição que nem percebemos a doideira que é tratar os filhos como se fossem competidores e/ou troféus?

Não tenho as respostas. Não tenho nenhuma delas, na verdade. Mas tenho pensado muito nisso, especialmente depois de encontros casuais que tenho tido com outras mães. Parece que há certos marcos de “desempenho” esperados para os filhos que servem, na verdade, para as mães medirem o “sucesso” delas e das crias.

Por exemplo: engatinhar é um desses marcos. Rola uma comparação deliberada para se saber qual bebê já engatinha ou começou a engatinhar primeiro, como se isso realmente significasse alguma coisa. O que se ganha quando um neném é “precoce” nessa área? Eu não sei, mas as mães parecem saber. Um google despretensioso vai mostrar que a idade “ideal” para começar a engatinhar é entre seis meses e um ano. Qualquer pediatra com dois neurônios funcionando vai dizer que, nesse período, o que vale mesmo é respeitar o tempo de cada criança. Mas experimenta dizer isso para as mães.

Dia desses ouvi de uma delas, cujo filho com 5 meses “quase engatinha”, que o “segredo” para a precocidade (que ela deve achar uma qualidade a ser copiada) do rebento é que ela nunca o pega no colo. Deixando o filho sozinho, sem colo, ela conseguiu que ele desenvolvesse habilidades motoras mais cedo. E ela critica as mães que fazem o contrário.

Pergunto: 1) Que vantagem o filho leva com isso? 2) Não seria melhor ter colo de mãe enquanto isso é fundamental –até para estimular o desenvolvimento neurológico e as sinapses– e deixar para estimular a evolução motora quando for a hora (ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo)? 3) Essa mãe já refletiu sobre a importância da autoestima na vida do filho? Será que já pensou que “se virar sozinha”, nessa idade, não é algo desejável para uma criança?

Filosofia de botequim (que eu A-DO-RO! Pena que não esteja tomando cerveja por esses dias. Do contrário, confesso, já estaria com uma bem gelada a me fazer companhia): vivemos em uma sociedade altamente competitiva, que estimula ainda mais competição como se isso fosse o único caminho para uma prometida prosperidade. Nós pais, perdidinhos da silva, achamos que o melhor para os filhos é que já nasçam competindo, que já nasçam na frente, chegando antes dos outros bebês em qualquer lugar que seja.

É uma síndrome de maternagem desenvolvimentista, sabe como? A preocupação principal deixa de ser o bem estar, a felicidade, o crescimento saudável e no tempo de cada criança, o respeito às etapas e ao ritmo do filho. O objetivo torna-se desenvolver -o quanto antes, de forma “otimizada”- tudo o que tiver que ser desenvolvido no menor espaço de tempo possível.

E daí a competição: se meu filho engatinha antes, ponto para mim, que consegui estimulá-lo e desenvolvê-lo mais rápido. Se ele anda primeiro, ótimo. Se fala primeiro, então, nossa, eu poderia ganhar um Nobel da maternagem.

O natural sequer é considerado. E o tempo, que nos submete a todos, é solenemente ignorado na busca ansiosa por alcançar, via filhos, a ponta, o pódio, o primeiro lugar de qualquer coisa que seja. Os filhos são superestimulados e, paradoxalmente, recebem menos atenção do que mereciam, já que “aprender a se virar sozinho” virou mantra. Na maternagem desenvolvimentista hegemônica,  quanto antes os bebês ficarem independentes, melhor. Mesmo que isso custe (se é que alguém ainda se preocupa com isso) boa parte da formação afetiva e emocional desse neném.

E essa “nova” forma de maternar -não por acaso- cai como uma luva numa sociedade consumista e individualista que parece que desaprendeu a ter filhos. Enquanto não consome, filho não se insere nesse contexto. Para mim, parece fato que, ao passo que a ciência evolui e permite que casais que jamais teriam filhos concebam, coletivamente, perdemos a capacidade de nos reproduzir a contento, pois perdemos -e nos orgulhamos disso- habilidades fundamentais para maternar/paternar:

-Não temos mais tempo: não esperamos nossos filhos crescerem e se desenvolverem; queremos acelerar os processos todos. Não temos tempo, nem nossos filhos tem, para esperar as etapas normais e apropriadas.

– Não temos mais disponibilidade: prioridade é o que vem em primeiro lugar. Não dá para ter vários primeiros lugares na nossa lista. E, em geral, mesmo querendo priorizar nossos filhos, na prática, priorizamos o que paga as contas. Porque, afinal, as contas precisam ser pagas, e vivemos numa sociedade esquizofrênica que nos faz escolher entre filhos e ganha-pão.

-Não temos mais paciência: sou tecnológica, adoro os avanços todos da ciência, mas acho que o mundo super conectado, que nos leva a trabalhar como loucos (ao invés de nos poupar tempo, como seria de se supor) também nos faz acostumar com um ritmo irreal e não-natural de vida. Queremos adiantar tudo, queremos tudo para ontem, levamos o imediatismo a um outro nível. Não queremos para já, queremos que já esteja pronto quando começarmos a desejar o que quer que seja.

