dilema revisitado # 1: o dilema

Sabe o dilema por excelência de quem é mãe, a dúvida “carreira x maternidade”? Pois é, não passei por ele. Quando engravidei, já estava trabalhando em casa, frilando em home office, e decidi que manteria esse arranjo depois que Enzo nascesse. O objetivo, óbvio, era ficar perto do meu filho, suprir suas necessidades (de afeto e colim-di-mamãe inclusive), acompanhar seu desenvolvimento e evitar que ele fosse, bebezico, parar numa dessas escolinhas tipo “estacionamento” de bebê, sabe como?

Outra razão pela qual passei ao largo dessa dúvida é que nunca tive propriamente uma dúvida, uma opção. Não considero como hipótese viável parar de trabalhar. Primeiro porque não quero. Amo o que faço, ser jornalista é parte do que me define como pessoa, escolhi essa carreira aos 13 anos e, antes disso, aos 6, por mais precoce que pareça e guardadas as devidas proporções,  já sabia que trabalharia escrevendo. Ganhei uma máquina de escrever dos meus pais com 7 anos e, dias depois, já tinha escrito um “livro” e tentado vendê-lo ao jornaleiro da esquina.

Acho importante dar atenção integral ao Enzo, sei que ele precisa disso e que, especialmente nos dois primeiros anos de vida, o contato com os pais, a proximidade, a disponibilidade irrestrita e o afeto são essenciais para o desenvolvimento emocional sadio dos pequenos. Mas também sei que eu preciso estar emocionalmente saudável para criar um filho emocionalmente saudável. E é claro para mim que eu jamais conseguiria isso abdicando de algo que é essencial.

Segundo motivo pelo qual não é viável deixar de trabalhar: a grana, óbvio. 1) O equilíbrio do nosso orçamento doméstico depende do que eu recebo frilando; 2) Não acho justo com o Dri que pese apenas sobre as costas dele o ônus de botar dinheiro em casa. É pressão demais, responsa demais. Aqui em casa, somamos forças, não dividimos; 3) Não gosto da ideia de depender financeiramente de ninguém, nem por algum tempo nem como opção para a vida toda. Já vivenciei histórias demais de mulheres que, por uma ou outra razão, acabaram abdicando do seu meio de sobrevivência e depois, anos mais tarde, ficaram literalmente sem nada, dependendo de “favores” de ex-maridos, filhos e quetais. Sei que há legislação, que essas mulheres tinham direitos, mas não foi bem assim que os parentes enxergaram a situação. Vi mulheres que trabalharam a vida inteira para dar a melhor assistência aos filhos serem chamadas de “preguiçosas” porque nunca “trabalharam”.

Não quero isso pra mim. Quero a liberdade de pagar minhas contas, de decidir meu destino, de pagar pelas minhas escolhas literalmente. E isso, feliz ou infelizmente, nesse mundo capitalista de meodeos, só quem tem verbas na conta bancária- ainda que minguadinhas como as minhas.

Tudo isso pra chegar ao ponto: se me safei do dilema lá no comecinho, estou vivendo o dilema hoje, com outra roupagem, disfarçadinho. Explico: meu arranjo home office deu certo por todo esse tempo porque Enzo era um bebezico. Conforme ele foi crescendo, a coisa foi complicando em termos de tempo livre para trabalhar. Contei em vários posts perrengues pelos quais passei recentemente para conseguir entregar matérias em dia. Uma coisa era trabalhar quando Enzo tinha semanas, meses, um semestre. Nessa fase, meu minimenininho praticamente dormia o dia todo -ou quase isso. Lembro que, aos 6 ou 7 meses, ele dava três cochiladas longas durante o dia, o que, na soma geral, me garantia aí quase seis horas livres para trabalhar.

Depois disso, como é natural, esperado e mega comemorado, as sonecas diurnas diminuíram, diminuíram até a configuração atual: cerca de duas horinhas de sono (um pouco mais às vezes, mas eu tenho tentado limitar para garantir um sono bacana e de qualidade durante a madrugada), o que significa que mamãe aqui consegue fazer pouco, muito pouco durante o dia.

Daí que rola: 1) mais trabalhos na madrugada; 2) mais estresse e correria; 3) impossibilidade de assumir mais frilas (necessários para manter minhas contas em dia).

Temos queimado as pestanas aqui em busca de soluções realmente viáveis e que nos deixem satisfeitos. Algumas alternativas, antes completamente descartadas, foram recolocadas na mesa. Uma delas seria contratar uma babá que ficasse com Enzo ao menos por meio período, especialmente na parte da tarde, que é quando eu tenho mais volume de trabalho, mais chance de fazer entrevistas etc. A outra seria colocar Enzo numa escolinha pelo menos em período semi-integral, o que me renderia aí cerca de cinco horas de trabalho diárias.