-Não respeitamos o que é natural: bacana mesmo é o artificial, é o que acelera processos, “facilita” processos, substitui o que seria natural por algo mais adequado à nossa vida corrida, cosmopolita, sem qualquer ligação com instintos, ancestralidade, com as heranças que gerações anteriores levaram milênios para aperfeiçoar e nos legar.

E, veja, não estou apontando o dedo para ninguém. Também me incluo nisso tudo aí, também sou fruto disso tudo aí, também reproduzo isso tudo aí, também já me flagrei cobrando a mim mesma sobre o desenvolvimento do Enzo e planejando quais as habilidades dele eu vou querer “acelerar”.

Não aponto dedos não apenas porque teria de começar por mim mesma e porque não estou aqui para isso, mas, principalmente, porque não há exatamente responsáveis. A sociedade caminhou para onde estamos, nos trouxe até aqui, nos estimula. Somos consequência do mundo em que vivemos, dos valores do nosso tempo, da ciência e das informações de que dispomos, daquilo que nós e que os outros consideramos importante, ainda que discordemos um pouco (não vivemos numa ilha). Somos filhos do tal zeitgeist, o “espírito do tempo”.

E o espírito do nosso tempo é extremamente competitivo, individualista, frenético,workaholic (vida pessoal, esse palavrão, não gera lucro para as empresas capitalistas, afinal), artificial, contraditório, caótico, precoce, imediatista, consumista e eternamente insatisfeito. Por que as mães ficariam de fora?

O que nos resta, então? Refletir, refletir, refletir. Debater, debater, debater. Transformar, transformar, transformar. E olhar para os nosso filhos, acima de tudo, com os olhos livres desses óculos todos que nos fazem ver os pequenos sob o prisma do que o mundo quer deles, não do que eles querem do mundo e podem dar a ele.

Fácil não é. Mas também não é impossível. Minha segunda resolução -já colocada em prática- é respeitar as inclinações do Enzo e o tempo dele. Quando ele quer brincar no chão, tentar engatinhar, tentar andar, ajudo, estimulo, fico do lado. Quando ele quer colo, sombra e água fresca, é isso que dou. Quando me cobram largar meu filho, não dar colo, deixá-lo “independente”, não estou mais me calando. Digo que optei por uma maternagem na contra-mão mesmo, sinto muito, mas não vou na sua casa dar pitaco, né? Plis, não faça isso na minha. Faço isso por mim, mas também pelas outras mães. Circular conhecimento. Esse é o nome do jogo.

Também decidi -faz tempo, o que faz dela minha primeira resolução- priorizar mesmo Enzo. Meu tempo é dele. Ponto. Isso me custa correrias extras no trabalho, mas vale muitíssimo a pena. Qualidade também é quantidade nesse caso. E como eu posso (tem mãe com bem menos sorte), não vejo razão para não fazer isso.

E -terceira resolução, que na verdade é consequência de uma resolução maior (fugir dos modismos consumistas)- optei por mudar um pouco as coisas com a festa de um ano do Enzo. Estava planejando contratar especialistas e buffet para fazerem o aniversário dele. Mas mudei de ideia e vou fazer tudo (com exceção dos salgados). Não quero inserir Enzo desde sempre nessa coisa capitalista de competição pela festinha de aniversário mais “bacana” (leia-se mais cara e cheia de coisas supérfluas). Quero uma festa linda, claro, mas feita por nós, cumprindo todas as etapas, participando de todos os processos, com as nossas possibilidades reais, sem disfarces dados por especialistas.

Meu bolo não vai ter três andares e pasta americana. Mas vai ser delicioso, feito com muito amor, bem bonito, saudável, orgânico e sem porcarias. Enzo vai poder comer o próprio bolo!

Enfim, estou refletindo. E saindo da caverna.

8 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

maternidade real

A mãe tem um prazo apertadíssimo, que está dando o maior trabalho: não acha fontes; ninguém sabe do assunto; os que sabem não querem falar; há pouca informação disponível em locais confiáveis; o tema é compleeeeexo; ela nunca escreveu sobre isso, de modo que também está aprendendo; muitos interesses em conflito, daí que são zentas versões diferentes e uma jornalista vendida na situação, que precisa escrever uma capa em 3 dias.