A babá me agrada porque, por essa solução, Enzo continua ficando o dia inteiro comigo, em casa, sob meus olhares e cuidados, à vontade, mantendo sua rotina de sempre e ganhando colinho de mãe quando quiser. Já a escolinha tem o ponto positivo de colocá-lo em contato com outras crianças (o que ele adora e do que sei que sente muita falta) e estimulá-lo mais. Enzo é curioso, inteligente, desbravador. Ficar em casa tem sido entediante para ele (tem post no forno sobre isso, mas não tenho dado conta de escrever tudo o que rascunho) e noto que qualquer novo ambiente e desafio o deixa absurdamente feliz (vou contar a experiência dele numa escolinha que visitamos no próximo post, prova disso que escrevi agora).

Por outros lados, confesso, não gosto da ideia de ter uma babá cuidando do Enzo. Acho que ele vai ficar com todo o lado negativo de não estar comigo o dia todo sem ganhar nada em troca (como ganharia na escolinha), pois, na prática, vai passar as tardes com uma estranha mas sem o lado bom de conviver com outras crianças e aprender, ser estimulado.

Mas tudo o que li sobre as escolas, e especialmente as opiniões de especialistas que respeito muito, como a do Dr. José Martins, que responde perguntas de leitoras no blog da Paloma Varón, sugere que se espere pelo menos até a criança completar 2 anos. Há quem recomende aguardar um pouquinho mais, até os 3. Ou, ainda, caso as crianças convivam com outras crianças em casa, colocar na escola só dos 4 em diante. E eu concordo com isso, acho que faz muito sentido e, mesmo que tenha gostado do que vi nas escolas que visitamos até agora (relatos no próximo post), acho cedo demais para colocar meu filho nelas.

E aí, como faz?

Por enquanto, como medida paliativa, Dri e eu sentamos com as nossas respectivas mães e pedimos, literalmente, socorro. Elas sempre ajudaram na medida do possível, e essa ajuda sempre foi muito bem vinda. Mas estamos precisando de mais. Minha sogra acha que não é mesmo hora de Enzo ir para a escolinha, de modo que está disposta a ajudar no que precisarmos.

Minha mãe compreende que, além de tudo, ainda temos o problema da grana: não sei como é em outras cidades, estado e países, mas por aqui as escolas são caras. Mesmo. Então, também topou vir duas vezes por semana, às tardes, ficar com Enzo.

Não é o ideal nem para mim nem para elas, que têm suas próprias vidas, outros compromissos e já criaram os próprios filhos. Mas é o que temos para o momento enquanto não decido se vamos de babá, de escolinha, se esperamos mais um pouco, como nos arranjaremos nesse caso etc.

Alguma sugestão?

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7 Comentários

Arquivado em Maternidade, reflexões

7 Respostas para “dilema revisitado # 1: o dilema

  1. Ingrid

    Nat,
    Eu não sei bem se o que vou te falar serve como sugestão, mas vou compartilhar minha experiência recente pra que você possa avaliar.
    O Nicolas tem 5 meses e está na escolinha há duas semanas. Eu volto a trabalhar na sexta-feira (sim, voltar numa sexta realmente é chato…). Moro em SP, tenho a “sorte” de estar num local onde há bastante crianças e consequentemente muitas opções de escolinha. Tenhos dois berçários na mesma quadra em que moro e é num deles que coloquei minha cria. Trabalho o dia todo, marido idem e embora eu more perto da casa dos meus pais, não quis que minha mãe ficasse com a obrigação de cuidar do neto todos os dias, até porque ela tem os afazeres dela. Até considerei inicialmente em colocar no berçário meio período e o resto do dia ele ficar com a avó. Mas minha mãe está num momento delicado (menopausa) e fiquei preocupada com algum mal estar que ela pudesse ter e acontecer algo com ela ou com o bebê. Eu fui nas duas escolinhas próximas, fui em mais duas um pouco mais distante, conversei pacas com as coordenadoras, com as berçaristas, analisei a estrutura e a metodologia de ensino (sim, mesmo no berçário há diretrizes educacionais difetenciadas) e optei por uma delas, exatamente ao lado de casa, da minha janela consigo ver o playground da criançada. Chorei no primeiro dia, de soluçar, assim que cheguei em casa depois de deixá-lo. Passei uma semana buscando no meio da tarde, o famosos período de adaptação. Ontem ele ficou odia todo, mesmo se recuperando de um resfriadinho típico do clima e do ambiente com novas crianças). Dor no coração, de verdade. Mas ele está: 1) feliz, muito feliz quando chega e quando sai, ou seja, feliz por ir para esse lugar, ele ri na porta quando chega e feliz por voltar pra casa, ele ri pra mim quando vou pegá-lo 2) estimulado do jeito e na intensidade certos, as berçaristas são treinada e tratam meu filho como se fosse delas (eu apareço de surpresa na escolinha pra checar como estão as coisas, as tias que me desculpem, mas estão acostumadas).
    Consegui fazer uma faxina pesada na casa, arrumar tudo o que eu precisava antes de retornar ao trabalho e ter tempo livre pra ler o que quero, inclusive seu blog.
    Posso ser sortuda, mas todas as minhas amigas tem a rotina bem parecida com a minha e está tudo bem de verdade. Tenta um meio período na escolinha, 4 a 6 horas por dia, todo dia. O menino Enzo vai ficar bem. E você também.
    Beijos solidários!!