O que acontece então? Acontece que a tal maternidade real fica mais real ainda:

1) Mamãe, essa coleira convicta que acha mesmo que lugar de filho é no colimdimamãe, começa a tentar convencer Enzo de que, talvez, colimdimamãe não seja assim tão bom. Filho chora lá no sofá, depois de uns minutos distraído. Mamãe ainda está no começo daquele e-mail importantão que pode definir muito da bagunça em que a apuração se encontra. E aí a cria continua chorando, enquanto mamãe faz força pra ignorar, tentando se concentrar pra terminar a p… do e-mail. Filho chora mais, mamãe tenta dialogar, depois de dar uma espichada de olho e ver que está tudo ok. “Mamãe já vai, espera só mais um pouquinho”. Mais choro. Mais “calma, filho”. Mais mãe tentando se concentrar pra terminar mais rápido. Finito! Mãe termina o e-mail. Olha pro filho, feliz, pra dar a boa notícia. Silêncio. Filho deitadinho no sofá, segurando a naninha, dormiu. Na prática, mamãe fez o que, na teoria, as moças que pensam como ela não deveriam fazer: deixar bebê chorando, sem resposta, até adormecer. Mamãe suspira, triste, ajeita Enzo no sofá pra ele dormir melhor e corre pro notebook aproveitar o tempo, que o tempo “ruge”.

2) Mamãe vai ao freezer pegar papinhas para dar almocinho ao recém-acordado minimenininho, que brinca feliz e contente no carrinho (coisa rara, minhagente, beeeeem rara). Descongela a papinha, dando graças aos céus por ter tido a brilhante ideia de deixar várias prontas congeladas, e começa a servir o bebê. Mas acontece que Enzitolino está muito mais interessado em continuar brincando do que em comer.  Mamãe, em condições normais de temperatura e pressão, não insistiria. Guardaria a papinha por mais alguns minutos e ofereceria depois. Respeitaria a inclinação do guri. Aliás, não teria nem oferecido, já ciente de que a cria estava dando de ombros pra essas necessidades da natureza. Aproveitaria, pois, a tranquilidade para deixar pronta a frutinha da sobremesa. O que a mamãe faz de fato? Insiste. “Ah, Enzo, só mais essa colheradinha, vai”. “Filho, come mais essa”. “Não cospe tudo, está tão gostosa”. “Isso, gargalha mesmo que a mamãe aproveita e bota mais uma colher na sua boca”. Resultado: muxoxo, chororô, 20 minutos de queda de braço, com Enzitolino derrotando mamãe e sua colher cheia de ervilhas-e-beterrabas-e-abóboras-e-espinafres de lavada. Nem metade do potinho foi consumido, Enzo agora está irritado e mamãe, frustrada e atrasada.

3) Todo mundo sabe que não se deve dar mamadeira aos bebês quando eles não querem comida. Mamãe também sabe. Só que mamãe tem pressa. Lembra que Enzo não comeu direito? Pois é, então agora Enzo está com fome. Só que mamãe está atrasada e não pode ficar outros 20 minutos dando comida de novo (lembra que ela, contrariando suas mais sábias determinações, insistiu à beça com o bebê?). Pois eis que ela tem a brilhante ideia de dar a mamadeira. Mamãe prepara em dois minutos, bebê mama em outros cinco minutos. Almoço resolvido. Resolvido? Será? Mamadeira não é almoço, mamãe sabe. E suspira, arrependida. Mas o que está feito, está feito. E mamãe corre pro notebook que o tempo, ah, esse “ruge”.

4) Todo mundo sabe que os bebês devem comer ao menos três porções de frutas por dia. Mamãe também sabe. Acontece que ela não teve tempo de ir comprar frutinhas fresquinhas. Acontece que ela olha na geladeira, esperando pela redenção, e só encontra uma (sim, UMA) ameixa, madura demais. Mamãe analisa a fruta, vira, desvira, cheira, chacoalha, parece boa, parece estragada, deixa pra lá que eu não vou ter coragem de dar isso ao Enzo. Gosto amargo da frustração combinado com o gosto azedo de que p. de mãe eu sou, sabe como? “Ah, não, filho, não tem nem fruta!”, a mãe desabafa, com a cara mais feia do mundo, porque Enzitolino para tudo o que está fazendo e encara a mãe, sério. E mãe devolve o pequeno no sofá e volta pro note, um tanto aliviada de não ter dado nada, porque demoraria ainda mais amassar fruta, botar bebê no cadeirão, botar babador, dar fruta, brincar com Enzo brincando com a fruta, tirar babador, tirar bebê do cadeirão. E aí a mãe se dá conta de que, secretamente, comemora não ter alimentado direito seu filho, deosdoceu! E aí fica triste de novo, mas pega o telefone e liga pro próximo de sua looooonga lista de fontes.

E passa o dia se sentindo a mãe mais porcaria de todas as mães, de todos os mundos, de todos os planetas, de todos os tempos, de todas as galáxias. E quase liga pro marido pra encher o saco dele desabafar. E quase liga pra própria mãe pra encher o saco dela desabafar. E, atrasada, liga pra fonte pra encher o saco dela entrevistar.

Balanço do dia: culpa-materna-nível-máximo MODE ON convicto.

Conclusão inconteste: maternidade real sucks!

7 Comentários

Arquivado em lado B, Maternidade