    Ingrid

    • Nat

      Ingrid,

      antes de mais nada, suuuuuper obrigada por ter compartilhado sua experiência. Isso -essa troca, essa solidariedade- é uma das coisas mais bacanas no blog. Aprendo muito! Obrigada pela solidariedade e pelo carinho. Mesmo.

      Sua experiência me deixou menos angustiada. Mandei até pro marido 🙂 Estou escrevendo um post novo sobre isso, pois visitei uma escolinha já e estamos agendados para visitar outras duas. Assim como você, moro num bairro repleto de escolas, uma delas eu também vejo da janela da minha lavanderia (a que já visitei).

      Gostei muito, inclusive do método que adotam. São construtivistas mesmo, as crianças que decidem o que aprender, fazem pesquisas, apresentam aos colegas, todas as salas tem espaço para as crianças se reunirem em círculo, as mesinhas são dispostas em círculo também, há horta, árvores frutíferas, animais e viveiro de pássaros, muito verde, play ao ar livre, na terra, achei todos muito cuidadosos com os pequenos, carinhosos.

      E o melhor: Enzo foi com a gente, claro. Entrou em todas as salas, vasculhou tudo, fez amizade com uma outra bebê da idade dele, “invadiu” a sala dela e ficou brincando com ela, sob supervisão da berçarista, enquanto o pai e eu conversávamos com a coordenadora.

      Quando fomos buscá-lo pra ir embora, chorou muuuuito, não queria ir! Sei que isso tem mais a ver com a falta de ambiente adequado pra brincar que com a escola em si, mas achei positivo ver que ele ficou tão bem naquele lugar, naquele espaço, que se sentiu à vontade. Pra mim, isso quer dizer muita coisa.

      Enfim, estou aqui quebrando a cabeça, mas mais aliviada depois do seu depoimento.

      bjocas e volte sempre!

  2. Pingback: dilema revisitado # 2: a escolinha | mãederna

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  4. Oi Nat. Bom, eu deixo o Enzo na escolinha desde os 5 meses, já que não tive outra alternativa. Babá fico com receio depois de ver tanta barbaridade na TV, só colocaria com uma indicação muito confiável e se houvesse uma empatia grande.
    O que me tranquilizou foi o fato da dona da escola que o Enzo vai ser a madrinha dele. Ela não fica todos os dias na unidade que ele estuda, mas todos lá sabem que ele é afilhado da dona e nem ousariam fazer algo errado com ele (eu espero!). Mas mesmo ela sendo minha amiga das antigas, a enchi de perguntas, desde a parte operacional da coisa como proposta pedagógica e tal.
    O Enzo se adaptou muito bem e fico feliz em ver o quanto ele gosta das tias e do ambinete. O complicado será quando ele tiver com 6 e precisar mudar. O que minha cumadre explicou é que quanto mais cedo eles vão para a escola, menor o sofrimento, já que quando começam a perceber o que significa a mãe ou pai deixá-lo lá para ir trabalhar, já está ambientado e não sofre. Diferente quando está maior e tem a sensação inicial de abandono.
    Porém minha irmã mais nova só levou o Lucas para a escola depois dos 2 anos. Antes disso ficava parte do dia com ela e parte com a sogra. E também deu certo. Claro que ele chora quando ela deixa o Lucas na escola, mas quando vai buscá-lo tá lá todo feliz brincando.
    Mas um ponto tenho que dizer….criança que vai para a escola é mais sociável, aprende a dividir, a respeitar….coisas que uma criança criada em casa e sem irmãos é mais difícil de lidar. Nada que não seja contornável também, mas aí é preciso muito mais disciplina das avós e mamães, né?! Espero não ter te confundido ainda mais….
    Bj

  5. Pingback: dilema revisitado # 3: as reflexões sobre maternagem | mãederna

  6. Nat

    Então, Dri, não gosto de babá também não. Não gosto de ninguém estranho em casa e, além disso, também tenho medo.

    Estava falando com o Dri sobre isso hj ainda: como Enzo cresceu comigo e está no auge da fase do apego, acho que ele vai sentir muito minha falta. Teria sido melhor, nesse cenário, colocá-lo ainda bebezico…

    Por isso que vivo nesse impasse e não consigo decidir nada. Vou ver se consigo que a Célia, que trabalhava na casa da minha mãe quando eu era mais nova, tope ficar com ele. Se ela topar, lindo, porque nela eu confio, ela super querida etc…Depois volto pra contar!

    Bjos

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